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Índia enfrenta violência provocada por rumores disseminados no WhatsApp

Alia Allana*

Em Mumbai (Índia)

  • Getty Images/iStockphoto

Certa noite no mês passado, uma mensagem no WhatsApp avisou moradores de aldeias no Estado indiano de Jharkhand para que tomassem cuidado com um grupo de homens vestidos de preto que percorriam as aldeias raptando crianças. O rumor percorreu uma região onde vivem tribos pobres da Índia que trabalham na agricultura e em serviços braçais.

Os moradores confiaram na veracidade da mensagem no aplicativo, que incluía fotos mórbidas de crianças mutiladas, e a transmitiram enfaticamente. Essa crença logo se transformou em pânico, desconfiança de forasteiros e ódio letal de uma multidão que buscava descarregar a violência.

Em 17 de maio, Sheikh Haleem, um empresário de 28 anos da aldeia de Haldipokhar, em Singhbhum Leste, que tinha uma oficina de carros antigos, saiu para encontrar seu cunhado em Shobhapur, aldeia a cerca de 15 km de distância. Ele viajou em um pequeno carro Tata Indica com três de seus sócios: Sheikh Sajjad, 25, Sheikh Siraj, 26, e Sheikh Naeem, 35.

Alguns quilômetros depois, Haleem e seus companheiros chegaram a Gadu, um vilarejo tribal. Assoberbados pelos rumores do rapto de crianças, os moradores haviam montado uma espécie de posto de controle na estrada. Um SUV que ia diante do carro de Haleem acelerou para passar pelo posto e os moradores lhe atiraram tijolos. Haleem acelerou atrás do veículo. Os moradores enviaram mensagens pelo WhatsApp dizendo que sequestradores de crianças tinham fugido da aldeia em um carro Tata Indica.

Centenas de aldeões já haviam cercado a casa do cunhado de Haleem de manhã. O grupo incendiou o carro de Haleem e ameaçou queimar a casa se Haleem e seus companheiros não fossem entregues.

A multidão cresceu para cerca de mil pessoas por volta das 6h30. Um pequeno grupo de policiais tentou acalmá-la. O irmão de Haleem, que veio procurá-lo, não o encontrou, mas viu Naeem de joelhos, coberto de sangue, suplicando por piedade com o gesto tipicamente indiano, com as mãos postas.

Os policiais apenas olharam até que a multidão tivesse terminado e carregaram Naeem até um hospital próximo, onde ele morreu. A polícia encontrou os corpos quebrados e queimados de Sajjad e Siraj em uma aldeia vizinha, no mesmo dia. O cadáver de Haleem foi encontrado no dia seguinte.

Horas após o assassinato de Naeem, mais três homens --os irmãos Vikas e Gautam Varma e seu amigo Gangesh Gupta-- foram mortos por outra multidão instigada por boatos de sequestro. Dois deles tentavam comprar um terreno para montar um negócio. "Um evento provocou o outro", disse um policial graduado, R.K. Mallick.

A atração do WhatsApp, o aplicativo de mensagens para celular de propriedade do Facebook, é que ele é gratuito, simples de usar e criptografado de ponta a ponta. Pesquisadores descobriram que 66% dos 180 milhões de usuários de internet na Índia urbana e 85% na zona rural acessam as redes sociais. A Índia tem cerca de 300 milhões de smartphones hoje, uma parte significativa deles muito baratos e fabricados na China. Cerca de 200 milhões do 1 bilhão de usuários do WhatsApp estão na Índia, o que faz do país o maior mercado do aplicativo.

No Ano Novo, 14 bilhões de mensagens foram trocadas no WhatsApp na Índia, segundo dados divulgados pelo serviço. O WhatsApp liberou a função de chamada com vídeo na Índia em novembro de 2016. Desde então, os indianos fizeram mais de 50 milhões de minutos de videochamadas por dia usando o WhatsApp, mais que qualquer outro país.

As vantagens da livre utilização e do anonimato fizeram do WhatsApp a mais popular ferramenta para disseminar histórias absurdas e rumores de motivação política. Em uma manhã normal na Índia, as mensagens no app podem incluir o boato de que uma popular bebida de manga está contaminada com sangue com HIV, a classificação pela Organização Científica e Cultural da ONU de Narendra Modi como o melhor primeiro-ministro do mundo ou Julian Assange descrevendo-o como um líder incorruptível.

