Análise: Enquanto EUA apostam em isolamento, Europa renova fé na união do continente

Sylvie Kauffmann

Em Paris (França)

  • Jonathan Ernst/Reuters

    Angela Merkel e Emmanuel Macron

    Angela Merkel e Emmanuel Macron

Nova autoconfiança toma conta dos europeus, alimentada por fé renovada nos eleitorados e reduzida na liderança americana

Enquanto os britânicos conservadores lambiam as feridas, há uma semana, e os eleitores franceses colocavam centenas de novatos no Parlamento para reforçar o poder do presidente Emmanuel Macron, os ucranianos finalmente tinham um motivo para comemorar --e o fizeram, festejando aos milhares em Kiev.

Para eles, 11 de junho foi a alvorada de uma era muito esperada de viagens sem necessidade de vistos para a Europa. Uma revista local chamou-o de "momento Muro de Berlim da Ucrânia".

Esse acontecimento, pouco notado no meio de tantas comoções políticas, é um novo sinal de que a Europa está avançando. Dar a cerca de 45 milhões de ucranianos o direito de viajar livremente pelos 26 países da área 'Schengen' é uma espécie de conquista numa época em que, em toda a União Europeia, a palavra "imigração" soa como uma receita de desastre eleitoral.

Não espere que os líderes da UE se gabem disso; não é algo em que eles sejam bons. Mas um novo clima está se apoderando de Bruxelas e outras capitais europeias hoje em dia, um vento de esperança e otimismo raramente sentido nas últimas duas décadas.

Depois de tantas crises existenciais, os fiéis da UE estão de repente acordando para perceber que as notícias de sua morte foram muito exageradas. A zona do euro não desmoronou. A saída do Reino Unido, que chocou e desestabilizou a união um ano atrás, hoje é vista como uma oportunidade para que os 27 membros restantes se reagrupem.

Alguém lembra que em seguida viria a Frexit? Contra todas as expectativas, os franceses elegeram um presidente que fez campanha pela construção de uma Europa mais integrada. No Reino Unido, a aposta fracassada de Theresa May em uma eleição repentina poderia ter alimentado esperanças no continente de uma meia-volta no Brexit; mas é vista como um incômodo pelos negociadores em Bruxelas que estão ávidos para iniciar as tratativas do divórcio assim que possível.

Embora muitos europeus ainda lamentem o Brexit, seu choque psicológico foi absorvido. Agora vamos aceitá-lo e seguir em frente.

No Reino Unido, na França e na Alemanha, a crise migratória está sendo contida, apesar de um progresso vergonhosamente pequeno na busca de soluções em longo prazo. O público se manteve firme diante dos devastadores ataques terroristas. Os movimentos populistas estão estagnados, confrontados pelas forças democráticas re-energizadas.

E finalmente, mas não menos importante, a economia parece crescer depois de anos de estagnação. Acabou a obsessão pela "década perdida". As pessoas falam em "meia-volta" e uma potencial "década de ouro", expressão recentemente aplicada à Europa por Philipp Hildebrand, o vice-presidente da BlackRock, em uma entrevista à Bloomberg.

A reviravolta mais espetacular, evidentemente, foi oferecida não pelo euro, mas por Emmanuel Macron e sua surpreendente vitória na eleição presidencial francesa no mês passado, seguida do sucesso retumbante de seu novo partido, La République en Marche, no primeiro turno das eleições legislativas em 11 de junho.

Olhando para um gráfico de computador que projetava uma maioria arrasadora do partido na próxima Assembleia Nacional --talvez mais de 400 dos 577 lugares do Parlamento, quando forem contados os votos do segundo turno--, analistas políticos coçavam a cabeça na semana passada: que tipo de vida política essa Câmara significaria para a França, com dois terços ou mais de seus membros apoiando um presidente muito poderoso que não enfrentou uma oposição estruturada significativa?

Nas eleições presidencial e legislativa, Marine Le Pen, a líder da extrema-direita francesa, sofreu um golpe tão devastador que sua Frente Nacional está totalmente desorganizada, assim como todos os partidos tradicionais da corrente dominante. As linhas ideológicas se confundiram em um grande realinhamento político.

Embora seja mais um salto no desconhecido, os franceses agora parecem prontos para todo tipo de experiência para substituir um sistema quebrado. Seu clima sombrio e pessimista deu lugar a "vamos virar a mesa e recomeçar tudo".

No mínimo, uma enorme maioria parlamentar deveria permitir que o presidente Macron aprove as reformas econômica e trabalhista com que ele se comprometeu em sua agenda "transformadora". Tais reformas são cruciais para reiniciar a máquina franco-alemã e reequilibrar as relações entre os dois países, que é essencial para qualquer renascimento europeu.

A chanceler alemã, Angela Merkel, não esconde o entusiasmo por seu novo parceiro francês, que foi igualmente incisivo ao mostrar que os dois estão trabalhando estreitamente ligados. Nos últimos dias, os voos Paris-Berlim e Berlim-Paris ficaram lotados de funcionários públicos que seguiam para reuniões.

Uma nova sensação de urgência está atravessando o Reno. O governo de Macron é abertamente amigo do alemão; cinco de seus membros, incluindo o primeiro-ministro Édouard Philippe, falam a língua com fluência.

As ministras da Defesa da Alemanha e da França, Ursula von der Leyden e Sylvie Goulard, falam as duas línguas e já revelaram planos ambiciosos para a defesa europeia. Em 13 de julho, véspera do Dia da Bastilha, ambos os governos terão uma reunião conjunta de gabinetes em Paris para discutir propostas para reforçar e integrar ainda mais a zona do euro.

A reaproximação franco-alemã parece se estender além da liderança: a última pesquisa ARD-Deutschlandtrend, publicada em 8 de junho, mostrou que 94% dos alemães veem a França como um parceiro confiável, enquanto somente 21% pensavam o mesmo da Rússia... e dos EUA.

A última estatística indica outro fator no renascimento europeu: Donald Trump. A atrasada profissão de fé do presidente americano no Artigo 5º da carta da Otan, em 9 de junho, não apagará os danos causados nas recentes cúpulas da Otan e do G-7 e por sua decisão de deixar o Acordo de Paris sobre mudança climática.

"Temos um problema com o que ele pensa, o que ele diz e o que ele faz", disse-me uma importante autoridade francesa. "Temos de encontrar maneiras de seguir em frente sem os EUA se eles não quiserem vir. Merkel tem razão. Chegou a hora de reformar a UE."

As autoridades francesas rapidamente indicaram que parceiros dos dois lados do Atlântico são de muitas maneiras interdependentes e continuarão trabalhando juntos, por exemplo, na luta contra o terrorismo.

Mesmo sobre a mudança climática, a cooperação encontrará outros caminhos, passando pela Casa Branca, até os Estados e as cidades. "Há forças nos EUA que sabemos que são confiáveis", disse Goulard, a ministra da Defesa francesa, em Cingapura em 3 de junho, "e essas forças acabarão prevalecendo."

A maioria dos líderes europeus está acordando para essa nova realidade. Eles não acreditam mais na história dos "adultos na sala", antes usada para reforçar a influência dos homens em quem eles sentiam que podiam confiar, como James Mattis e H.R. McMaster, para temperar os instintos de um líder inconfiável. Em troca, aqueles americanos precisarão se adaptar à nova realidade da Europa.

*Sylvie Kauffmann é diretora editorial e ex-editora-chefe de "Le Monde" e colabora com editoriais.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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