De estilos diferentes, Macron e Trump exaltam seus poderes presidenciais

Sylvie Kauffmann*

Em Paris (França)

  • Foto: YVES HERMAN / POOL / AFP

Quando o presidente Donald Trump chegou para assumir seu assento em um concerto de Beethoven no Elbphilharmonie em Hamburgo, Alemanha, na primeira noite da cúpula do G-20 na semana passada, surgiram aplausos. O americano sorriu, presumindo que eram para ele. Foi um pouco de presunção. A ovação, como interpretada pela mídia alemã, era destinada ao jovem sentado ao lado dele.

Trump teve sua cota de glória popular em Varsóvia no dia anterior, mas na Europa Ocidental, o astro é Emmanuel Macron, o novato de 39 anos cuja eleição para presidente da França virou a mesa na política democrática da mesma forma que a eleição de Trump, meio ano antes, porém de uma forma totalmente diferente. 

A visita de Trump a Paris é o quarto encontro entre os dois líderes em menos de dois meses. Mas o relacionamento entre eles ainda é uma obra em progresso. Como novos animais soltos em um cercado, eles estão estudando um ao outro.

O estudo da linguagem corporal entre os dois homens nos recentes encontros em Bruxelas, Hamburgo e Taormina, Itália, mostra uma rivalidade em ascensão, com o líder mais jovem e carismático de poder médio em uma postura divertida "Veja, estou aqui" em relação ao presidente mais velho, mal visto, da superpotência aliada.

Há histórias de machos alfa concorrentes, apertos de mão levemente ridículos e tapinhas ostentosos nas costas. E houve o convite ousado, do presidente francês a um líder americano que não é bem-vindo nem mesmo em Londres, de ficar ao lado dele na parada militar do Dia da Bastilha. Em maio, Macron recebeu e repreendeu Vladimir Putin em Versalhes. Em julho, ele deseja Trump na Champs-Élysées. 

O gosto de Macron por Versalhes evoca inevitavelmente referências a Luís 14, o Rei Sol. Comentaristas mais sérios compararam o presidente a Napoleão Bonaparte e Charles de Gaulle, ambos bem-sucedidos em reformar a França como novatos na política, e até mesmo a Maquiavel.

Macron escolheu como seu modelo ninguém menos que Júpiter, o rei dos deuses. Em uma entrevista à revista semanal francesa "Challenges" em outubro, ele criticou o presidente François Hollande por "não acreditar em uma presidência jupiteriana". "Pessoalmente, não acredito em uma presidência normal", ele disse em uma alfinetada em Hollande, que disse em campanha cinco anos antes que queria ser um "presidente normal".

Diferente de Trump, Macron é um estudante cuidadoso da história; ele está convencido de que a forma como os franceses olham a presidência está "ligada ao trauma monárquico", a derrubada e decapitação de Luís 16 durante a Revolução Francesa. "Não estou dizendo que devemos trazer de volta o rei", ele disse de forma tranquilizadora à "Challenges". Mas ele defende uma "nova forma de autoridade democrática", baseada em significado, símbolos e um senso de história. 

'Prodígio' Emmanuel Macron é o novo presidente da França

O modelo "jupiteriano" inspirou nova pompa no exercício do poder no Palácio do Eliseu; sem dúvida Trump terá um gosto disso no Dia da Bastilha. 

Na frente doméstica, ambos os homens veem a si mesmos como líderes transgressores em um momento de insurreição popular contra as elites política, econômica e da mídia. Eles disputaram a eleição prometendo derrubar o sistema político tradicional de seus países. Nenhum deles exerceu um cargo eletivo antes de se tornarem presidentes e cada um tomou posse como chefe de um Executivo poderoso, beneficiando-se de um sistema presidencial forte, diferente dos da maioria dos países europeus.

E ambos têm um problema com a mídia tradicional. A determinação de exercer um melhor controle sobre a comunicação do governo, que na França já causou tensões com a mídia, provavelmente é um dos poucos paralelos que podem ser traçados entre os dois presidentes.

