Caso de hackeamento na eleição francesa dá exemplo para a mídia americana

David Leonhardt*

  • Joel Saget/AFP

    Pôster de campanha de Emmanuel Macron em Paris (França)

    Pôster de campanha de Emmanuel Macron em Paris (França)

Os hackeados da equipe de campanha de Emmanuel Macron parecem ser incrivelmente mundanos, de acordo com pessoas que os leram. Eles incluem instruções sobre tópicos, conversas pessoais e discussões sobre o tempo. É verdade que também incluem algumas opiniões constrangedoras, mas até o momento é notável o quão pouco escandalosos eles são.

Essa descrição não lembra alguma coisa?

Ah, sim. No ano passado, agentes russos roubaram milhares de e-mails da campanha de Hillary Clinton e os publicou através do WikiLeaks. O aspecto dominante dos e-mails era sua insignificância.

Eles não continham nenhum indício de descumprimento da lei, nenhuma grande hipocrisia ou escândalo indecoroso. Mesmo a pior revelação —de que uma colaboradora da CNN e membro do Partido Democrata havia informado com antecedência uma pergunta que seria feita em um evento— era considerada algo pequeno.

A campanha de Ronald Reagan em 1980 se envolveu em sujeiras muito mais significativas. Os e-mails de Hillary, por sua vez, estavam repletos de membros da equipe fazendo manobras em benefício próprio, aflitos a respeito de estratégias, reclamando de seus chefes e oferecendo conselhos a esses mesmos chefes.

Imagine por um momento que sua caixa de entrada de e-mails, ou a de seu chefe, seja divulgada ao mundo. Posso presumir que algum constrangimento isso traria.

Apesar do caráter mundano dos e-mails de Hillary, a mídia os cobriu como se fossem uma enorme revelação. O tom muitas vezes sugeria um grande furo investigativo. Mas esse não era um furo. Era material roubado por um governo estrangeiro hostil, postado para todos verem, e só por vezes revelador. Ele merecia alguma cobertura, mas não tanta.

Digo isso como alguém que gosta tanto de jornalismo que nunca teve nenhum outro trabalho de tempo integral. Também digo isso com reverência pelos muitos jornalistas que fazem um trabalho bom e árduo que, como explicava Thomas Jefferson, é vital para a democracia. Com um presidente que mente o tempo todo, muitas vezes sobre a mídia, o jornalismo se torna ainda mais importante. E por ser tão importante, nós que o praticamos precisamos estar abertos à reflexão e às críticas.

A cobertura exagerada dos e-mails hackeados foi o pior erro da mídia em 2016, e ele certamente será repetido se não for compreendido corretamente. A televisão foi a maior culpada, mas a mídia impressa esteve longe de ser inocente. O sensacionalismo exacerbou um segundo problema com a cobertura: a obsessão com o servidor pessoal de e-mails de Hillary.

Eu discordo das pessoas que dizem que o servidor não tinha importância. Hillary violou uma política do governo e não foi totalmente honesta. O FBI conduziu uma investigação, independentemente do que se pense disso. Tudo isso constitui uma notícia de verdade.

O problema é a escala. No outono, o Gallup perguntou aos americanos o que eles estavam ouvindo sobre os candidatos. As respostas sobre Donald Trump eram diversas: imigração, seus discursos e suas críticas a Barack Obama, entre outras coisas. Em compensação, quando as pessoas descreviam o que estavam ouvindo sobre Hillary, um tema se sobrepunha a todos os outros: os e-mails.

Essa é uma acusação bastante dura contra a cobertura (e a pesquisa do Gallup foi feita bem antes de James Comey escrever sua infame carta). É um sinal de que o servidor particular de Hillary e os e-mails hackeados se sobrepuseram a todo o resto, inclusive seus planos de reduzir a desigualdade, de tratar da mudança climática e de conduzir uma política externa mais bélica do que a de Obama. É um sinal de que a mídia não conseguiu distinguir um tema que soava mais importante —e-mails secretos!— de temas que eram mais importantes de fato.

No final de semana passado, a mídia tradicional da França mostrou como agir com maior discernimento.

No final da sexta-feira, dois dias antes da eleição, hackers divulgaram os e-mails da campanha de Macron. As leis da mídia francesa são mais rígidas que as americanas, e autoridades do governo argumentaram que a informação hackeada não deveria ser publicada. Mas somente as equipes de campanha em si foram proibidas legalmente de dar declarações durante o fim de semana final. As publicações poderiam ter descrito o conteúdo dos e-mails.

Mas a maioria não o fez. "Foi uma tentativa de manipulação, com as pessoas tentando manipular nosso processo de votação", me contou Gilles van Kote, vice-editor-chefe do "Le Monde".

Os jornalistas franceses agiram certo ao não focar naquilo que parecia ser uma grande notícia, porque os e-mails certamente pareciam. Eles avaliaram o que eram de fato notícias importantes.

O material divulgado por um governo estrangeiro hostil, com o intuito de confundir os eleitores e evidentemente sem novas informações significativas, não era. Van Kote disse que os repórteres continuam lendo os e-mails para ver se eles justificam novas matérias.

Os dois casos não são idênticos, obviamente. (E Van Kote não estava criticando o jornalismo americano; as críticas são minhas). Mas eles são parecidos o suficiente para se dizer que a mídia francesa teve um discernimento melhor e mais sensato que a mídia americana.

A questão continuará. Nosso mundo digital garante que a informação privada de figuras públicas e não tão públicas voltará a ser divulgada no futuro.

A mídia nem sempre pode ignorar essa informação, por mais tentador que seja. Mas ela também não deveria fingir que as duas únicas opções são omissão ou sensacionalismo. Existe um meio termo, onde o discernimento jornalístico deveria priorizar as notícias no lugar do cheiro de notícia.

Tradutor: UOL

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