Após um ano de Duterte, filipinos avaliam dano causado por violência do governo

Laurel Fantauzzo

Em Manila

  • Bullit Marquez/AP

    Rodrigo Duterte observa mira de arma durante apresentação de rifles chineses nas Filipinas

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No sábado de manhã, em uma ensolarada sala de eventos ao lado da Igreja Baclaran, em meio às favelas do sul da região metropolitana de Manila, dezenas de adolescentes e adultos filipinos seguravam folhas de papel na qual haviam escrito seus sonhos. "Estudar". "Ser um chef". "Encontrar um emprego permanente".

Eles se sentavam de pernas cruzadas e descalços, em grupos de três ou quatro, com seus chinelos e tênis ao lado, as solas finas de tão gastas. Eles sorriam enquanto liam suas respostas. No fundo da sala, um grupo de cerca de 20 bebês e crianças corriam e deslizavam, girando fidget spinners no chão.

De certa forma parecia uma cena de uma animada reunião comunitária de igreja, contando até com cantorias e orações. Mas, por trás do companheirismo, também havia muita dor.

Normita Baccay, uma dona-de-casa de 53 anos vestida de preto, se levantou para falar sobre seu filho de 23 anos, Djastin Lopez. Ele sofria ataques epiléticos desde que tinha quatro anos de idade, ela contou com uma voz rouca, que ficou embargada quando ela explicou que um policial havia atirado várias vezes contra Djastin no dia 18 de maio.

A polícia disse que ele era suspeito de tráfico e membro de gangue; testemunhas disseram que os policiais dispararam contra Djastin quando ele tentou fugir deles, caiu e teve uma convulsão. Baccay agarrou o microfone com as duas mãos, apoiou a testa nele e cobriu seu rosto com uma toalha branca para abafar os soluços.

A reunião estava sendo realizada um dia após o discreto aniversário de primeiro ano de Rodrigo Duterte na presidência. Em vez de grandes festividades públicas, na sexta-feira praticamente só havia internautas declarando seu apoio a ele, oferecendo hashtags de saudações online.

Eu passei a manhã de sábado junto com participantes do Rise Up for Life and for Rights, uma organização associada à igreja que dá apoio às famílias de vítimas das famigeradas políticas antidrogas do governo Duterte. Era a primeira visita de Baccay, mas o grupo tem organizado reuniões do tipo desde o começo do ano.

A Igreja de Baclaran era um conhecido lugar de refúgio para filipinos que precisavam se esconder da repressão estatal nos anos 1970, depois que o ditador Ferdinando Marcos declarou a lei marcial, e ela voltou a se tornar um santuário durante o governo de Duterte. Houve mais de 110 assassinatos ligados a drogas na vizinhança em torno da igreja desde que ele foi eleito, em maio do ano passado.

Por volta do meio-dia, o grupo faz uma pausa para almoçar, aglomerando-se em torno de mesas pretas dobráveis com bandejas de metal contendo adobo de porco avinagrado e arroz branco. Com seus pratos bem cheios, as pessoas conversavam e davam risada.

Após a refeição, sentei-me junto com Baccay. Ela me mostrou o que havia conseguido recuperar dos bolsos do short que seu filho usava quando morreu: um saquinho plástico com notas dobradas no total de aproximadamente US$5 (R$16).

"Às vezes meu filho mais novo me diz que ele não almoçou", ela conta. "Então ele me pergunta se podemos usar o dinheiro de seu irmão mais velho Djastin".

"Eu digo que não, que vou guardá-lo até morrer".

Quando deixei a sala de eventos, dei uma espiada através das portas abertas da Igreja de Baclaran. Não era hora da missa, mas os bancos estavam quase lotados. As pessoas se aglomeravam em torno de uma estátua de São José, empurrando sua base com as mãos ou lenços, na esperança de serem abençoadas.

Senti uma pontada familiar: como um povo tão devoto podia continuar apoiando uma campanha tão cruel? Embora 69% dos entrevistados em pesquisas recentes tenham dito que as execuções extrajudiciais eram um problema "um tanto grave" ou "muito grave", 78% deles disseram que estavam satisfeitos com as políticas do governo para as drogas.

Várias horas depois, a alguns quilômetros de lá, passei por um detector de metal em um shopping center de luxo e submeti minha bolsa para ser inspecionada por dois guardas armados. Enquanto caminhava pelos pisos de mármore reluzentes e tremia de frio com o ar condicionado, senti o nítido contraste de classes que marca este país, onde um imenso sofrimento coexiste com uma imensa opulência.

Eu estava a caminho de um centro de convenções para o #NextPH Social Media Day, uma reunião de palestrantes e fornecedores otimistas com um futuro para as Filipinas voltado para a internet.

Voluntários usando crachás azuis e camisetas pretas estampadas com a hashtag do evento me deram potinhos de iogurte grego e chá com leite. Alguns estandes vendiam aplicativos de viagens e informações sobre os direitos dos trabalhadores de call-centers e proteção animal, e outros produtos que supostamente mostravam como as mídias sociais ajudariam a nação.

Entrei em um auditório escuro. Sobre um palco iluminado com neon e enevoado por uma máquina de fumaça, Judy Taguiwalo, secretária da Previdência Social do governo, falava sobre a importância da compaixão. Ela não mencionou as políticas antidrogas do governo.

Em nenhum lugar do evento #NextPH havia estandes ou panfletos, ou mesmo qualquer menção sobre os homicídios ligados às drogas ou ao uso de substâncias. Perguntei a um dos organizadores, o estrategista digital Tonyo Cruz, sobre a omissão. Ele disse que era de propósito. "Seria injusto exigir que organizações que poderiam não ter esse foco se posicionassem sobre uma questão tão política", ele disse. O evento queria uma positividade do tipo TED Talks, e não uma polêmica deprimente.

Mas justamente enquanto eu pensava nisso, percebi um homem magro usando uma camiseta preta justa com duas palavras em cirílico. Pensei ter reconhecido suas primeiras letras, um "o" e um "t", e tive a sensação de que sabia o que a frase significava.

Parei o homem para perguntar. Ele se apresentou como Mickey Garcia, um chef de 33 anos de idade, e me disse que sua camiseta dizia "Oplan Tokhang", o nome da campanha antidrogas da polícia nacional.

"Por que está usando isso?", perguntei.

Garcia deu de ombros e sorriu: "É uma forma de discordar ou de concordar—dependendo de como você vê as coisas".

Ele disse que era contra as ações do governo e que a camiseta era seu jeito de expressar discordância, com cautela. "Com esse governo", ele acrescentou, "Você nunca sabe o que pode acontecer se expressar sua opinião".

*Laurel Fantauzzo é autora de "The First Impulse."

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