Macron não ataca a mídia como "falsa" e evita cuidadosamente críticas pessoais a jornalistas, mas claramente não confia neles para transmitir sua mensagem de forma fiel. Visando estabelecer seus próprios canais de comunicação, ele rompeu com a entrevista tradicional do Dia da Bastilha porque, segundo uma fonte não citada do Eliseu disse ao jornal "Le Monde" em um comentário muito ridicularizado, "a forma complexa de pensar do presidente não é adequada para o jogo de perguntas e respostas com jornalistas". Visando dirigir-se diretamente a seus eleitores, Trump tuita. Macron prefere longos discursos, de preferência em cenários dramáticos. 

Ser jupiteriano também implica manter o governo sob uma rédea muito mais firme. É aí onde provavelmente o paralelo com o governo Trump acaba. Tendo estudado da École Nationale d'Administration de elite e aprendido com os erros de Hollande enquanto integrava a equipe dele no Eliseu, Macron não tolera indisciplina. O gabinete é mantido sob rédea curta. Neste governo, você não ouvirá o ministro das Relações Exteriores ou seu colega da Defesa defenderem posições diferentes a respeito do Qatar ou da Ucrânia. 

Para que estes dois presidentes usam seu poder disruptivo? Por trás da teatralidade, essa é uma pergunta fundamental. Aqui há duas visões de mundo diferentes. 

Os líderes europeus leram cuidadosamente o artigo de opinião de 30 de maio no "The Wall Street Journal", no qual H.R. McMaster, o conselheiro de segurança nacional de Trump, e Gary D. Cohn, o conselheiro econômico chefe do presidente, descreveram o mundo não como uma "comunidade global, mas uma arena na qual nações, agentes não governamentais e empresas se engajam e competem por vantagem".

Para os europeus, isso resume a visão de mundo do governo Trump, uma visão a qual se opõe vigorosamente. Eles ainda acreditam em uma comunidade global regulada por regras concordadas multilateralmente. 

"Nosso mundo nunca esteve tão dividido", disse Macron à imprensa na cúpula do G-20 na semana passada, no que foi visto como uma crítica à posição americana. "As forças centrífugas nunca foram tão poderosas. (...) Precisamos de uma melhor coordenação, de mais coordenação. Precisamos das organizações que foram criadas em consequência da Segunda Guerra Mundial. Caso contrário, retrocederemos ao nacionalismo de mentalidade estreita." 

A ode de Trump ao "Ocidente" em seu discurso de 6 de julho em Varsóvia não impressionou os líderes europeus. Ele fracassou especialmente em mencionar o papel da Polônia nas revoluções democráticas de 1989 por todo o Leste Europeu, cujos ideais, para grande parte deste continente, são um componente essencial da definição de "o Ocidente".

Trump e Macron na verdade têm visões muitos diferentes a respeito da atual liderança nacionalista, anti-imigrantes, da Polônia. Eles têm visões muito diferentes do significado fundamental da construção europeia, que esteve no coração da campanha de Macron. Eles divergem na avaliação da liderança de Putin na Rússia, e têm posições diametralmente opostas na luta contra o aquecimento global. 

Em Hamburgo, o presidente americano não voltou atrás de sua decisão de se retirar do Acordo de Paris para mudança climática e nem mesmo se deu ao trabalho de acompanhar mais de 20 minutos da discussão. O presidente francês decidiu organizar uma nova cúpula do clima em Paris em dezembro, mantendo firmemente o curso.

No comércio, eles podem estar menos distantes, enquanto Macron desenvolve sua estratégia de "uma Europa que protege". A intenção é tornar a globalização menos ameaçadora aos eleitores franceses, já que o líder francês, que poderá ter que caminhar uma linha tênue entre proteção e protecionismo, não é do tipo dado a atacar o livre comércio. 

Há pelo menos uma questão em que o jovem líder francês não pode tratar sem seu par americano: o combate ao terrorismo. Os militares americanos e franceses têm trabalhado bem juntos. Isso é tão crucial para a França que Macron está preparado para receber calorosamente, no primeiro aniversário do ataque em Nice que matou 86 civis, o líder americano populista que outras capitais europeias evitam. 

Afinal, um presidente jupiteriano pode ser superior à ocasião. 

*(Sylvie Kauffmann é diretora editorial e ex-editora-chefe do jornal "Le Monde".)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos