Opinião: Como conter os ânimos da Coreia do Norte?

Sung-Yoon Lee*

  • KCNA via Reuters

    O ditador norte-coreano Kim Jong-un é cercado por membros do exército

    O ditador norte-coreano Kim Jong-un é cercado por membros do exército

Com seu primeiro teste bem-sucedido no domingo de um míssil balístico de alcance intermediário, a Coreia do Norte está prestes a se tornar uma potência nuclear completa, representando uma ameaça direta aos Estados Unidos. Esse mais recente ato de desafio ocorreu apenas dias após a posse de Moon Jae-in como presidente da Coreia do Sul, e horas antes da celebração pela China de um projeto de infraestrutura internacional, no valor de US$ 1 trilhão, chamado "Um Cinturão, Uma Rota".

As inúmeras provocações de Pyongyang desde a Guerra da Coreia nunca resultaram em uma resposta punitiva significativa. Mesmo em casos flagrantes, como as tentativas de assassinato de líderes sul-coreanos ou o abate de um avião de reconhecimento americano em espaço aéreo internacional, em 1969, os Estados Unidos e seus aliados responderam de modo contido.

Desde o início dos anos 90, presidentes americanos têm tratado a crescente ameaça do programa nuclear norte-coreano como sendo uma prioridade, mas que pode ser resolvida depois. A profunda pobreza da Coreia do Norte e a aparente natureza cartunesca de seus líderes sustentaram a ilusão de que seu programa nuclear pode ser comprado, que o próprio regime pode ser deixado na espera e que seus crimes em grande parte ocultos contra a humanidade podem ser ignorados.

Enquanto os Estados Unidos vacilavam entre acordos expedientes, sanções hesitantes, apelos por uma maior intervenção da China e não fazer nada, a Coreia do Norte avançava metodicamente seu arsenal nuclear e capacidade de mísseis.

O acordo de 1994 de Washington com a Coreia do Norte congelou seu programa de armas baseadas em plutônio por oito anos, mas aquele acordo ocorreu ao preço da ignorância de que a Coreia do Norte estava desenvolvendo o tempo todo um programa alternativo baseado em urânio. O primeiro teste de míssil de longo alcance de Pyongyang, em 1998, levou a um reengajamento do governo Clinton com a Coreia do Norte, resultando na doação por Washington de cerca de US$ 300 milhões em ajuda alimentar em troca da inspeção de uma caverna vazia, suspeita de armazenar material nuclear.

O governo Bush exibiu ainda menos coragem. Após o primeiro teste nuclear de Pyongyang, em 2006, Washington, distraída pela guerra no Iraque, suspendeu as sanções financeiras direcionadas contra Pyongyang, retomou as negociações nucleares, fez vista grossa à construção pela Coreia do Norte de um reator nuclear na Síria, voltou a fornecer ajuda alimentar e removeu a Coreia do Norte de uma lista de Estados patrocinadores do terrorismo.

Apesar do governo Obama ter se mostrado menos propenso a fazer concessões, Pyongyang deu um grande salto à frente em seus programas de armas, realizando quatro testes nucleares e quatro testes de mísseis de longo alcance.

Durante cada um dos testes de Pyongyang, os autores de políticas americanos nutriram a esperança de que Pequim mudaria de posição e imporia uma pressão real aos regimes de Kim Jong-un e de seu pai, Kim Jong-il. Mas tudo o que Pequim fez foi mostrar um padrão dissimulado de ambidestreza diplomática. A China faz gestos simbólicos, como a assinatura de resoluções do Conselho de Segurança da ONU, mas não as aplicando plenamente, e às vezes até aumentando o comércio com Pyongyang.

Apesar da maioria dos norte-coreanos estar excluída da economia global, a elite do regime permanece dependente do setor financeiro internacional para movimentação do produto do tráfico de armas. A moeda estrangeira preferida de Pyongyang é o dólar americano.

A Coreia do Norte é o único país conhecido no qual a falsificação de dólares é uma política de Estado. E os Estados Unidos em grande parte se recusam a seguir o rastro de dinheiro do regime de Kim, por temer que fazê-lo pressionaria Pyongyang a seguir na escalada de suas provocações. Os Estados Unidos também têm evitado impor sanções aos parceiros chineses do regime.

O governo Trump precisa atingir Pyongyang com um tipo devastador de sanções financeiras direcionadas, incluindo sanções secundárias contra seus parceiros estrangeiros, o que levou o Irã à mesa de negociação. Na verdade, ele está obrigado a fazê-lo, segundo a lei de endurecimento das sanções e políticas para a Coreia do Norte, que entrou em vigor em 2016.

Mas a volatilidade de Pyongyang dissuadiu sua plena implantação. A aplicação de sanções, assim como a manutenção doméstica da lei, exige muito tempo e trabalho. Mesmo um esforço pleno dificilmente exibirá resultados nos primeiros dois anos. Mas até que os Estados Unidos desfiram um duro golpe financeiro ao regime de Kim, congelando seus fundos em contas no exterior, Washington carecerá de influência suficiente para que as negociações sejam eficazes.

Com igual determinação, os Estados Unidos devem aumentar seus esforços para se dirigirem ao povo norte-coreano. Pyongyang se empenha em bloquear informação, censurar a liberdade de expressão e monopolizar o conhecimento. As práticas invasivas do Estado variam de doutrinação ideológica por toda a vida até pena capital por crimes de pensamento, como assistir gravações em vídeo de novelas sul-coreanas ou uso de celulares ilegais da China.

Mesmo assim, o orçamento americano para transmissões de rádio para a Coreia do Norte, via Voz da América e Rádio Ásia Livre, diminuiu ao longo da última década. Essas transmissões fazem diferença: aproximadamente três quartos dos norte-coreanos que fugiram para liberdade na Coreia do Sul, em 2009, foram expostos à mídia estrangeira.

Os Estados Unidos devem sustentar esses esforços até que desnuclearização e o desmonte dos gulags pelo regime de Kim sejam verificados. O regime abrirá mão de seu programa nuclear apenas quando uma pressão financeira sustentada criar o fantasma de revolta ou colapso do regime, ponto no qual Washington deve negociar uma saída para os Kim.

Qualquer acordo com Pyongyang que não inclua essas medidas ou que envolva um relaxamento prematuro das sanções significará depositar novamente uma confiança cega na boa fé do regime Kim.

*Sung-Yoon Lee é professor assistente de estudos coreanos da Escola Fletcher de Direito e Diplomacia da Universidade Tufts.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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