Opinião: o único líder da oposição russa será o próximo Putin?

Oleg Kashin*

Em Moscou (Rússia)

  • Tatyana Makeyeva/ Reuters

    O líder da oposição russa Alexei Navalny durante audiência em um tribunal em Moscou

    O líder da oposição russa Alexei Navalny durante audiência em um tribunal em Moscou

No rastro dos extensos protestos de rua nas cidades russas em 12 de junho, você pode estar se perguntando o que esperar agora da oposição russa. Este é um dos raros casos em que uma previsão política pode ser garantida: não haverá notícias da oposição antes de meados de julho.

Em 12 de junho, as autoridades russas condenaram o líder da oposição, Alexei Navalny, 41, a 30 dias de prisão. Com exceção dele, não restam verdadeiros líderes de oposição na Rússia hoje.

Não era assim até pouco tempo atrás. No inverno de 2011-12, o presidente Vladimir Putin enfrentou a oposição de uma ampla coalizão política que surgiu em reação às acusações de violações generalizadas durante as eleições parlamentares. Líderes de grupos de oposição de esquerda, de direita e liberais se reuniram em torno de uma única mesa, e embora Alexei Navalny já fosse bastante popular na época era apenas um entre vários líderes igualmente poderosos. Não era sequer o mais influente deles; ao contrário de, por exemplo, Boris Nemtsov, Garry Kasparov ou Mikhail Kasyanov, Navalny não tinha um partido próprio, não havia ganhado uma eleição e não tinha experiência no governo.

Hoje, só Navalny persiste como líder. Ele se tornou a única face da oposição. Mas é realmente o opositor ao presidente Putin que parece ser?

Navalny havia sido um ativista no partido liberal Yabloko, mas foi expulso em 2007 por prejudicar a marca do partido com seu envolvimento em causas xenofóbicas e nacionalistas. (Certa vez ele chamou os georgianos de roedores.) Durante algum tempo depois disso, ele experimentou diferentes formas de protesto, buscando um tema que o distinguisse como um ativista de oposição. Este veio a ser a corrupção nos círculos oficiais russos; seu diploma de advogado e seu popular blog o tornaram um político superstar na internet.

Depois dos protestos de 2012, as forças liberais oscilavam e perdiam impulso; cada vez menos gente ia aos comícios e manifestações em Moscou, e os liberais não conquistaram assentos nas eleições locais. A oposição liberal, depois de sofrer diversas crises e cismas, retornou a sua posição mais fraca e nada restou das antigas alianças: Nemtsov foi assassinado, Kasparov deixou a Rússia e o partido de Kasyanov teve mau resultado na eleição parlamentar de 2016 e ele sumiu de cena.

Restou Navalny, que retomou sua campanha anticorrupção. No final de 2015, ele acusou o procurador-geral Yuri Chaika de corrupção, e em março um filme sobre os negócios e propriedades secretos do primeiro-ministro Dmitri Medvedev apareceram no canal de Navalny no Youtube. Depois do filme, ele ameaçou levar milhares de manifestantes às ruas para provocar a renúncia de Medvedev. Quando este declarou que não faria comentários em resposta às acusações, os seguidores de Navalny protestaram --primeiro em 26 de março, depois em 12 de junho. Os protestos foram os maiores dos últimos anos, e nas duas ocasiões a polícia usou força máxima para dispersá-los.

Isso se parece muito com os protestos de cinco anos atrás, com a principal diferença de que as pessoas que foram às ruas agora não representam diversas forças políticas. São exclusivamente apoiadores de Navalny. Em cinco anos ele se tornou não apenas o mais popular, como o mais atuante líder de oposição. Ele não precisa de partidos ou coalizões. Suas centenas de milhares de seguidores online são suficientes.

Pela primeira vez em seus 17 anos no poder, Putin tem um opositor principal --um líder de oposição dominante que, na verdade, se parece muito com Putin. Como o presidente, Navalny não pode ser identificado como de esquerda ou de direita. Suas declarações ideológicas são vagas e contraditórias. Mesmo em perguntas simples --por exemplo, a situação política na península da Crimeia--, Navalny tenta responder em termos gerais.

No trabalho com seus seguidores, Navalny adota um estilo de liderança autoritário. Seus associados mais próximos vêm da equipe contratada de sua Fundação Anticorrupção, pessoas a quem ele paga salário e para as quais sempre será um patrão, não um parceiro. (Muito parecido com Putin.) Também como o presidente, que tenta conscientemente fazer que as pessoas o identifiquem com a própria Rússia --o presidente do Parlamento disse certa vez: "Se há Putin, há Rússia; se não há Putin, não há Rússia"--, muitos seguidores de Navalny são seus fãs pessoais, que equacionam seu nome com a esperança de uma futura Rússia democrática.

Alguns críticos de Navalny o acusam de trabalhar para o Kremlin. Isso provavelmente não é um fato. Mas ele pode muito bem estar inadvertidamente servindo aos interesses de Putin.

Em 2013, Navalny foi imediatamente libertado um dia após ser condenado a cinco anos de prisão para que pudesse participar da eleição para prefeito de Moscou. Como ele não conseguiu assinaturas suficientes para se registrar como candidato, o partido de Putin lhe forneceu essas assinaturas. Navalny declarou sua intenção de participar da eleição presidencial na próxima primavera, e apesar de a lei não permitir sua candidatura por ter uma condenação criminal, como afirmou recentemente a Comissão Eleitoral Central, a possibilidade não pode ser excluída. Na Rússia, tais decisões não são tomadas com base na lei, mas de acordo com as necessidades do Kremlin.

Se Putin disputar, terá de demonstrar que é uma eleição de verdade, e que ele é capaz de derrotar não apenas opositores fictícios escolhidos por ele mesmo, mas também um verdadeiro líder de oposição.

Putin e Navalny não podem viver sem o outro, e seu confronto de certa forma evolui para um estado de codependência, cujo resultado óbvio é a duplicação do modelo de liderança de Putin na oposição anti-Putin. O presidente pode ser criticado por destruir as instituições democráticas da Rússia, ao concentrar todo o governo em torno de si próprio e paralisar a sociedade civil; por essa lógica, a alternativa a Putin seria a democracia.

Mas também há outra lógica em ação: Putin é simplesmente um mau líder autoritário, ineficaz na prática de seu poder ilimitado, e se Navalny o substituísse tudo na Rússia funcionaria bem --mesmo sem democracia. Assim como no fim do século passado, quando Boris Yeltsin passou a personificar as esperanças democráticas da população russa, agora também as novas esperanças têm um nome específico: Aleksei Navalny. Isto encerra o risco de criar um novo modelo autoritário mesmo após a saída de Vladimir Putin.

*Oleg Kashin é o autor de "Fardwor, Russia! A Fantastical Tale of Life Under Putin".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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