Em defesa da xenofilia: escritor caminha pelo planeta e sobrevive com a ajuda de estranhos

Paul Salopek*

Em Bishkek (Quirguistão)

  • Reprodução/Twitter @PaulSalopek

Passei os últimos quatro anos caminhando pelo planeta. Enquanto refaço os caminhos percorridos pela primeira migração de nossa espécie para fora da África, na Idade da Pedra, escrevo sobre meus encontros ao longo da trilha global moderna. Com frequência me perguntam sobre segurança. Os americanos em particular parecem preocupados com o risco: como escapo de ser decapitado por jihadistas ou de ataques por bandidos?

Já passei por apuros. Na Etiópia, fui forçado a contornar furtivamente pastos disputados por nômades armados montados em camelos. Soldados israelenses dispararam balas de borracha contra mim enquanto eu ziguezagueava pela Cisjordânia. Algum palhaço roubou meu estoque de água enterrado no Uzbequistão, me deixando encalhado sem recursos em um deserto do tamanho do Estado do Arizona. E até o momento, a polícia de 10 países me deteve 84 vezes por, bem, caminhar de forma suspeita. (Estou registrando essas detenções policiais em um "mapa de liberdade de movimentação" digital.)

Como membro de uma das mais desempoderadas minorias em nossa era motorizada, o pedestre, posso afirmar com confiança que, em geral, nosso planeta compartilhado não é um lugar perigoso. Na verdade, ele está repleto de pessoas extremamente simpáticas. Poucas delas falam minha língua. Quase nenhuma se parece comigo.

Mas durante os últimos 1.567 dias a pé, esses estranhos me ajudaram a permanecer com saúde e vivo. Isso me inclina a gostar deles. Suponho que isso me torne um xenófilo.

Xenofilia é o oposto da xenofobia. Falando de modo geral, ela descreve abertura para a imensa diversidade humana do mundo. Mas o conceito é maleável.

A palavra combina o grego antigo "xeno" ("kséno ", que significa "estrangeiro") com a palavra para "atração". Psicólogos aplicam o termo estreitamente a pacientes com um desejo incontrolável de fazer sexo com estrangeiros ou, em casos extremos, extraterrestres.

Na frente política, George Washington, o isolacionista fundador, alertou a América contra alianças estrangeiras xenófilas que poderiam correr o risco de atolar o país em guerras sem sentido.

E os conservadores há muito zombam dos cosmopolitas rasos cujas demonstrações de xenofilia cultural, exibindo tatuagens de ideogramas japonesas ou vestindo tecidos guatemaltecos, tendem a cheirar como mera apropriação.

Minha própria marca de xenofilia é biográfica. Eu nasci na Califórnia suburbana, mas fui criado no México semirrural. Como muitas crianças que habitam os dois lados de uma fronteira, aprendi a depositar minha lealdade em relacionamentos, não em lugares. Para mim, depender de encontros aleatórios ao cruzar continentes (para alimentos, abrigo, segurança e entendimento) não é fonte de ansiedade, mas uma afirmação. É o meu normal.

Apesar do sentimento atual contra a globalização e os imigrantes na Europa e nos Estados Unidos, grande parte do mundo permanece incrivelmente hospitaleiro.

No mundo árabe, eu aprendi a pesar compaixão humana em grande quantidade. Ou melhor, a ausência de tal peso. Convites diários para refeições e chá tiveram o efeito de reduzir minha mochila na Arábia Saudita, Jordânia e Cisjordânia: eu simplesmente não precisava ficar carregando muita comida de um lado para outro. Um anfitrião saudita ficou tão ofendido quando peguei minha carteira que me expulsou de sua propriedade.

Em Israel, um empreendedor imobiliário para o qual telefonei para perguntar sobre um flat me convidou para ficar por meses em seu condomínio de apartamentos de luxo. A ideia dele de um presente despedida perfeito para uma lesma humana: me lançar de paraquedas de um avião alugado sobre Haifa.

E no Cáucaso, os georgianos deixaram a caridade cristã orgulhosa. Durante minha viagem de 42 dias pela nação montanhosa deles, fui gentilmente convidado a residências particulares toda noite. Eu recorri a quartos de hotel em três ocasiões. Precisei, já que sentia falta de meu espaço pessoal.

Todas as religiões abraâmicas demonstram compaixão com viajantes. ("Amarás o estrangeiro como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito", diz o Livro de Levítico.) Agora, ao seguir para a Índia e a China, sem dúvida encontrarei ressonâncias semelhantes no hinduísmo, budismo e confucionismo. Mas a xenofilia não está codificada apenas em nossa metafísica. A biologia sugere que ela está enraizada em nosso DNA.

Paleoantropólogos dizem que a mudança climática catastrófica por duas vezes quase eliminou a espécie humana na África pré-histórica. Por mais improvável que pareça, todas as 7,3 bilhões de almas vivas hoje muito provavelmente descendem das poucas 600 almas que conseguiram passar por esses gargalos genéticos antigos. Goste ou não, somos primos, quer sejamos inuit ou italianos. A partir de minha experiência como repórter de guerra, sei que essa inter-relação nem sempre se traduz em empatia; as brigas familiares são sempre as mais feias, daí a brutalidade singular das guerras civis. Mas mesmo nos extremos, oferecemos uma mão aberta.

Fui emboscado enquanto caminhava pelo leste da Turquia. Um homem armado de uma milícia de "guardas da aldeia", criadas pelo Exército Turco para combater os combatentes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, quase me baleou por detrás de uma árvore. Eu caminhava com uma mula de carga e ele me confundiu com um guerrilheiro curdo. Após ele afastar seu dedo do gatilho do fuzil Kalashnikov e enquanto eu hiperventilava devido à adrenalina, o guarda me deu um tapinha paternal no ombro. "Você nos deu um susto", ele disse. "Desfrute de sua caminhada por nossa bela terra."

Estou caminhando pelo mundo. Como um bastão humano, sou passado de um estranho para outro pelos continentes.

No oeste do Cazaquistão, meu cavalo de carga machucou. Um nômade local, um homem castigado pelo tempo que conheci ao passar por uma estepe selvagem, trouxe um substituto saudável até meu campo de seu próprio rebanho a mais de 160 km de distância. Ele não aceitou agradecimento, muito menos dinheiro, por tamanha generosidade. "Isso é o que fazemos", ele disse, dando de ombros.

No Uzbequistão, um Estado policial onde fui detido 37 vezes pelas forças de segurança, os aldeões às vezes me afugentavam. Eles tinham medo, não de mim, mas de seu próprio governo. "Me desculpe", eles sussurravam. "Não quero problemas com a KGB." Com frequência pareciam altamente embaraçados, com seu medo claramente em atrito com sua hospitalidade impedida. Eles enviavam crianças com pães recém-assados enquanto me afastava.

Não há dúvida de que minha recepção em mercados movimentados, postos de controle policiais tensos e cabanas de pastores solitários ao longo da minha rota é moldada pela minha etnia e passaporte. Gênero também exerce decididamente um papel; é difícil encontrar guias do sexo feminino. Poucos de nós podem escapar da pátria murada de nossa identidade pessoal. Mas podemos controlar quem entra.

"A alma terna fixa seu amor em um ponto no mundo", escreveu o teólogo francês do século 12, Hugo de São Vitor. "A pessoa forte estende seu amor a todos os lugares; o homem perfeito extingue o seu."

O monge medieval se referia à xenofilia suprema: o amor divino sem limites. Ao longo dos próximos cinco ou seis anos, espero aplicar uma pequena medida dessa abertura por aqui, na Terra dividida, entre todos aqueles entre nós que percorrem as trilhas enlameadas. Seguirei para a Terra do Fogo, o último horizonte continental colonizado por nossa espécie. Não estou à procura do exótico Outro. Estou caminhando na direção da familiaridade das pessoas. Isso me proporciona o mundo.

*Paul Salopek, que escreve para a "National Geographic", está trabalhando em um livro sobre sua jornada ao redor do mundo

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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