É preciso ampliar os limites de como lidar com o terrorismo para entender os "lobos solitários"

Waleed Aly

Em Melbourne (Austrália)

  • boris HORVAT/ AFP

    18.abr.2017 - Polícia francesa monitora área após prisão de suspeito de terrorismo

    18.abr.2017 - Polícia francesa monitora área após prisão de suspeito de terrorismo

O terrorismo tem levado a melhor sobre os agentes da lei. Mas o governo pode fazer mais do que lutar com força bruta

A terça-feira (2) marca o sexto aniversário da morte de Osama Bin Laden. Quando recordamos o quanto Bin Laden dominou a consciência pública nos anos após o 11 de Setembro, é notável que tanto sua vida quanto sua morte agora pareçam ser apenas notas de rodapé. Até mesmo a Al Qaeda mal figura em nossos pensamentos atualmente.

Mas os ataques terroristas aumentaram significativamente desde 2001. Os ataques no mundo ocidental agora ocorrem tão ocasionalmente, a ponto de o terrorismo ter deixado de ser algo que acontece "lá".

A posição do presidente George W. Bush de que os Estados Unidos precisavam invadir o Iraque para que pudéssemos combater os terroristas em Bagdá, em vez de em Boston, parece tola. A lista de cidades ocidentais que se juntaram a Nova York, Madri e Londres agora parece longa demais para ser completada: Boston, Paris, Nice, Orlando, San Bernardino, Ottawa, Berlim, Bruxelas, Estocolmo, Sydney...

Se sua inclinação era acreditar que o terrorismo é simplesmente uma guerra, que os terroristas capitulariam diante do "choque e espanto", que estaríamos mais seguros assim que pegássemos Bin Laden, tudo isso parece um tanto confuso. Mas mesmo se sua inclinação fosse ver o terrorismo como um crime, mais bem entendido e enfrentado com as ferramentas dos agentes da lei, os resultados não são muito mais encorajadores.

As inúmeras legislações especiais aprovadas por todo o mundo ajudaram a dissipar planos e com certeza aumentaram as condenações, mas a ameaça ainda está evoluindo.

Agora vemos ataques como o ocorrido do lado de fora do Parlamento em Londres, onde carnificina é produzida a partir de um ser aparentemente inofensivo. Não é um terrorismo espetacular, cinemático, como o do 11 de Setembro, nem mesmo um terrorismo coordenado, com vítimas em massa, como o do Bataclan em Paris. Não é nem mesmo coisa de planejamento e células. É rudimentar, individual, aparentemente espontâneo. Seu poder não se deve a armas, fundos e redes, e tudo mais, mas sim à leveza, agilidade e dificuldade de ser detectado.

Na Austrália, essa evolução foi mais bem simbolizada por Farhad Jabar. Ele tinha apenas 15 anos quando, em outubro de 2015, matou a tiros um funcionário do departamento de polícia, Curtis Cheng, do lado de fora de uma delegacia em Parramatta, no oeste de Sydney.

O ataque surpreendeu a polícia, que nunca tinha ouvido falar de Jabar. Nada em seu uso das redes sociais indicava um interesse maior em política do que em astros populares, e ele podia ter se radicalizado em questão de semanas. O Estado ainda não tem uma resposta clara para esse tipo de ataque por lobo solitário.

Os governos fazem uso de poder "hard" (meios militares e econômicos), o motivo para apesar de tudo o que se falou sobre o 11 de Setembro ter sido o início de um tipo de guerra sem precedente, as nações ocidentais terem respondido com uma técnica notadamente antiga: a invasão de nações específicas. E é o motivo para a polícia ter tido pouca escolha a não ser criminalizar todo tipo de comportamento significativamente distante de qualquer ato de violência.

Como a legislação de combate ao terrorismo é elaborada expressamente para capturar pessoas nos estágios preparatórios iniciais de um ato terrorista, ela abrange comportamento mais remoto do que ideias legais bem estabelecidas como tentativa ou conspiração. De fato, muitas leis antiterrorismo deixam claro que você nem mesmo precisa ter elaborado um plano específico para ser culpado de crimes ligados a terrorismo.

Como um tribunal de Nova Gales do Sul disse em uma decisão envolvendo uma dessas leis, a intenção do Parlamento era "criar delitos onde o infrator ainda não decidiu precisamente o que ele ou ela pretende fazer". O tribunal julgava o caso de Faheem Lodhi, no qual a promotoria reconheceu que o acusado estava apenas nos estágios iniciais do planejamento de um ataque terrorista. Igualmente, os membros de uma célula presos em 2005 poderiam ser condenados, apesar de aparentemente ainda não terem um alvo específico em mente. Se preferir, é uma forma de crime futuro. Mas tudo isso exige boa inteligência.

A ampliação do poder policial significa mais batidas policiais a pessoas nos estágios iniciais de radicalização. E isso corre o risco de dificultar a obtenção de inteligência.

Relatos no noticiário de 800 policiais realizando batidas ao estilo de Hollywood em casas de jovens suspeitos de terrorismo tendem a fazer as comunidades temerem uma ação policial. Se você conhece alguém exibindo sinais preocupantes, mas duvida que essa pessoa chegue ao ponto da violência, você pode pensar duas vezes antes de falar com a polícia. E no momento em que o terrorismo está se tornando cada vez mais domínio de lobos solitários desconhecidos pelas autoridades, a polícia precisa que o máximo possível de pessoas fale com ela.

Daí a criação da Unidade de Investigação de Pessoas Obsessivas, anunciada pela polícia de Nova Gales do Sul no mês passado. Sua intenção é encontrar pessoas como Jabar e impedi-las de se radicalizarem plenamente.

Mas "unidade policial" pode ser uma descrição enganadora. Na verdade, ela é uma parceria entre a polícia de Nova Gales do Sul e o departamento de saúde que, em vez de prender suspeitos, busca mais obter dicas e encaminhar as pessoas envolvidas para um profissional de saúde mental.

O fundamento, como explicou o comissário de polícia de Nova Gales do Sul, Mick Fuller, é que "em cerca de 80% dos casos" de lobos solitários como Jabar, "um familiar ou amigo nota uma mudança significativa, mas não tem confiança em chamar alguém para informar". A ideia é que isso mude, já que quando "você telefonar e disser: 'Olhe, estou preocupado com meu filho', a polícia não chegará derrubando sua porta com uma marreta".

Isso é notável pela admissão que faz: o terrorismo superou a capacidade dos agentes da lei, e caso o Estado não queira ficar para trás, ele precisará incorporar algo semelhante a um papel pastoral. Trata-se, com certeza, de uma abordagem radicalmente contracultural, algo que você dificilmente imaginaria ouvir de um político, mas é fruto de anos de pesquisa e experiência amarga.

No caso da Austrália, o plano tem a vantagem de tomar emprestada a experiência do Reino Unido com o Centro de Avaliação de Ameaças Obsessivas, que está operando desde 2006. Esse centro foi criado não para encontrar terroristas, mas para encontrar pessoas com fixações obsessivas, como perseguidores com fixação em figuras públicas, especialmente políticos e a família real. Essas pessoas, em sua maioria, sofrem de alguma forma de doença mental, particularmente psicose, daí a parceria com o Ministério da Saúde.

É possível extrapolar isso para o terrorismo? Apenas se você presumir que há algo no terrorismo dos lobos solitários que é qualitativamente diferente da versão baseada em grupo que predomina na história do terrorismo. Essa história mostra que os terroristas apenas raramente sofrem de algum tipo de transtorno de personalidade ou quadro psicológico, o motivo para a pesquisa da "personalidade do terrorista" ter provado ser infrutífera e ter sido desacreditada.

Mas apesar de estarmos apenas iniciando nossa pesquisa sobre o terrorismo dos lobos solitários, já desponta um consenso de que aqueles que o praticam exibem um nível elevado de perturbação psicológica e depressão. Isso com certeza parece ser verdadeiro, por exemplo, no caso de Man Haron Monis, que realizou o cerco ao Lindt Café em Sydney em 2014. Tudo isso apoia os instintos da polícia de Nova Gales do Sul.

Desde o 11 de Setembro, o problema com o terrorismo é que fracassamos em encontrar a metáfora certa para entendê-lo. Guerra provou ser desastrosa. Crime também é limitado demais. Saúde parece positivamente bizarro, mas como parte de uma abordagem mais abrangente, pode ter algo a seu favor.

 O terrorismo expôs os limites do que o poder do Estado pode fazer. Mas, na verdade, o Estado pode fazer mais do que lutar com força bruta.

 *Waleed Aly é um colunista, locutor de rádio e professor de política da Universidade Monash, em Melbourne.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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