Reprimidos, gays da Tchetchênia pedem ajuda a ativistas LGBT da Rússia

Ekaterina Sokirianskaia

Em Moscou (Rússia)

  • JOHN MACDOUGALL/AFP

    Ativistas protestam contra a perseguição aos gays na Tchetchênia, em frente a Chancelaria em Berlim, durante encontro entre a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da Rússia Vladimir Putin

    Ativistas protestam contra a perseguição aos gays na Tchetchênia, em frente a Chancelaria em Berlim, durante encontro entre a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da Rússia Vladimir Putin

A elite tchetchena de Ramzan Kadyrov está sendo indulgente com o preconceito para escorar seu governo brutal, com permissão da Rússia.

No início de abril, surgiram relatos de que uma repressão aos homens gays estava em andamento na Tchetchênia, a pequena república turbulenta no sul da Federação Russa. Segundo o jornal russo independente "Novaya Gazeta", mais de 100 homens gays foram detidos pela polícia e brutalizados em prisões secretas, com pelo menos três deles sendo mortos. Muitos permanecem detidos.

Em medo e desespero, 75 pessoas telefonaram para o número da Rede LGBT, Rússia, dedicado à Tchetchênia. Dentre essas pessoas, 52 disseram ter sido vítimas da violência recente e 30 fugiram para Moscou, onde receberam ajuda de ativistas LGBT.

"Assim que levam você para lá", um sobrevivente me contou, referindo-se à prisão secreta na Tchetchênia onde esteve detido, "eles começam imediatamente os espancamentos e eletrocussões, exigindo informação sobre com quem você está saindo". Os guardas, ele disse, cospem nos rostos dos prisioneiros ou pior: "Somos criaturas tão odiadas que cada guarda se sentia obrigado a nos bater ao passar".

Essa perseguição aos gays é sintomática do regime repressivo que atualmente governa a Tchetchênia. Desde o colapso da União Soviética há um quarto de século, esse posto avançado escarpado do antigo império passou por agitação separatista, terrorismo e duas guerras sangrentas. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas, cerca de 5.000 continuam desaparecidas e suas cidades foram deixadas em ruínas.

O líder autocrático da Tchetchênia, Ramzan Kadyrov, desfruta de apoio quase incondicional do presidente russo, Vladimir Putin. O pai de Kadyrov, Akhmad, começou como líder separatista islâmico, mas no início da segunda campanha militar da Rússia contra os rebeldes tchetchenos, que teve início em 1999, ele trocou de lado e passou a apoiar Moscou.

JOHN MACDOUGALL/AFP
Ativista protesta contra a perseguição aos gays na Tchetchênia

Quando Akhmad Kadyrov foi morto em um ataque terrorista em 2004, seu filho assumiu seu lugar, expulsando homens fortes rivais e monopolizando o poder na república ao colocar seu pessoal encarregado das instituições federais. Kadyrov assegurou que seus combatentes fossem integrados na força policial local, em grande parte preservando a cadeia de comando, e as habilidades violentas deles foram empregadas em operações de contraterrorismo de mão pesada em nome do Kremlin.

Em 2009, ao final do que foi oficialmente chamado de "operação de contraterrorismo", ele teve sucesso em reprimir a insurreição separatista e consolidar seu regime. A lealdade a Moscou foi recompensada com generosos fundos federais para erguer as cidades tchetchenas dos escombros e para construção de arranha-céus reluzentes na capital, Grozny.

Punição coletiva é uma característica da repressão de Kadyrov. Parentes daqueles que desagradam as autoridades são ameaçados, espancados, mantidos como reféns, expulsos da república ou têm suas casas incendiadas. Esses métodos foram aplicados inicialmente contra os suspeitos de serem rebeldes, mas posteriormente contra os críticos do regime, dissidentes religiosos, até mesmo motoristas bêbados. As mesmas técnicas agora são aplicadas às famílias dos homens considerados gays, que são ameaçadas de detenção a menos que os suspeitos se entreguem à polícia.

"Se alguém não obedecer minhas ordens nesta república, eu o forçarei", se gabou Kadyrov na TV tchetchena em 2013.

