Como o Estado Islâmico conseguiu se instalar nas Filipinas?

Sidney Jones*

  • Romeo Ranoco/Reuters

Por cerca de duas semanas, dezenas de militantes islâmicos têm enfrentado as Forças Armadas filipinas na cidade de Marawi, na ilha de Mindanao, onde vive grande parte da minoria muçulmana das Filipinas. A batalha acirrada, feroz até mesmo para os padrões desta parte propensa a conflitos do país, indica que o Estado Islâmico agora também é um problema no Sudeste Asiático e que o governo filipino pode ser o elo fraco na região para tratá-lo.

Enquanto o presidente Rodrigo Duterte focava suas energias em seu primeiro ano de governo na campanha brutal contra usuários e traficantes de drogas, uma coalizão variada apoiando o Estado Islâmico (ex-guerrilheiros, universitários, herdeiros de famílias políticas, cristãos convertidos ao Islã) se transformou em uma força de combate com resistência surpreendente. Mindanao há muito é lar de insurgências, mas o advento desta coalizão, que é mais ideológica e tem laços mais estreitos com radicais islâmicos no exterior do que qualquer grupo local antes dela, marca o fracasso do governo em entender como mudou a natureza do extremismo nas Filipinas.

Rebeliões armadas pró-autonomia estão ativas em Mindanao desde os anos 70. A Frente Moro de Libertação Nacional (FMLN) chegou a um acordo de paz com o governo em 1996, mas facções contrárias aos termos do acordo continuaram lutando. A Frente Moro de Libertação Islâmica (FMLI), um grupo dissidente com cerca de 12 mil combatentes, iniciou negociações no mesmo ano e quase chegou a um acordo final com o antecessor de Duterte. Mas o processo de paz ruiu no início de 2015 e, apesar de algumas poucas iniciativas por parte do novo governo, o impasse persiste.

Terroristas estrangeiros aparecem periodicamente às margens das insurreições, notadamente da Al Qaeda em meados dos anos 90 e posteriormente do Jemaah Islamiyah, uma organização extremista baseada na Indonésia. Em 2005, quando o FMLI expulsou um pequeno grupo desses homens para poder negociar com o governo, eles se juntaram ao Abu Sayyaf, outro grupo dissidente contrário ao acordo do FMLN com o governo. Baseado no Arquipélago de Sulu, a sudoeste de Mindanao, o Abu Sayyaf queria um Estado islâmico pra os muçulmanos de Mindanao. O grupo se tornou conhecido por suas atividades de sequestro visando pagamento de resgate, mas até meados dos anos 2000 também acolhia terroristas estrangeiros à procura de refúgio.

Logo, não causou surpresa o fato de Isnilon Hapilon, um líder do Abu Sayyaf, estar entre os primeiros militantes nas Filipinas a jurar lealdade a Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico, após este declarar um califado em Mosul, Iraque, em 2014. No início de 2016, uma nova coalizão pró-Estado Islâmico surgia sob o comando de Hapilon, unindo diferentes grupos étnicos e regionais.

O governo menosprezou a crescente ameaça. Logo após Duterte se tornar presidente no ano passado, ele buscou destruir o Abu Sayyaf em resposta a uma série de decapitações de vítimas sequestradas. Na verdade, os sequestradores não tinham nenhum elo com a facção de Hapilon. Em parte devido ao fracasso do governo em perceber esse fato, ele também fracassou em perceber que, àquela altura, a coalizão pró-Estado Islâmico já tinha se estendido além do Abu Sayyaf e que seus líderes eram movidos por ideologia, não pelo lucro. Uma ofensiva militar contra as forças de Hapilon em Basilan, uma pequena ilha ao sul de Mindanao, em meados de 2016, apenas teve sucesso em fazer o grupo transferir seu quartel-general operacional para a selva em Lanao del Sur, uma província na região central de Mindanao. Marawi é a capital da província.

O atentado a bomba em um mercado noturno em setembro de 2016, em Davao, a cidade da qual Duterte foi prefeito antes de se tornar presidente, deveria ter servido para despertar o governo. Vários suspeitos do atentado disseram posteriormente à polícia que apesar de terem agido sob ordens de Hapilon, a operação foi planejada e organizada pelos irmãos Maute, os líderes do grupo baseado em Lanao del Sur. Os Maute são uma nova raça de extremistas: jovens, carismáticos, com fluência em árabe, educados no Oriente Médio, com domínio das redes sociais e com vastas conexões internacionais. A família estendida deles faz parte da elite política e empresarial de Marawi, assim como é relacionada por casamento com os altos escalões da FMLI. Desde novembro do ano passado, o grupo dos Maute entrou repetidamente em choque com o Exército, tomando por duas vezes a pequena cidade de Butig.

Operações militares não foram dissuasoras: os combatentes que ocupam Marawi hoje não vêm apenas da facção de Lanao del Sur, mas também de uma coalizão pró-Estado Islâmico maior, proveniente de Basilan e do exterior. Alguns dos homens mortos recentemente em Marawi eram de nacionalidade indonésia, malasiana e saudita.

Em abril de 2014, antes mesmo do califado ser declarado em Mosul, três malasianos se juntaram a Hapilon em Basilan. O mais importante deles, conhecido como Abu Anas, o Émigré, parecia estar em contato direto com o comando central do Estado Islâmico. Após a morte de Abu Anas em Basilan em dezembro de 2015, Mahmud Ahmad, antes professor de estudos islâmicos da Universidade de Malaya, assumiu como estrategista-chefe, financista e recrutador, primeiro para Hapilon e posteriormente para toda a coalizão. Acredita-se que ele esteja atualmente em Marawi.

Em meados de 2016, com a travessia da fronteira turca para a Síria se tornando cada vez mais difícil, os líderes do Estado Islâmico endossaram a jihad (guerra santa) em Mindanao. Em junho do ano passado, a mídia oficial do grupo divulgou um vídeo mostrando um indonésio, um malasiano e um filipino pedindo a seus compatriotas que não conseguissem chegar à Síria para seguirem para as Filipinas.

Um fluxo de exortações semelhantes apareceu nos canais pró-Estado Islâmico do serviço de mensagens Telegram. A recente tomada de Marawi, saudada com euforia pelos extremistas nas redes sociais na Indonésia e em outros lugares, quase certamente levará a mais estrangeiros querendo lutar nas Filipinas.

É por isso que Duterte precisa chegar a uma estratégia para enfrentar a coalizão do Estado Islâmico que vá além de ataques aéreos e o uso cada vez maior de força.

A lei marcial, que o presidente declarou em Mindanao em 23 de maio, pode levar a mais prisões e detenções, mas não chegará à raiz da radicalização: má governança, sistema legal disfuncional e pobreza endêmica. As prisões, dilapidadas e superlotadas, são um terreno fértil para recrutamento pelos terroristas.

O governo precisa urgentemente recolocar nos trilhos o processo de paz em Mindanao. Quanto mais demorar, maior o risco de membros desiludidos da FMLI se juntarem à coalizão extremista.

A resposta do governo Duterte ao extremismo islâmico tem sido até o momento tentar esmagá-la militarmente. Mas com frequência a tática de braço forte só gera mais combatentes, combatentes com desejo de vingança. O governo Filipino deve elaborar primeiro uma estratégia abrangente para corrigir os problemas sociais, econômicos e políticos que levaram os ideólogos do Estado Islâmico a exercerem tanto apelo em Mindanao.

*Sydney Jones é diretor do Instituto de Análise de Políticas para Conflitos em Jacarta, Indonésia

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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