Opinião: Para vencer no Afeganistão, endureçam no Paquistão

Husain Haqqani*

  • Abdul Majeed/AFP

    24.jun.2017 - Soldado paquistanês participa de operação nos arredores de Peshawar

    24.jun.2017 - Soldado paquistanês participa de operação nos arredores de Peshawar

Incentivos americanos não dissuadiram o Paquistão de apoiar o Taleban. O presidente Donald Trump deve considerar uma abordagem mais dura

A revisão pelo presidente Donald Trump da política americana no Afeganistão deveria envolver uma abordagem mais dura ao Paquistão. Embora o Taleban supostamente controle ou dispute 40% do território do Afeganistão, seus líderes operam na segurança do Paquistão. Os incentivos dos EUA desde os atentados de 11 de setembro de 2001 não conseguiram dissuadir o Paquistão de apoiar o Taleban, e agora Trump deve considerar alternativas.

Compreender corretamente o Paquistão nem sempre foi fácil para as autoridades americanas. O Paquistão foi um aliado chave dos EUA durante a Guerra Fria, a jihad antissoviética no Afeganistão e as operações pós-11 de Setembro contra a Al Qaeda.

Mas para o Paquistão a aliança foi mais uma questão de obter armas, ajuda econômica e apoio diplomático em seu confronto com a Índia. Os EUA e o Paquistão se decepcionaram mutuamente por causa de interesses divergentes no sul da Ásia.

O governo George W. Bush errou ao ignorar o reagrupamento do Taleban no Paquistão depois de sua derrota no Afeganistão em seguida ao 11 de Setembro, porque Washington considerou a cooperação do Paquistão na captura de algumas figuras da Al Qaeda uma prova suficiente de sua aliança.

A administração do presidente Barack Obama tentou lidar com a ressurgência Taleban aumentando o número de tropas durante um período específico. Obama mobilizou drones armados para atacar alvos Taleban no Paquistão, mas isso não foi suficiente para tratar com as lideranças nas cidades paquistanesas de Quetta e Peshawar.

O general Pervez Musharraf, ex-ditador militar do Paquistão, havia autorizado secretamente os ataques de drones, e alguns teleguiados foram operados de bases no Paquistão --uma política que continuou sob seus sucessores civis. Sob seu regime, o Paquistão audaciosamente negou qualquer relação com o Taleban afegão ou seu componente mais sinistro, a rede Haqqani.

Mas os EUA apresentaram evidências de ligações do Paquistão com militantes afegãos justamente quando o Paquistão transitava do regime militar para o civil, em 2008. Como embaixador do Paquistão nos EUA do novo governo civil, pedi que os líderes civis e militares paquistaneses tratassem com os americanos honestamente, em vez de insistir nas negações generalizadas.

A resposta de Islamabad foi afirmar que o Paquistão realmente apoia os insurgentes no Afeganistão, mas o faz por preocupações de segurança sobre a Índia, que é considerada pelos generais e muitos líderes civis uma ameaça existencial ao Paquistão.

Mas essa desculpa se baseia em exageros e mentiras. A Índia não tem presença militar ofensiva no Afeganistão, e nunca houve qualquer evidência de que os afegãos pretendam participar do suposto plano indiano de uma guerra em duas frentes com o Paquistão.

O presidente afegão, Ashraf Ghani, recentemente pediu que a Índia treinasse oficiais militares afegãos e reparasse aeronaves militares depois da frustração com o Paquistão, que deixou de cumprir promessas de conter o Taleban e obrigá-lo a ir à mesa de negociação.

Os líderes paquistaneses questionam a aceitação pelo Afeganistão da ajuda econômica da Índia, apesar de o próprio Paquistão não ter a capacidade de oferecer tal ajuda.

Parece que o Paquistão quer manter vivos temores imaginários, possivelmente para conservar a ascendência militar em um país que foi governado por generais durante quase toda a sua existência.

Há anos as autoridades paquistanesas afirmam falsamente que a Índia montou 24 consulados no Afeganistão, alguns próximos da fronteira paquistanesa. Na verdade, a Índia só tem quatro consulados no Afeganistão, o mesmo número que o Paquistão.

Mentir sobre fatos facilmente verificáveis costuma ser uma tática de governos que fabricam uma ameaça, e não daqueles que realmente enfrentam uma. Como embaixador, participei de reuniões trilaterais em que meus colegas rejeitaram sugestões sérias dos afegãos e dos americanos para atenuar as apreensões sobre a influência indiana no Afeganistão.

As evidências de uma ameaça indiana ao Paquistão por meio do Afeganistão continuam escassas, mas a prova da presença de líderes afegãos do Taleban  no Paquistão continua crescendo.

O mulá Omar, líder do Taleban, supostamente morreu em um hospital do Paquistão em 2013, e seu sucessor, mulá Akhtar Mansour, foi morto em um ataque de drone americano na província paquistanesa do Baluchistão no ano passado.

Os EUA não devem deixar o Paquistão ligar seu antigo apoio aos islâmicos pashtun do Afeganistão a suas disputas com a Índia.

Tanto a Índia como o Paquistão têm muito sangue nas mãos na Cachemira e parecem não ter pressa de resolver sua desavença, que tem origem na psicose resultante da amarga divisão do subcontinente. Os dois países passaram por 45 rodadas de negociações em nível de cúpula desde 1947 e não conseguiram chegar a um acordo permanente.

Ligar o resultado no Afeganistão à solução de problemas entre Índia e Paquistão manteria os EUA emaranhados lá por muito tempo. A recente ascensão da islamofobia na Índia e a posição mais agressiva do primeiro-ministro Narendra Modi contra o Paquistão não devem impedir de reconhecer a natureza paranoica dos temores paquistaneses.

O governo Bush deu ao Paquistão US$ 12,4 bilhões em ajuda e o governo Obama, mais US$ 21 bilhões. Esses incentivos não tornaram o Paquistão mais disposto a cortar a ajuda ao Taleban afegão.

O governo Trump deve considerar agora retirar a posição do Paquistão de importante aliado não-membro da Otan, o que limitaria seu acesso prioritário à tecnologia militar americana. A ajuda ao Paquistão deveria ser ligada a uma sequência e um cronograma de ações específicas contra os líderes Taleban.

Aplicar sanções contra indivíduos e instituições envolvidas na ajuda aos líderes Taleban sediados no Paquistão e prosseguir nas conversas de reconciliação com o Taleban sem contar com o Paquistão poderiam ser outras medidas indicativas de uma posição mais firme dos EUA.

Afastar-se de uma abordagem baseada em incentivos não seria punir o Paquistão. Os EUA estariam agindo como um amigo, ajudando o Paquistão a perceber por meio de medidas duras que a ameaça mais grave a seu futuro vem do extremismo religioso que ele promove em seu esforço para competir com a Índia.

Negociar um acordo de paz com o Taleban também continua desejável, mas é importante lembrar as dificuldades que os negociadores do século 21 enfrentam quando buscam um compromisso com mentalidades do século 7º.

*Husain Haqqani é diretor para Ásia central e meridional no Hudson Institute em Washington e foi embaixador do Paquistão nos EUA de 2008 a 2011
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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