Nesse clima de humilhação e medo intenso, os tchetchenos estão fugindo da Federação Russa em massa. Mas o Kremlin faz vista grossa a esses excessos em troca da fidelidade. Kadyrov chama a si mesmo de soldado de infantaria de Putin. A Tchetchênia envia milhares de funcionários públicos, estudantes e crianças às ruas para celebração do Dia da Rússia, do aniversário de Putin e da anexação da Crimeia. "Voluntários" tchetchenos lutam na Ucrânia e na Síria, e Kadyrov critica regularmente o Ocidente, os liberais russos e a oposição. Acima de tudo, Kadyrov tem buscado lutar contra o separatismo e contra a insurreição islâmica.

A Tchetchênia é um Estado dentro de um Estado. Kadyrov é o único líder regional na federação que tem controle de fato dos serviços de segurança em seu território. Além dos subsídios russos à república, uma economia paralela baseada em extorsão e propinas prospera. Funcionários públicos relatam ser obrigados a entregar parte de seus salários e bônus. Em outros casos, eles têm que comprar equipamento ou levantar fundos para projetos de reconstrução, ou coletar dinheiro como presentes para as celebridades que visitam Grozny.

Os métodos coercitivos do regime são aliados a valores conservadores punitivos. A ideologia oficial tchetchena é uma mistura de tradicionalismo, islamismo sufi e putinismo. As autoridades proibiram álcool, impõem códigos de vestuário e "comportamento moral" às mulheres, apoiam assassinatos em nome da honra e rixas de sangue, e até mesmo fecharam orfanatos por serem estranhos à cultura tchetchena.

Assim que surgiram as notícias sobre as prisões de homens gays na república, Kadyrov se reuniu com Putin em 19 de abril. Kadyrov teria se queixado ao presidente russo a respeito dos "artigos provocadores" na mídia de notícias, sobre assuntos sobre os quais se sentia "embaraçado" de falar. Essa exibição de timidez e piedade sem dúvida cai bem junto a seus apoiadores. Desde a divulgação das notícias, a liderança tchetchena tem fomentado a homofobia.

"Alguns acham que eles são sádicos e que somos simplesmente outro grupo social que estão aterrorizando", me disse um homem gay tchetcheno, "mas na verdade, isso faz parte da nova ideologia deles de uma 'nação pura'".

Ao promover o nacionalismo e o tradicionalismo, Kadyrov tenta provar aos tchetchenos que a república deles tem mais autonomia agora do que os líderes separatistas jamais sonharam, e isso justifica sua forte posição pró-Putin. Mas seu apelo à tradição é espúrio e de interesse próprio. Até agora, a Tchetchênia nunca tinha tido registro de violência organizada contra gays.

Por trás dessa fachada de estabilidade, Kadyrov carece de legitimidade, tanto em casa quanto no exterior. A elite governante da Tchetchênia tem muitos inimigos entre os militares russos, que consideram Kadyrov um separatista que foi indevidamente promovido.

As tensões internas também vêm aumentando desde 2006. A crise econômica, somada com as expropriações pelo Estado, empurraram grandes segmentos da população para um estado de privação. Apesar de críticos locais serem tratados duramente, a crescente diáspora tchetchena na Europa tem mobilizado protestos.

A situação da segurança também está deteriorando. No ano passado, um plano de assassinato contra Kadyrov foi desbaratado. As vítimas resultantes dos confrontos armados entre os serviços de segurança e insurgentes na Tchetchênia aumentaram 43% no ano passado em comparação a 2015. Ataques inspirados ou reivindicados pelo Estado Islâmico escalaram e se tornaram mais ousados nos últimos seis meses.

Kadyrov e seu grupo dependem totalmente de Putin. Está dentro do poder do presidente russo deter a violência contra os gays, esvaziar as prisões ilegais e forçar uma investigação dessa repressão. Se Putin continuar dando aprovação tácita do Kremlin às repressões por Kadyrov, ele estará apenas acumulando problemas para a Federação Russa.

O conflito tchetcheno não foi solucionado, apenas contido por meio de força bruta e um elo pessoal entre os dois líderes. A longo prazo, essa situação instável tornará quase inevitável um novo conflito mortal na Tchetchênia.

*Ekaterina Sokirianskaia é a diretora do projeto para a Rússia e Norte do Cáucaso do Grupo Internacional de Crise, uma organização independente de prevenção de conflitos.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos