Língua do fascismo: novos termos 'normalizam' falta de liberdade nas Filipinas

Gina Apostol*

  • Daniel Berehulak/NYT

    Policiais observam homem assassinado nas Filipinas

    Policiais observam homem assassinado nas Filipinas

Eu era criança quando o finado ditador Ferdinand Marcos decretou a lei marcial, em 1972, atirando uma longa maldição sobre as Filipinas. "Bebê da lei marcial" tornou-se um apelido para pessoas como eu, filipinos que cresceram sob o autoritarismo, cegos à sua consolidação. Nós, bebês da lei marcial, vivemos um momento assombrado hoje: com Rodrigo Duterte presidente, é como se a história estivesse pregando uma peça de mau gosto.

Quando as normas são alteradas, uma das primeiras coisas que mudam é a língua. Em um mundo fascista, neologismos chocantes tornam-se o discurso cotidiano. "Stockade" (paliçada) foi uma palavra especial que aprendi quando menina. "Na-stockade hiya", ou "ele foi posto na paliçada" era a explicação para alguém preso por ficar na rua depois do toque de recolher durante a lei marcial. Você dizia "na-curfew" (toque de recolher) quando uma amiga ficava para dormir em sua casa para evitar ir "na-stockade".

A linguagem normalizava nossas novas "antiliberdades". A expressão mais misteriosa para mim quando criança era "habeas corpus"; não era uma invenção recente, mas se tornou comum. Eu a escutava com frequência em anúncios de serviço público na TV, sem compreendê-la mesmo depois que a irmã de minha amiga, uma estudante universitária em Manila, desapareceu. Leticia era uma ativista, e o Comando Policial das Filipinas, montado em 1901 durante o período colonial americano, a levou.

Soubemos mais tarde que Leticia tinha sido "salvaged", ou seja, torturada e morta em circunstâncias desconhecidas --outro termo artístico sob a lei marcial. Era o cruzamento de duas palavras: "salvar" e "selvagem", que significa ser rebelde em espanhol, mas maligno ou abusivo no dialeto tagalog. Acrescente-se a essa piada obscena o jogo de seu significado em inglês: redimir, resgatar de um naufrágio. Essa nova palavra por si só resumiu a longa história da opressão nas Filipinas --espanhola, americana e autóctone. O corpo de Leticia nunca foi encontrado.

Era a Guerra do Vietnã durante minha infância, e as Filipinas estavam nas mãos de um Estado militar sustentado por remessas de armas dos EUA. Os cidadãos que não tinham direitos na época eram estudantes radicais, agricultores ativistas, comunistas fantasmas. O governo de Marcos prendeu 70 mil pessoas, torturou 35 mil e matou 3.257 entre 1975 e 1985.

Hoje, os alvos do governo são viciados em drogas e traficantes, e uma série de testemunhas, inclusive crianças. O número de mortes nos quase 11 meses em que Duterte está no poder já é mais que o dobro do número oficial de assassinatos políticos durante uma década do regime Marcos. Eu vi em tempo real como o fascismo muda nossas línguas.

O governo Duterte chama sua campanha antidrogas de Projeto Tokhang. "Tokhang" é uma invenção linguística e um medo existencial. Ela combina "toktok" (bater à porta) com "hangyo" (suplicar), duas palavras de cebuano, a língua materna de Duterte e irmã da minha, o waray. No Projeto Tokhang, a polícia bate à sua porta e pede que você saia. Se você não sair, poderá ser um "na-tokhang", o que significa preso sem recurso e morto.

Nas redes sociais, "na-tokhang" se tornou um significante com infinitas possibilidades. Sua unha quebrou, é "natokhang". Seu salário é baixo e você quer evitar ficar com a carteira "natokhang", ou vazia. Depois que o fotografaram bêbado, você tuíta que parecia #natokhang. Ou quando seu carro quebra você diz que está "natokhang".

