Na Alemanha, refugiados afegãos estão sendo deportados de volta para zona de guerra

Emran Feroz

Em Stuttgart (Alemanha)

  • Rahmat Gul/AP

    31.mai.2017 - Forças de segurança do Afeganistão próximas a cratera formada por uma explosão de carro-bomba que matou 150 pessoas, em Cabul

    31.mai.2017 - Forças de segurança do Afeganistão próximas a cratera formada por uma explosão de carro-bomba que matou 150 pessoas, em Cabul

Dezenas de milhares de requerentes de asilo afegãos por toda a Europa, incluindo meu amigo Peer, estão sendo deportados.

Quando Peer Mohammad me ligou poucas semanas atrás, eu soube imediatamente que algo estava errado. Meu amigo quase invariavelmente é calmo e bem-humorado, mas quando ele ligou, sua voz estava carregada de ansiedade. "Recebi esta carta", ele disse. "Acabou." A carta era nada menos que um decreto de deportação. As autoridades alemãs decidiram enviar Peer de volta ao Afeganistão, nosso país natal devastado pela guerra.

Nos últimos seis anos, Peer viveu aqui em Stuttgart. Em 2011, ele fugiu de sua casa na província de Paktia, no leste do Afeganistão, devido ao agravamento da violência. Ele chegou à Alemanha após viajar, frequentemente a pé, pelo Irã, Turquia, Grécia e pelos Bálcãs. Após um ano em Stuttgart, ele encontrou um emprego como faxineiro, que manteve desde então. Hoje ele está integrado na sociedade, aprendeu um alemão melhor que passável e paga sua parcela justa de impostos. Fez amigos de várias partes do mundo e começou a planejar um futuro aqui.

Mas de repente, ele foi forçado a reservar uma passagem para Cabul. As autoridades lhe disseram para "partir voluntariamente", uma ameaça velada que contém o espectro de agentes do Estado aparecendo à porta dele caso não se autodeportasse. Para incentivar seu suposto retorno voluntário, Peer receberá algumas poucas centenas de euros.

Visar os requerentes de asilo afegãos para deportação se transformou em uma tendência na União Europeia, onde os governos estão buscando reduzir ou desencorajar a imigração. Apesar de refugiados do Iraque e da Síria receberem regularmente asilo, mais e mais afegãos enfrentam a deportação. Apesar do Afeganistão já ser atormentado por guerra há quase 40 anos, países como Suécia, Áustria e Alemanha argumentam que muitos afegãos são "imigrantes econômicos" e o país deles tem "áreas seguras" para as quais retornarem.

Os responsáveis por essa tendência não estão apenas em Berlim e Estocolmo. No ano passado, o governo afegão fechou um acordo com a União Europeia que assegura a deportação de refugiados afegãos. O governo de Cabul recebeu bilhões de euros em dinheiro de ajuda sob a condição de que ajude a repatriar os afegãos deportados da Europa.

De lá para cá, refugiados afegãos por toda a Europa foram lançados em um estado de temor. Enquanto isso, o governo afegão finge estar no controle da segurança do país. Segundo o presidente Ashraf Ghani, o dinheiro da União Europeia é necessário para impulsionar a economia do país. Entretanto, grande parte dele provavelmente desaparecerá no sistema político corrupto do Afeganistão, como aconteceu no passado com a ajuda internacional.

Para muitos afegãos na Europa, está muito claro que o governo deles os vendeu. Meu amigo Peer está furioso com as elites políticas em Cabul que fecharam o acordo que condenou a vida que ele planejava na Alemanha. Enquanto afegãos comuns como ele perderam o controle sobre seus futuros, os filhos do presidente Ghani vivem nos Estados Unidos, enquanto a família de Adbullah Adbullah, o oficial-chefe do Executivo do país, vive na Índia. Em uma entrevista para a "BBC", Ghani disse não ter simpatia por aqueles que procuram refúgio em outro lugar.

"Como essas pessoas ousam decidir sobre nossas vidas e destinos?" disse Peer. "É uma charada. Como podem ser levadas a sério?"

Desde dezembro, a Alemanha deportou 107 afegãos para Cabul, todos em voos especiais fretados. Como outros governos europeus, a Alemanha argumenta que o Afeganistão tem "áreas seguras", apesar de parecer incapaz de identificar onde estão.

A realidade da vida no Afeganistão é que nenhum lugar é seguro. Ataques suicidas e atentados a bomba são ocorrências regulares em grandes cidades como Cabul, Mazar-e Sharif, Herat e Jalalabad. Segundo números recentes das Nações Unidas, a morte de civis atingiu um pico desde 2009. Em 2016, mais de 11.500 civis foram mortos ou feridos. Crianças representam um terço das vítimas. No primeiro trimestre de 2017, pelo menos 2.181 vítimas civis foram documentadas pelas Nações Unidas. Durante esse período, o número mais alto de vítimas civis foi registrado na província de Cabul, o local para onde os deportados estão sendo enviados.

Essa realidade foi comprovada de novo em 31 de maio, quando mais de 80 pessoas foram mortas e várias centenas ficaram feridas em um atentado no bairro Wazir Akbar de Cabul. No mesmo dia, afegãos deportados da Áustria e Suécia chegaram ao aeroporto de Cabul.

Após esse atentado, o governo alemão suspendeu temporariamente as deportações e disse que reavaliaria a situação da segurança no Afeganistão. Mas a política de encorajamento de "deportações voluntárias" permanece em vigor.

Peer não tem ideia de para onde ir ou o que fará após chegar em Cabul. Ele não tem parentes na cidade. O vilarejo onde foi criado, em Paktia, é uma zona de guerra remota controlada pelos insurgentes e um local no qual a vida é pontuada pelo horror de ataques aéreos rotineiros tanto do Exército Nacional Afegão quanto da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental).

"Sou forçado a voltar para lá. Não tenho nenhuma outra escolha, mas parece que ninguém na Alemanha se importa", Peer me disse. Após acompanhar meu amigo de uma repartição a outra por vários dias, tive a mesma sensação de desilusão. As autoridades locais simplesmente se recusaram a discutir a questão de enviar um refugiado de volta a uma zona de guerra de alto risco. Quando lhes perguntei se o governo alemão se responsabilizaria pela possível morte do meu amigo, minha pergunta foi recebida com silêncio.

"A deportação é a prática atual e você sabe disso", me disse um burocrata do governo. "Bem, talvez ele tenha feito algo ruim", disse outro. Sem se comprometerem com a gravidade da decisão que tomaram a respeito da vida do meu amigo, que repentinamente foi colocada em risco devido ao seu retorno iminente a uma zona de guerra não familiar, esses funcionários só puderam responder que estavam apenas seguindo ordens.

*Emran Feroz (@emran_feroz) é um jornalista free-lance baseado na Alemanha e fundador do Drone Memorial, um site que lista as vítimas de ataques com drones.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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