Retirada das tropas americanas da península coreana seria o caminho da paz?

Graham Allison

  • Eduardo Munoz/REUTERS

    Membros do Exército americano seguram a bandeira dos EUA enquanto participam da cerimônia de comemoração anual do Memorial Day do Museu em Nova York

    Membros do Exército americano seguram a bandeira dos EUA enquanto participam da cerimônia de comemoração anual do Memorial Day do Museu em Nova York

Estamos assistindo a uma crise dos mísseis de Cuba em câmera lenta.

O presidente Trump prometeu ao mundo que "resolveria" a crise nuclear da Coreia do Norte antes que o líder do país, Kim Jong-un, pudesse acoplar uma arma nuclear em um míssil que consiga alcançar San Francisco ou Los Angeles, uma façanha desalentadora que, segundo especialistas, ele está a caminho de realizar durante o mandato de Trump. O presidente tem razão ao apontar que seus antecessores só conseguiram postergar esse problema. Mas Trump não disse como ele pretende resolvê-lo.

A História sugere que à medida que Trump passar a entender os riscos envolvidos, ele se contentará com restrições sobre os testes norte-coreanos para impedir que eles consigam alcançar o território americano com uma ogiva nuclear. O presidente Xi Jinping da China lhe apontou essa direção durante a cúpula de Mar-a-Lago em abril, propondo uma suspensão nas atividades militares americanas na península coreana em troca da suspensão dos testes de mísseis de longo alcance da Coreia do Norte.

Uma abordagem que requeira que os Estados Unidos aceitem o que por muito tempo consideraram "inaceitável" parecerá irresponsável a muitas pessoas em Washington. Será que a segurança nacional dos Estados Unidos realmente se fortalecerá se um ditador de 33 anos com um histórico de execução de seus inimigos e de desafiar limites estabelecidos puder ficar com um arsenal de 20 ogivas e mísseis que consigam realizar ataques nucleares contra Seul e Tóquio? Seria algo difícil de engolir, como reconheceu o secretário de Estado Rex Tillerson na Coreia do Sul dois meses atrás, quando ele observou que uma suspensão como essa era "precipitada" já que ela não resolveria nada imediatamente.

Mas à medida que Trump e Tillerson revirem as escolhas que Mao Tsé-Tung fez em 1950, e John F. Kennedy fez em 1962, eles passarão a ponderar os riscos de se encurralar um adversário, e encontrar as pistas mais claras para um acordo que tanto Washington quanto Pequim poderiam apoiar.

Comecemos com Mao. Na Guerra da Coreia, responsáveis pelas políticas americanas presumiam que se os Estados Unidos saíssem em defesa da Coreia do Sul, uma China exaurida por anos de guerra civil não responderia. Estavam errados. Mao não hesitou em desencadear um imenso contra-ataque contra uma superpotência nuclear quando soldados dos Estados Unidos na Coreia se aproximaram da fronteira chinesa. Assoberbados, os homens do general Douglas MacArthur bateram em retirada.

E poderia isso acontecer novamente? Talvez. A comunidade de inteligência dos Estados Unidos acredita que ataques militares americanos contra a Coreia do Norte quase que certamente desencadeariam uma retaliação que mataria até um milhão de cidadãos em Seul. O governo sul-coreano responderia com um ataque em larga escala contra o Norte. Os Estados Unidos estão comprometidos a apoiar a Coreia do Sul. Mas será que Xi permitiria que a península coreana fosse reunificada por um governo aliado dos Estados Unidos?

E a História não está a nosso favor. Um estudo que conduzi em Harvard revelou 16 casos ao longo dos últimos 500 anos em que uma potência ascendente ameaçou suplantar uma potência vigente. Em 12 deles, o resultado foi guerra. Hoje, com uma China invencível em ascensão rivalizando com um Estados Unidos dominante imóvel, essa dinâmica —que chamo de Armadilha de Tucídides— amplia os riscos.

O que vemos hoje se desdobrando é uma Crise dos Mísseis de Cuba em câmera lenta. No momento mais perigoso da História já registrado, para evitar que a União Soviética colocasse ogivas nucleares em Cuba, John F. Kennedy estava preparado para assumir o que, como admitia, seria uma probabilidade de uma em três de uma guerra nuclear com a União Soviética. Que risco Trump correrá para evitar que a Coreia do Norte adquira a capacidade de atacar os Estados Unidos?

À medida que Kennedy se aproximava da hora decisiva em que teria de atacar, correndo o risco de iniciar uma guerra nuclear, ou consentir com uma presença nuclear soviética no quintal americano, tanto ele quanto Nikita Khrushchev, o líder soviético, começaram a examinar opções antes impensáveis. Segundo a narrativa popular americana, Khrushchev capitulou. Mas hoje sabemos que ambos os lados cederam. Kennedy concordou secretamente em remover os mísseis americanos da Turquia, uma opção que ele e seus assessores haviam rejeitado anteriormente por causa de seu impacto sobre a Otan, e porque ele pareceria fraco.

A principal lição da crise para Kennedy ainda oferece conselhos sábios para Trump. "Acima de tudo", disse Kennedy, "ao mesmo tempo em que defendemos nossos próprios interesses vitais, as potências nucleares precisam evitar esses confrontos que levam um adversário a ter de escolher entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear".

Em Mar-a-Lago, Xi supostamente incentivou Trump a aceitar "suspensão em troca de suspensão". Pela suspensão de Kim sobre futuros testes de mísseis balísticos intercontinentais, os Estados Unidos poderiam adiar ou modificar exercícios militares na região. Algumas pessoas no círculo de Xi até mesmo propuseram que os Estados Unidos e a China considerassem uma nova arquitetura de segurança na Ásia Oriental.

De fato, eles observam que a presença americana na Coreia do Sul é um acidente da História. Se a Coreia do Norte não tivesse atacado o Sul em 1950, os Estados Unidos nunca teriam intervindo. Então se a China fosse assumir a responsabilidade por tirar Kim do poder, desnuclearizando o país e reunificando a península sob um governo em Seul amigável a Pequim, será que os Estados Unidos removeriam todas suas bases do Sul e encerrariam sua aliança militar?

Para a maioria dos presidentes americanos, a ideia seria inviável. Mas Trump é, acima de tudo, original. Será que a necessidade de se evitar uma guerra nuclear, neste caso, será novamente a mãe da invenção?

*Graham Allison é diretor do Belfer Center for Science and International Affairs na Harvard Kennedy School e autor de "Destined for War: Can America and China Escape Thucydides's Trap?" ("Destinados à guerra: podem os Estados Unidos e a China escapar da armadilha de Tucídides?")

Tradutor: UOL

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