"EJK" ("extrajudicial killings" em inglês, ou execuções extrajudiciais) tornou-se um verbo, como em "na-EJK siya": "Ele foi morto pela polícia". Ser "ka-DDS" se traduz literalmente por "amigo-DDS", e para as pessoas que usam a frase é uma coisa positiva.

"DDS" refere-se ao Davao Death Squad (esquadrão da morte Davao), um grupo de milicianos que estaria atuando em Davao City, onde Duterte foi prefeito. Organizações como a Human Rights Watch acusam o grupo de ter matado ladrões menores, vendedores de drogas e outros pequenos infratores. Por isso "ka-DDS" significa ser amigo de Duterte. É uma convocação a seus apoiadores --um pouco como os eleitores de Donald Trump que orgulhosamente se apossaram de "deploráveis" depois que Hillary Clinton os chamou disso.

Segundo pesquisas do mês passado, 76% dos filipinos disseram que confiam em Duterte. Alguns aceitaram como o novo normal que os usuários de drogas merecem morrer, seus cadáveres amarrados com fita adesiva atirados nas ruas. Outros estão indignados. Mas para todos o bizarro é mundano e o humor é uma arma contra o indizível.

O novo restaurante Tokhang Sizzlers, no Navotas Agora Market, no norte de Manila, tem um menu inspirado que inclui "pinosas na liempo", ou barriga de porco com algemas, e "tinorture na pork chop", ou costeletas de porco torturadas. Custam 99 pesos cada.

Há também "salvaged milkfish" (peixe-leite recheado com tomates), "wanted sisig" (orelhas de porco procuradas, com alho e cebola), "picked-up corned beef" (carne enlatada presa) e "sausage dumped in a bag" (linguiça metida num saco). É um cardápio digno de uma Novena às Chagas dos filipinos que sofrem há muito tempo mas continuam rindo.

Publicado no Facebook, o menu atraiu comentários. "Havia muitos restaurantes durante a lei marcial com esse cardápio", comentou alguém. Um prisioneiro político durante os anos de Marcos disse: "Quando eu estava detido em Fort Santiago em 1973-74, algumas de nossas refeições eram 'sinibak na gulay' (legumes esfaqueados), 'tinortyur na galunggong' (carapaus torturados), 'binartolinang bangus' (peixe-leite enjaulado)". Não está claro se foram os guardas ou os prisioneiros que inventaram esses termos.

Aprofundei minha pesquisa para um romance que estou escrevendo sobre a Guerra Filipino-Americana de 1899-1902. Acontece que o menu de aniversário do presidente Emilio Aguinaldo, em 1900, cujos revolucionários ficaram encurralados na remota Palanan, a nordeste de Manila, enquanto combatiam os americanos, incluiu um guisado à la Mauser (frango apanhado com armas espanholas confiscadas), rosbife à la Baioneta e Molho Trovão (que, segundo o diarista, cheirava a pólvora). Na época, assim como hoje, as pessoas buscavam jogos de palavras para reivindicar uma aparência de controle sobre vidas que pareciam não ter nenhum.

Talvez o mais triste, e mais assustadoramente divertido, dos pratos no restaurante Navotas é o "presunto nanlabang", o presunto que lutou de volta. Na minha opinião, "nanlaban", que significa resistir, deveria ser considerada uma coisa heroica. Mas Duterte disse que a polícia tem o direito de matar qualquer suspeito de droga, culpado ou não, que resista à prisão, e há muitos relatos de policiais plantando armas nas vítimas, às vezes a mesma arma.

"Napagkamalang hot dog" é um candidato a segundo lugar no prêmio de 'prato mais triste'. Significa cachorro-quente enganado. Isso me fez rir, de início. Mas as palavras jogam com um medo real --o medo de ser confundido com outra pessoa, de se tornar o inimigo, de ser mais uma pessoa erroneamente detida ou morta. Tudo mudou tão rapidamente no curto ano desde a eleição de Duterte que nossas línguas, e nossos pensamentos, ainda se contorcem em surpresa.

*Gina Apostol é autora de "Gun Dealers' Daughter" e "The Unintended".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos