Análise: Trump tem obsessão pelo EI, mas Taleban é caso mais urgente

Borhan Osman

Em Cabul (Afeganistão)

  • Reuters

    Policial em um carro militar atira contra insurgentes do taleban na província de Kunduz, no Afeganistão

    Policial em um carro militar atira contra insurgentes do taleban na província de Kunduz, no Afeganistão

Ao longo do último mês, forças americanas e afegãs estiveram engajadas em uma nova ofensiva contra um grupo ligado ao Estado Islâmico baseado na província de Nangarhar, no leste do Afeganistão. O governo Trump lançou o que se gabou de ser a maior bomba não nuclear contra os esconderijos do grupo em 13 de abril. Um líder militante e dois soldados americanos foram mortos nas operações. Um porta-voz militar americano alegou que há "uma chance muito boa" de que o grupo seja erradicado no Afeganistão em 2017.

Mas a obsessão dos Estados Unidos com o Estado Islâmico em Khorasan, um grupo menor no país, distrai a atenção de uma tarefa mais urgente: negociar um acordo de paz com o Taleban, que controla quase metade do Afeganistão.

Dois anos após seu surgimento no Afeganistão, a grupo subsidiário do Estado Islâmico ainda tem dificuldade em consolidar sua capacidade organizacional. Os poucos grandes ataques que reivindicou foram principalmente sectários e contra alvos fáceis: dois encontros de xiitas e um hospital em Cabul, e, no Paquistão, um templo sufi em Sindh e um hospital em Quetta.

Quanto do planejamento e organização desses ataques veio do comando do grupo, baseado em um vale montanhoso no leste do Afeganistão, não está claro. Em uma região com um grande número de pequenos grupos militantes que constantemente mudam de nome, a reivindicação de ataques como esses em cidades distantes não deve ser aceita de modo crédulo imediatamente. Não há evidência de o grupo ter estabelecido uma presença operacional em Quetta e Sindh.

O centro de comando virtual do grupo está localizado no Vale de Mamand, em Nangarhar, que se transformou no foco da ofensiva americana-afegã. Os líderes fundadores do grupo, quase todos agora mortos, eram comandantes do Taleban paquistanês. O novo líder é um ex-membro pouco conhecido do Taleban afegão, mas militantes do Taleban paquistanês ainda exercem um papel dominante na liderança.

Mesmo assim, a posição dele encolheu em mais da metade em comparação ao seu pico, em meados de 2015. Ele controla bolsões de território em quatro dos aproximadamente 400 distritos do Afeganistão, o que está longe de ser prova da potência do grupo, dada a vasta quantidade de espaço não governado no Afeganistão e nas áreas tribais do Paquistão. Ele perdeu grande parte de seu território para o Taleban.

Segundo estimativas das forças armadas americanas, o Estado Islâmico em Khorasan conta atualmente com 600 combatentes, em comparação a 3.000 em 2016. A maioria de seus membros, incluindo todo o primeiro escalão da liderança, foi morta em ataques aéreos americanos. Ele pode ter um apelo maior do que sua pegada indica, mas ainda é um grupo menor segundo os padrões afegãos.

Apesar do Estado Islâmico em Khorasan e o Taleban seguirem metas políticas diferentes e serem ameaças de tipo diferente, o número de combatentes do Taleban é cerca de 50 vezes maior, segundo estimativas de analistas afegãos e ocidentais em Cabul.

O Taleban ressurgente é a maior ameaça ao governo afegão, transformando-se em um governo paralelo que controla ou disputa o controle de mais de 40% do país, segundo o Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão, a fiscalização do governo americano no Afeganistão.

Ao ser ofuscado pelo Taleban, o Estado Islâmico parece focado em vender a si mesmo a jihadistas potenciais ou ativos. Para isso, ele precisa de publicidade. A grande bomba do presidente Trump proporcionou isso. A destruição de uma rede de cavernas é a publicidade perfeita para atrair radicais indecisos sobre se juntar a um grupo jihadista e atrair membros de outros grupos.

Após o bombardeio e as operações militares subsequentes, a emissora de rádio do Estado Islâmico em Khorasan, em Nangarhar, está a todo vapor. Um pregador chamou a bomba de uma bênção de Deus que afirmou o status do grupo jihadista. Trata-se de uma hábil mensagem elaborada sob medida para atrair jovens radicais, já que para eles a hostilidade americana é um selo de credibilidade de um grupo. Quanto mais um grupo é visado pelos Estados Unidos, maior a legitimidade jihadista.

O maior engajamento militar americano atrairá mais militantes estrangeiros para o Afeganistão para travar a jihad (guerra santa) contra os americanos. Um papel menos proeminente dos Estados Unidos no campo de batalha e uma retórica menos passional de confronto poderiam talvez melhorar as chances das forças afegãs derrotarem o grupo.

O conflito sustentado no Afeganistão criou um vasto espaço não governado, confinando o governo afegão às cidades e permitindo ao Taleban ser o ator não governamental dominante e ao Estado Islâmico estabelecer uma presença. A má governança, as disputas políticas, a corrupção desenfreada e o desemprego fazem com que se juntar à oposição, que no contexto afegão significa a insurreição, uma alternativa popular.

A menos que as duas partes principais do conflito, o governo e o Taleban afegão, se unam em um processo de paz que absorva o máximo de insurgentes possível, grupos como o Estado Islâmico continuarão surgindo e expandindo. Não há escolha a não ser iniciar um diálogo com o Taleban.

*Borhan Osman é um pesquisador da Rede de Análise do Afeganistão.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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