Opinião: Por que meu pai vota em Le Pen? Por sentir que ela dá espaço aos invisíveis

Édouard Louis*

Em Paris (França)

  • Miguel Medina/AFP

No mês passado, o rosto de Marine Le Pen apareceu na tela do meu computador. O título embaixo da foto dizia: "Marine Le Pen no 2º turno". A líder da Frente Nacional da França, de extrema-direita, tinha avançado para a votação decisiva na eleição presidencial. Eu imediatamente pensei em meu pai, que estava a centenas de quilômetros de distância.

Imaginei-o explodindo de alegria na frente da TV --a mesma alegria que ele sentiu em 2002, quando Jean-Marie Le Pen, o pai de Marine e líder anterior da FN, também chegou ao segundo turno. Lembrei de meu pai gritando: "Vamos ganhar!" com lágrimas nos olhos.

Eu cresci em Hallencourt, uma aldeia no norte da França onde, nos anos 1980, quase todo mundo trabalhava na mesma fábrica. Quando nasci, nos anos 1990, depois de várias ondas de demissões, a maioria das pessoas ao meu redor estava desempregada e tinha de sobreviver o melhor possível com o seguro-desemprego. Meu pai deixou a escola aos 14 anos, assim como fizera o pai dele. Trabalhou durante dez anos na fábrica. Mas não teve a oportunidade de ser demitido: um dia, no trabalho, um contêiner de estocagem caiu sobre ele e esmagou suas costas, deixando-o preso à cama e dependente de morfina para atenuar a dor.

Conheci a sensação de ter fome muito antes de aprender a ler. Desde que eu tinha 5 anos, meu pai me mandava descer a rua até a casa de uma de minhas tias para perguntar se ela podia nos dar um pouco de macarrão ou pão. Eu era mandado porque sabiam que era mais fácil sentirem pena de uma criança que de um adulto.

Todo ano o valor de sua pensão de trabalhador diminuía. Tenho quatro irmãos, e no final meu pai não podia alimentar uma família de sete pessoas. Minha mãe não trabalhava; meu pai dizia que o lugar da mulher era em casa.

Aos 18 anos, graças a uma série de golpes de sorte e milagres, tornei-me um estudante de filosofia em Paris, em uma escola considerada uma das mais prestigiosas da França. Fui o primeiro de minha família a frequentar uma faculdade. Tão longe do mundo onde eu havia nascido, vivendo em um pequeno estúdio na Place de la République, decidi escrever um romance sobre minha origem.

Eu queria ser testemunha da pobreza e da exclusão que faziam parte de nossa experiência cotidiana. Estava chocado e perturbado pelo fato de que a vida que conheci durante tantos anos nunca aparecesse nos livros, jornais ou TV. Toda vez que eu ouvia alguém falar sobre a "França", no noticiário ou nas ruas, sabia que não estava falando sobre as pessoas com quem eu cresci.

Dois anos depois, terminei o livro e o enviei a uma grande editora de Paris. Menos de duas semanas depois, ela enviou uma resposta: não podia publicar meu manuscrito porque a pobreza sobre a qual escrevi não existia há mais de um século; ninguém acreditaria na história que eu tinha a contar. Li aquele e-mail várias vezes, engasgado de raiva e desespero.

Nos anos 2000, quando eu estava crescendo, todos os membros de minha família votaram em Le Pen. Meu pai foi à sessão eleitoral com meus irmãos mais velhos para garantir que eles votariam na FN. O prefeito e sua equipe não disseram nada quando viram meu pai fazer isso.

Em nossa aldeia, com uma população de algumas centenas, todo mundo tinha frequentado a mesma escola. Todo mundo via todos os outros na padaria de manhã ou no café à noite. Ninguém queria brigar com meu pai.

Um voto na Frente Nacional era, é claro, um voto tingido de racismo e homofobia. Meu pai olhava à frente, para o tempo em que ele "expulsaria os árabes e judeus". Ele gostava de dizer que os gays mereciam a pena de morte --olhando duramente para mim, que já na escola primária sentia atração por outros meninos no recreio.

No entanto, o que aquelas eleições realmente significavam para meu pai era a oportunidade de combater sua sensação de invisibilidade. Meu pai compreendia, muito antes de mim, que na mente da burguesia --pessoas como o editor que recusaria meu livro alguns anos depois-- nossa existência não contava e não era real.

Meu pai se sentiu abandonado pela esquerda política desde os anos 1980, quando ela começou a adotar a mesma linguagem e o pensamento do livre mercado. Em toda a Europa, os partidos de esquerda não falavam mais em classe social, injustiça e pobreza, em sofrimento, dor e exaustão. Eles falavam sobre modernização, crescimento e harmonia na diversidade, sobre comunicação, diálogo social e acalmar as tensões.

Meu pai compreendeu que esse vocabulário tecnocrático se destinava a calar os trabalhadores e disseminar o neoliberalismo. A esquerda não estava lutando pela classe trabalhadora, contra as leis do mercado; estava tentando conduzir a vida da classe trabalhadora dentro daquelas leis. Os sindicatos tinham sofrido a mesma transformação: meu avô era sindicalizado. Meu pai, não.

Quando ele assistia à televisão e aparecia um socialista ou um representante sindical, meu pai se queixava: "Não importa --esquerda, direita, hoje é tudo igual". Esse "não importa" destilava toda a sua desilusão por aqueles que, em sua mente, o deveriam estar defendendo, mas não estavam.

Em comparação, a Frente Nacional criticava as más condições de trabalho e o desemprego, pondo toda a culpa na imigração ou na União Europeia. À falta de uma tentativa da esquerda de discutir seu sofrimento, meu pai se prendia às falsas explicações oferecidas pela extrema-direita.

Ao contrário da classe dominante, ele não tinha o privilégio de votar em um programa político. Votar, para ele, era uma tentativa desesperada de existir aos olhos dos outros.

Não sei ao certo em quem ele votou no mês passado, no primeiro turno da eleição presidencial, e não tenho certeza em quem ele votará no próximo domingo (7), na decisão. Ele e eu quase não nos falamos. Nossas vidas se afastaram muito, e sempre que tentamos conversar ao telefone somos reduzidos ao silêncio pela dor de termos nos tornado estranhos um para o outro. Geralmente desligamos depois de um ou dois minutos, embaraçados porque nenhum dos dois consegue pensar em nada para dizer.

Mesmo que eu não possa lhe perguntar diretamente, tenho certeza de que ele ainda vota na Frente Nacional. Na sua aldeia, Marine Le Pen saiu na frente no primeiro turno da eleição.

Hoje, escritores, jornalistas e liberais carregam o peso da responsabilidade pelo futuro. Para convencer minha família a não votar em Marine Le Pen, não basta mostrar que ela é racista e perigosa: todo mundo já sabe isso. Não basta lutar contra o ódio ou contra ela. Temos de lutar pelos impotentes, por uma linguagem que dê lugar às pessoas mais invisíveis --pessoas como meu pai.

*Édouard Louis é o autor do romance "En Finir avec Eddy Bellegueule" (Prêmio Goncourt de primeiro romance).

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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