Chamado de assassino, tirano, lunático e misógino, Duterte tem a confiança de 80% dos filipinos. Por quê?

Nicole Curato

Em Canberra (Austrália)

  • Erik De Castroe/Reuters

Em seu quase um ano como presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte foi chamado de assassino, tirano, misógino e lunático. Ainda assim, de acordo com pesquisas de opinião recentes, ele inspira "muita confiança" em 80% dos filipinos.

Defensores de Duterte às vezes são chamados pejorativamente de "Dutertados". Mas seriam eles simplesmente ingênuos e uma presa fácil para a demagogia, a propaganda e as notícias falsas? Acho que não.

Há mais de três anos venho estudando como políticas democráticas se moldam em contextos pós-desastre, mais especificamente nas comunidades que foram afetadas pelo tufão Haiyan em novembro de 2013. O Haiyan foi uma das mais fortes tempestades tropicais que já caíram, matando mais de 6.200 pessoas.

A Cidade de Tacloban, meu campo de trabalho, foi o marco zero para o ciclone. É uma cidade com cerca de 240 mil habitantes na parte central das Filipinas, sendo um centro de comércio, educação e turismo em uma das regiões mais pobres do país.

Falei com mais de 250 residentes, a maior parte em áreas de risco que o governo declarou como "zonas proibidas para construção", e muitos, ainda recuperando-se do choque do desastre, ficaram empolgados quando Duterte concorreu à presidência e depois quando ele venceu.

Tacloban pode não ser um retrato exato do país todo, mas ela revela algo importante, e algo que vai além do meramente incidental, sobre o porquê de as comunidades que vivem sob condições precárias valorizarem a liderança de Duterte: ele parece ser um raro político que não se esquece do povo.

Vejam por exemplo Shirelyn, uma sociável mãe de 20 e poucos anos com dois filhos. Quando a conheci pela primeira vez em 2014, ela vivia em um barraco feito de gravetos e placas de ferro galvanizado. Sua casa havia sido levada pelo tufão. Shirelyn tinha de fazer bicos sempre que seu companheiro, um condutor de riquixá, não conseguia ganhar o suficiente para sustentar a família.

No ano passado, ela optou por abrir mão do pagamento de alguns dias para fazer campanha para Duterte quando ele era candidato à presidência. "É o mínimo que posso fazer", ela me contou em abril de 2016, no auge da disputa.

Duterte era prefeito de Davao City na época do Haiyan e havia enviado equipes de resgate a Tacloban. "É nossa vez de ajudá-lo", diziam pôsteres colados em toda Tacloban durante sua campanha presidencial.

Passados seis meses de seu mandato, a promessa de campanha de Duterte, "a mudança está vindo", se materializou para Shirelyn. Ela e sua família foram realocadas para a região norte da cidade, para uma casa com paredes de alvenaria, um banheiro e até mesmo um jardim.

Sua nova casa remete aos cobiçados condomínios de classe média de Manila, com seus arcos de boas-vindas pintados de cores vibrantes, suas casinhas idênticas enfileiradas e cercas de estacas.

"Eu sabia que Duterte não ia esquecer", disse Shirelyn.

Em novembro ouvi Duterte fazer um discurso em Tacloban em lembrança ao terceiro aniversário do Haiyan. Ele prometeu acelerar a ajuda humanitária na região, que havia se estagnado. E ameaçou matar um funcionário do governo que ele havia encarregado da missão caso esse funcionário não transferisse as famílias para as casas permanentes à prova de desastres rápido o suficiente. ("Sabe, cara", ele disse ao homem, que estava no palanque com ele, "na verdade é raro eu atirar nas pessoas, especialmente meus amigos. Mas se você não conseguir fazer isso...")

No mesmo discurso, Duterte também fez um comentário sugerindo que olhava para as pernas da vice-presidente Leni Robrego durante reuniões de gabinete.

"Que tarado", sussurrei para uma senhora sentada ao meu lado durante a audiência. "Deixa para lá", ela disse. "Ele se importou o suficiente para estar aqui."

Políticos nas Filipinas muitas vezes são vistos como oportunistas que procuram o povo enquanto estão em busca de votos, mas que somem de vista uma vez que são eleitos. Para os sobreviventes do Haiyan, Duterte é diferente. Três anos depois do desastre, mesmo depois de se tornar presidente, ele veio a Tacloban. Isso o diferenciou de seu antecessor, Benigno S. Aquino, que uma vez criticou sobreviventes por reclamarem sobre suas dificuldades em vez de se mostrarem gratos por estarem vivos.

O paradoxo, é claro, é que mesmo que Duterte esteja devolvendo a dignidade às vítimas do desastre que se sentiam negligenciadas pelo Estado, o governo está atacando outras comunidades vulneráveis, como usuários suspeitos de drogas e pessoas em torno deles.

Em janeiro, perguntei a Rafael, um segurança de Tacloban, como ele se sentia a respeito da campanha do governo contra as drogas, que já havia triado mais vidas do que o próprio Haiyan. Rafael perdeu sua mulher para o tufão.

"É triste", ele disse, mencionando o caso de um adolescente que foi morto por atiradores não identificados depois de ser confundido com outra pessoa. "Mas os outros merecem. Eu sei. Eu patrulho as ruas aqui".

Perguntei se ele achava que o que Duterte estava fazendo era justo. "Ele tem sido justo conosco", respondeu Rafael.

Em outras palavras: nem todo sofrimento é igual, e a compaixão deve ser merecida. A campanha anti-drogas de Duterte se baseia habilmente na visão popular de que existem hierarquias da miséria.

Em um vilarejo perto de onde Shirelyn costumava morar, uma feirante me contou com orgulho que havia denunciado um traficante de drogas para o chefe do vilarejo.

"Eu trabalho duro para colocar meus filhos na escola", ela disse. "Então esse homem vem e vende drogas para elas. Não dá".

O traficante hoje está em uma lista de suspeitos do governo.

De acordo com uma pesquisa conduzida em março, 73% dos entrevistados disseram estar preocupados que eles ou alguém que eles conhecessem pudessem se tornar vítimas de um assassinato extrajudicial. Mas a ansiedade que encontrei em Tacloban era a respeito de outra coisa. Tinha a ver com o medo das pessoas de serem novamente abandonadas pelo Estado.

Shirelyn me mostrou um caderno no qual havia anotado as promessas feitas por Duterte em seu primeiro discurso ao país como presidente. Isso foi em janeiro, alguns meses depois de ela ter se mudado para sua nova casa. Por aquilo, ela se sentia grata. A respeito do resto, como empregos, novas escolas e um melhor sistema de saúde, ela não tinha certeza.

"Fiz uma lista para não me esquecer", ela disse. "Sabemos o que merecemos."

Duterte pode não ter de responder pelos assassinatos, mas ele terá de responder pelas promessas não cumpridas.

*Nicole Curato é pesquisadora do Center for Deliberative Democracy and Global Governance na Universidade de Canberra. Ela é editora do livro a ser lançado "The Duterte Reader".

 

Tradutor: UOL

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