Os anúncios no WhatsApp são habilmente criados para públicos-alvo. No ano passado, a classe média indiana discutiu durante semanas se as novas notas de 2.000 rúpias (cerca de R$ 100) lançadas pelo governo depois da desmonetização incluíam um chip que podia ser usado para rastrear as notas. Não havia chip, mas o rumor durou algum tempo.

O ódio nacionalista, muitas vezes com tons sectários, domina o mundo das mensagens de WhatsApp na Índia. Um dos mais populares boatos no app neste ano mostrava a suposta decapitação de dois soldados indianos por soldados paquistaneses com um serrote e uma faca. O hino nacional da Índia tocava ao fundo.

Pankaj Jain, que dirige o site Hoax Slayer, que denuncia falsas histórias virais nas redes sociais, descobriu que o vídeo mostrava assassinatos na guerra entre bandos criminosos mexicanos. "Quase 80% das informações enganosas vêm de grupos de extrema-direita e se espalham como fogo", disse Jain.

Outra mensagem popular no WhatsApp culpava a formação cristã da escritora Arundhati Roy por seus textos críticos sobre a política indiana. A suposta prova disso seria a hábil trama de Roy para ocultar sua identidade cristã, ao não usar seu nome completo, Suzanna Arundhati Roy.

Durante os três anos de governo de Modi, houve uma clara ascensão na política majoritária e um aumento equivalente em preconceito e violência contra as minorias e os dissidentes. O WhatsApp foi transformado no principal mensageiro de preconceito, levando um combustível virtual incessante para manter acesos os ódios modernos.

Não houve uma contagem nacional do número de crimes na Índia depois de rumores espalhados pelo WhatsApp, mas vários incidentes importantes foram relatados em todo o país. Um antigo vídeo de um ataque em bando circulou no app quando houve uma greve em Muzaffarnagar, uma pequena cidade de Uttar Pradesh, em agosto de 2013.

Mais de 40 hindus e muçulmanos foram mortos, várias mulheres muçulmanas, violentadas e cerca de 40 mil muçulmanos, obrigados a deixar suas casas para viver em campos de refugiados em cidades e aldeias próximas.

Em 4 de junho de 2014, uma semana depois da posse de Narendra Modi como primeiro-ministro da Índia, Mohsin Sadiq Sheikh, um profissional de informática de 24 anos, voltava para seu apartamento na cidade de Puna, no oeste da Índia, quando foi agredido até a morte por membros de um grupo hindu radical. Este entrou em um frenesi violento depois que imagens zombando de dois de seus ícones --Shivaji, um rei medieval, e Bal Thackeray, o homem-forte nacionalista hindu de Mumbai-- foram carregados na rede social e transmitidos pelo WhatsApp. Os assassinos de Sheikh não o conheciam, mas sua barba curta deixava claro que era um muçulmano.

Em 28 de setembro de 2015, o WhatsApp foi usado para espalhar o rumor de que Mohammad Akhlaq, um ferreiro da aldeia de Bishara, em Uttar Pradesh, tinha matado uma vaca e comido a carne. Imagens de carne e partes do corpo de animais foram compartilhadas no WhatsApp, e uma multidão de vizinhos arrastou Akhlaq de sua casa e o linchou na rua. Vários casos semelhantes foram relatados durante 2016 e 2017.

Por que as minorias pobres e impotentes da Índia se tornaram alvo de ódio real e virtual? "Pequenos números representam um pequeno obstáculo entre a maioria e a totalidade ou a pureza total", escreveu o sociólogo indiano Arjun Appadurai em "Fear of Small Numbers" [Medo dos pequenos números]. "Em certo sentido, quanto menor o número e mais fraca a minoria, maior o ódio sobre sua capacidade de fazer uma maioria sentir-se uma simples maioria, em vez de uma etnia total e incontestada."

A multidão é majoritária, e tem WhatsApp.

*Alia Allana escreve na revista "Fountain Ink", de Mumbai, Índia.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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