Opinião: Por trás da imagem forte, Rússia é Estado fraco que busca própria identidade

Michael Khodarkovsky

Em Chicago (EUA)

  • Yuri Kadobnov/Reuters

Por trás da fachada de uma potência ressurgente liderada por um homem forte, se encontra um Estado fraco, diverso e frágil tendo dificuldade em definir sua identidade nacional

Já passamos por isso antes. Na verdade, quase.

Nos anos 1960, as cidades americanas e europeias estavam em convulsão com distúrbios e protestos antiguerra, e no início dos anos 1970, o escândalo de Watergate ameaçava descarrilar a democracia americana. Então, assim como agora, o Kremlin estava em júbilo enquanto as democracias ocidentais pareciam à beira do precipício.

Mas em pouco tempo, os americanos estavam pousando na Lua, a Guerra do Vietnã acabou, Nixon foi forçado a renunciar e o desmoronamento da fachada da União Soviética não mais permitia esconder seus próprios rachas e divisões sociais. Ao longo das duas décadas seguintes, as democracias ocidentais continuaram prosperando, mesmo que de forma desigual, enquanto a União Soviética perdia seu império e ela própria se despedaçava.

Há um século, na preparação do terreno para a Revolução Bolchevique, Vladimir Lênin previu famosamente que a cadeia do imperialismo poderia ser quebrada em um de seus elos mais fracos, a Rússia. Hoje, também, por trás de uma Rússia aparentemente ressurgente e seu líder homem forte se encontra um Estado russo fraco e frágil, que pode provar de novo a presciência de Lênin.

A Federação Russa tem uma economia excessivamente dependente de petróleo e gás; juntamente com armamentos, eles são responsáveis por 90% das exportações russas. Com as perspectivas econômicas de longo prazo cada vez piores, os demógrafos russos também estão alertando que o país está prestes a entrar em uma crise demográfica semelhante à ocorrida nos anos 1990.

Mesmo quando há crescimento populacional, o número de recém-nascidos varia dramaticamente dependendo de religião e etnia, com a taxa de natalidade entre os muçulmanos ultrapassando em muito a média nacional. Se essa tendência continuar, a Rússia se tornará um país de maioria muçulmana na metade deste século.

Assim como Israel, a Rússia poderá enfrentar a escolha entre governar uma população predominantemente muçulmana ou dar soberania a seus enclaves muçulmanos.

Para conter essa possibilidade, há dois meses o Parlamento russo aprovou uma lei que permite que uma pessoa que fale russo ou tenha qualquer ligação com a Rússia ou com a antiga União Soviética se torne cidadã russa. A meta é aumentar a população da Rússia em milhões a partir daqueles que vivem nos países vizinhos e territórios ocupados. É um indicador de quão grande é o papel da crise demográfica da Rússia nas ambições expansionistas de Moscou envolvendo os vizinhos que antes faziam parte da União Soviética.

Mas as tentativas de aumentar a população eslava da Rússia não ajudam a definir a identidade nacional russa, uma questão existencial que consumiu muitas gerações de estudiosos russos. Ela continua colocando em dúvida a sustentabilidade da Federação Russa, na qual uma grande variedade de grupos religiosos e étnicos está espalhada por 21 repúblicas e pela Crimeia ocupada.

"Quem somos e por quê?" pergunta o protagonista de um romance recente, "Maidenhair" (ainda não lançado no Brasil), de autoria do escritor russo Mikhail Shishkin. Onde o império russo termina e a nação russa começa? Em uma escala global, qual é a relação da Rússia com o Ocidente? Essas sempre foram as perguntas principais na busca perene da Rússia por sua identidade nacional e ainda não há uma resposta clara em vista.

A ideia mais recente do Kremlin de uma lei definindo a nação russa chegou a um fim inglório em 2 de março, após cinco meses de deliberações. Ela nem mesmo chegou a um estágio de minuta, apesar do pleno apoio e encorajamento do presidente Vladimir V. Putin.

A resistência veio de muitos setores: os nacionalistas russos que desejam o status dominante dos russos assegurado por lei; a Igreja Ortodoxa, que teme perder sua atual posição de religião nacional; e acima de tudo, as elites étnicas não russas, que suspeitam que isso se trata de uma trama do Kremlin para privá-las dos privilégios que sua atual autonomia nacional e territorial lhes permite dentro da Federação Russa.

Emil Pain, um especialista em questões nacionais na Rússia e um proeminente crítico da lei, a comparou à notória noção de "nacionalidade oficial", uma ideia imperial e autocrática adotada sob o imperador Nicolau 1º nos anos 1820.

O problema, argumenta Pain, é que em vez de promover a ideia de uma nação de cidadãos livres, o Kremlin deseja uma nação subordinada ao Estado e seu líder. Como reconheceu Valery Tishkov, um conselheiro de Putin que estava encarregado de elaborar a lei, "A sociedade não está pronta para aceitar a noção de uma nação unida que abranja todas as nacionalidades", outro lembrete de que a Rússia continua sendo menos do que a soma de suas partes.

Aqui está o quebra-cabeça histórico da Rússia, nascido de seu enorme tamanho e diversidade: não é possível forjar o que Pain chama de "nação cívica" (uma democracia pluralista e participativa) a partir de uma tapeçaria de religiões, línguas e costumes sem tirar parte do poder de Moscou. Mas isso correria o risco de encorajar exigências de maior autonomia por parte de algumas das 21 repúblicas não russas dentro da Federação Russa.

Por outro lado, a concentração do poder exclusivamente no Kremlin e em seu líder forte significa dar continuidade à tradição imperial de manter o país unido por meio do que o líder de direitos humanos da era soviética, Andrei Sakharov, ridicularizou como sendo um "expansionismo messiânico". Assim, definir a Rússia em oposição ao mundo exterior, em particular o Ocidente, se tornou a posição padrão do Kremlin.

Na última década, Putin tentou encontrar um caminho para a restauração da identidade imperial da Rússia por meio de vários projetos malsucedidos: a Comunidade EuroAsiática, o Mundo Russo e a Civilização Russa, todos em oposição ao Ocidente e seus ideais políticos liberais.

Se o século 19 nos deu a literatura e as artes russas, e o século 20 a ciência e uma ideologia fatalmente falha de socialismo totalitário, a Rússia do século 21 tem pouco a oferecer além da subversão das democracias ocidentais e incursões revanchistas ao longo de suas fronteiras.

Presa entre o apocalipse e a revolução, nas palavras do filósofo russo do século 20, Nikolai Berdyaev, a frágil Rússia ainda está à procura de um senso de identidade nacional.

Recentes manifestações anticorrupção ocorreram em mais de 100 cidades russas, uma grave de caminhoneiros já se encontra em seu terceiro mês e uma geração mais jovem está cada vez menos suscetível à propaganda pela televisão.

Com Putin claramente não pronto para qualquer concessão, esses são apenas alguns poucos indícios de que o putinismo, como sistema político, pode estar caminhando para uma crise, uma que pode levar a Rússia a ter o mesmo destino da União Soviética.

Caso isso ocorra, dada a crueldade de seu líder e as enormes fortunas em jogo, o próximo fim poderá ser bem menos pacífico do que o do império soviético iniciado por Lênin.

*Michael Khodarkovsky, um professor de história da Universidade Loyola de Chicago, está concluindo um livro intitulado "Russia's Twentieth Century", ou "O século 20 da Rússia", em tradução livre

 

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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