Análise: Plano de Macron para a zona do euro é desastroso

Jochen Bittner*

  • Jonathan Ernst/Reuters

Corrija-me se eu estiver errado, mas não consigo me lembrar de um único parceiro europeu abrindo a carteira depois de 1989, quando a Alemanha enfrentou seu maior desafio econômico na história do pós-guerra. De alguma forma, sem muito apoio de seus vizinhos, este país conseguiu reunificar um próspero lado ocidental com um oriental pós-comunista cujas fábricas e infraestrutura tinham sido dilapidadas por 40 anos de má administração socialista. Não somente isso, ele incorporou 16 milhões de alemães-orientais ao sistema de seguridade social e aposentadoria do lado ocidental, para o qual nunca haviam contribuído.

Ninguém na Europa correu para preencher cheques, mas fizeram fila para oferecer doações de ceticismo histórico e exigências políticas. Para apaziguar as ansiedades francesas, em particular, o governo alemão concordou em abandonar seu amado e poderoso Deutschmark, moeda que o presidente francês, François Mitterrand, havia comparado a uma "força nuclear" alemã, em favor do euro.

Por isso é um pouco ridículo ouvir, durante as recentes eleições francesas, políticos de esquerda e de direita culparem a Alemanha pela prolongada crise econômica da França, afirmando que a força econômica desmesurada da Alemanha veio às custas de seu vizinho galês. Seria engraçado se não fosse perigoso --a solução oferecida pelo novo presidente francês pró-europeu, Emmanuel Macron, é criar um orçamento da zona do euro, com seu próprio ministro das Finanças.

Acredito firmemente que a União Europeia, ferida e prejudicada pelo Brexit, precisa de uma infusão de nova autoconfiança e decisão. Mas a proposta de Macron é um desastre em formação. Ela apenas alienará ainda mais os europeus entre si e enfraquecerá economicamente o bloco.

Durante anos, a UE sofreu uma crise de subdesempenho, empurrada para baixo por duas formas de uma autoilusão conveniente: primeiro, o egoísmo gritante no que se trata de desafios internacionais como a gestão dos refugiados e a política externa; segundo, uma abordagem demasiado branda em relação a questões nacionais como a reforma econômica.

O dinheiro de Bruxelas foi muitas vezes a maldição da Europa. O governo grego, por exemplo, soube que poderia considerar garantido o apoio dos outros membros do euro por seu orçamento insustentável depois que a chanceler Angela Merkel da Alemanha declarou incautamente: "Se o euro falir, a Europa falirá". Atenas desacelerou as reformas, sabendo que Bruxelas a socorreria, e os europeus do norte ficaram irritados.

No pior dos casos, o plano de Macron poderia transformar esse desincentivo em uma característica normal da UE. Sem alavancagem política, Bruxelas acabaria segurando a bolsa, mas não os cordões da bolsa.

Macron não especificou exatamente como esse orçamento centralizado funcionaria --e mais precisamente o que seu governo espera de Bruxelas, hoje ou no futuro. Juntamente com o discurso sobre um orçamento de Bruxelas, há também conversas em Paris sobre eurobônus. Ambas as medidas fariam alguns membros do euro pelo menos em parte carregarem os deficits de todos os outros.

Isso pode explicar um cumprimento oblíquo do ministro das Relações Exteriores alemão, Sigmar Gabriel, depois da eleição francesa. "Se um presidente francês tem a coragem de fazer um claro sinal para a Europa depois de sua eleição, a Alemanha deve ter a coragem de repensar suas próprias posições inabaláveis na união monetária", disse Gabriel.

Traduzindo, Gabriel está dizendo que se Macron seguir suas reformas reais --o "sinal claro para a Europa"--, a Alemanha poderia estar disposta a abrir seus próprios cofres --as "posições inabaláveis" contra resgates financeiros-- apenas como último recurso. Em outras palavras, Gabriel está oferecendo a Macron uma troca: reforma real na França por apoio real da Alemanha --não apenas para a França, mas para o resto da zona do euro.

Isso não é nada. Qualquer tentativa de Macron de reformar a França muito provavelmente encontrará dura resistência dos sindicatos de lá. Juntamente com muitos apoiadores da candidata nacionalista derrotada Marine Le Pen, eles há muito identificaram o novo presidente e ex-banqueiro como um "neoliberal" de coração frio que se importa mais com os lucros do que com as pessoas.

Isso sempre me pareceu estranho. Deixando de lado o histórico de Macron, seu zelo reformista dificilmente é irreal: ele quer cortar a proporção entre os gastos do governo e o PIB de 56% para 53%. Se isso faz dele um "neoliberal" malicioso, então que tipo de monstro deve estar governando os países do euro nas vizinhas Espanha (42%) e Alemanha (44%)?

Se os trabalhadores franceses se opõem a toda e qualquer reforma, se eles insistem em manter sua semana de trabalho de 35 horas e sua aposentadoria aos 62 anos, é opção deles. Mas seria melhor pararem de se queixar sobre o superavit comercial recorde da Alemanha.

Sim, o euro tem um problema embutido: seus membros não podem desvalorizar suas moedas em tempos de crise. Mas os membros sabiam disso ao entrar, e não adianta querer recuar agora. Em vez disso, eles podem tentar trabalhar mais para alcançar o mais forte.

Em um sinal a mais um presidente jovial, Macron precisa colocar mais isto para sua população: não pergunte o que a Alemanha pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer pela França.

*Jochen Bittner é editor de política do jornal semanal "Die Zeit" e colabora com editoriais.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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