Opinião: Obsessão de australianos pelo 'topo' põe em risco a qualidade de vida no país

Lisa Pryor*

Em Sydney (Austrália)

  • Greg WOOD/AFP

    Australianos fazem exercícios em bicicletas no meio de Sydney, na Austrália

    Australianos fazem exercícios em bicicletas no meio de Sydney, na Austrália

Em um país cheio de gente tentando chegar ao topo, a maioria da população acaba sendo obrigada a correr só para acompanhar.

Vou lhe contar uma história de fadas chamada Austrália. Apesar do que você possa ter ouvido sobre cobras, aranhas e tubarões, o mais notável na Austrália não é seu perigo, mas sua segurança. É um país pacífico, com saúde e educação para quase todo mundo, que desfrutou nas últimas duas décadas o mais longo período de expansão econômica entre todos os países desenvolvidos da história moderna. Nossas cidades são comumente consideradas entre as mais habitáveis do mundo.

Mas estamos correndo o risco de estragar tudo isso.

Nos últimos 20 anos, a Austrália tornou-se um país onde chegar na frente virou obsessão nacional, em parte porque passamos a esperar um mundo onde o curso natural das coisas é ficar um pouco mais rico a cada ano. Os ganhos de nosso sucesso econômico repetido foram desperdiçados em políticas inflacionárias que alimentam a corrida de ratos.

O que estamos descobrindo é que quando você tem um país cheio de gente tentando chegar ao topo, a maior parte da população acaba sendo obrigada a correr só para acompanhar. Nossa qualidade de vida invejável está em risco.

Veja o que aconteceu com o mercado habitacional, sendo a Austrália um país onde um imóvel não é apenas um lugar para morar, mas uma passagem para a prosperidade e uma declaração de gosto e valores.

As deduções fiscais generosas para os proprietários de casas e investidores imobiliários estimularam o mercado ao ponto de que o preço médio de uma residência em Sydney, nossa maior metrópole, é de 1,1 milhão de dólares australianos (cerca de R$ 2,57 milhões). Todo um gênero de textos de jornais se dedica a dizer aos australianos o que eles poderiam comprar pelo mesmo valor em outras partes do mundo --um pequeno château no sul da França e até um apartamento em Manhattan, pelo preço de uma feia casa de tijolos a 40 minutos de carro do centro da cidade. Assistimos a programas como "Million Dollar Listing Los Angeles" e rimos.

Por isso, mesmo que os australianos não precisem reservar muitas centenas de milhares de dólares para se formar na faculdade, ou dezenas de milhares para o seguro-saúde, ainda estamos enormemente endividados com nossas hipotecas. A Austrália tem uma das maiores dívidas familiares do mundo, especialmente se você a comparar com nossa renda e nosso PIB. Estamos destinados ao desastre se houver uma recessão econômica séria.

Mesmo para os felizardos que possuem suas casas, há uma sensação de ouro de tolo nesse boom imobiliário. Afinal, se você é dono de uma casa de três quartos a 10 km da cidade e seu valor aumentar em 50%, isso quer dizer que você ainda tem dinheiro suficiente apenas para comprar uma casa de três quartos a 10 km da cidade. Não é tanto um aumento da riqueza, quanto uma inflação glorificada.

E para os que não são proprietários? O boom imobiliário está dividindo o país em faixas de idade e classe. Para os jovens, os preços dos imóveis representam esperanças eliminadas e uma ameaça de batalha entre gerações.

Considere uma comoção recente, quando um demógrafo idoso sugeriu brincando que os jovens poderiam economizar mais para comprar uma casa se não gastassem tanto em torrada com abacate nos cafés da moda.

É uma linha de ataque conhecida aqui, dizer que os jovens desperdiçam dinheiro nos cafés. Não importa que você precise deixar de consumir 31.429 capuccinos para pagar um depósito de 10% por uma casa média em Sydney.

Os nascidos no fim do milênio, cansados de ouvir que não sabem como sua vida é boa, podem bem indicar que a Austrália abriga alguns dos membros mais mimados da geração baby boom. Muitos aposentados dividem seu tempo entre cruzeiros internacionais e consultas médicas subsidiadas, reclamando o tempo todo que os jovens não percebem que vida boa eles têm.

Além de políticas fiscais que incentivam a especulação, outras políticas mostram que governos sucessivos têm alimentado uma corrida de ratos quando deveriam ter construído uma sociedade. Nas últimas duas décadas, o financiamento federal a escolas privadas se expandiu, incluindo as que têm mensalidades muito altas e complexos de piscinas, lindos jardins e centros de artes, dividindo ainda mais o país. Muitos pais de classe média ficaram indecisos sobre colocar seus filhos na escola pública, por medo de que eles fiquem atrasados em relação aos colegas em escolas que são caras ou têm currículos seletivos.

Precisamos redescobrir nossas raízes igualitárias. É verdade que a cultura australiana pode ser anti-intelectual. Podemos desprezar a realização e cortar os que têm êxito, em um fenômeno que chamamos de síndrome da "papoula alta" --os que se destacam demais podem ser derrubados. Mas os valores igualitários de nossa sociedade não devem ser descontados. Na verdade, é sobre a questão do igualitarismo que a Austrália deu algumas de suas mais importantes contribuições intelectuais ao mundo.

A Austrália foi um dos primeiros países a instituir o salário mínimo, em um famoso caso jurídico em 1907 relativo aos funcionários da fábrica de equipamento agrícolas Sunshine Harvester Works. O tribunal decidiu que um trabalhador não qualificado deveria ganhar o suficiente para suprir as necessidades de "um ser humano vivendo em uma comunidade civilizada", o que incluía manter sua família em "conforto frugal".

Os efeitos culturais dessa decisão, a ideia de que cada trabalhador deve ter um padrão de vida decente, foram pelo menos tão grandes quanto suas ramificações jurídicas.

A Austrália goza de um salário mínimo relativamente alto hoje, de 17,70 dólares australianos (cerca de R$ 41,40) por hora. Até agora evitamos o esvaziamento da classe média sofrido por outros países como os EUA. A Austrália tem uma das mais altas porcentagens do mundo de pessoas na classe média, com cerca de 56% da população recaindo nessa categoria, segundo o Relatório de Riqueza Global do Credit Suisse de 2016.

O igualitarismo foi um dos principais fatores que contribuíram para a qualidade de vida que desfrutamos em nossa sociedade, inclusive para os mais ricos. Temos baixos índices de criminalidade. Poucos australianos temem que as contas médicas os levem à falência, pois temos atendimento de saúde universal. Nossas taxas de universidade estão aumentando, mas podemos pagar o valor de volta ao governo com o tempo, e só quando estivermos ganhando um salário decente.

Precisamos lembrar do que faz da Austrália um conto de fadas e protegê-la.

*Lisa Pryor é médica e autora, mais recentemente, de "A Small Book About Drugs"

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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