Opinião: nos bastidores, Israel está encontrando parceiros em todo o Oriente Médio

Neri Zilber*

Em Tel Aviv

  • Thomas Coex/ AFP

    7.jul.2017 - Estrangeiros cristãos caminham ao longo do muro que separa Jerusalém e a Cisjordânia

    7.jul.2017 - Estrangeiros cristãos caminham ao longo do muro que separa Jerusalém e a Cisjordânia

Autoridades americanas e israelenses parecem convencidas de que um acordo de paz regional entre Israel e o mundo árabe pode estar próximo. Na viagem que fez recentemente ao Oriente Médio, o presidente Donald Trump disse que um ""novo nível de parceria é possível e acontecerá --trazendo maior segurança para esta região, maior segurança para os Estados Unidos e maior prosperidade para o mundo". O maior obstáculo continua sendo o conflito entre Israel e Palestina, uma questão delicada que ainda carrega um peso estratégico nas capitais árabes. Mas o presidente não está completamente errado. Ultimamente Israel tem se visto profundamente envolvido nas guerras árabes em todo o Oriente Médio, muitas vezes longe das manchetes.

A manifestação mais clara daquilo que é frequentemente chamado de "o novo Oriente Médio" pode ser encontrada na Síria. Ficou famoso o episódio em que o próprio Trump aludiu à influência estratégica de Israel quando ele contou a diplomatas russos em visita sobre informações obtidas por operações secretas da inteligência israelense contra o Estado Islâmico. De acordo com relatos posteriores, a inteligência militar israelense hackeou as redes de computadores de fabricantes de bombas do Estado Islâmico na Síria. Algumas semanas depois, o jornal israelense "Haaretz" noticiou que Israel estava intensificando sua cooperação em segurança e inteligência com a Jordânia no sul da Síria para impedir conquistas iranianas na região.

A cooperação entre Israel e Jordânia em si não era novidade. Israel enviou helicópteros de ataque Cobra para a Jordânia em 2015. E o governo israelense tem uma política desde 1970 de apoiar a estabilidade da Jordânia. No entanto, existe uma grande operação de coalizão liderada pelos Estados Unidos sendo conduzida a partir da Jordânia para apoiar os diversos grupos rebeldes sírios. Uma questão que está em aberto é se, ou mais provavelmente como, Israel está envolvido agora.

Só não restam mais dúvidas sobre o papel que Israel tem em sua própria região fronteiriça com a Síria. Como deixaram claro relatórios recentes, Israel tem trabalhado pelo menos desde o ano passado para criar uma "zona tampão" amistosa do outro lado das Colinas de Golã. Uma unidade militar israelense dedicada atua como intermediária para a entrada de ajuda civil e itens alimentares básicos, e a saída de sírios feridos, inclusive combatentes rebeldes, para hospitais israelenses. O "The Wall Street Journal" noticiou em junho que comandantes rebeldes chegavam a afirmar que recebiam dinheiro de Israel, usado para pagar salários e comprar armas e munição. Essa política de Boa Vizinhança, como é conhecida em Israel, tem o intuito de persuadir a população síria local a rejeitar pedidos do Irã e do Hezbollah.

A partir de sua fronteira ao sul, Israel ajudou o Egito em sua prolongada campanha de contrainsurgência contra a Província do Sinai, o braço local do Estado Islâmico. Aqui as autoridades israelenses também estão cautelosas ao falar abertamente sobre cooperação --e a mídia local, em casos similares, muitas vezes é proibida de noticiar o que eles já sabem. A coordenação militar de alto nível e o compartilhamento de informações são certos. No entanto, de acordo com um ex-oficial sênior israelense citado pelo Bloomberg News, ao longo dos últimos anos drones israelenses atacaram diretamente militantes na Península do Sinai-- com consentimento do Egito.

Dentre o que nos afeta mais de perto, há ligações muito próximas de segurança entre Israel e a Autoridade Palestina. Com apoio dos Estados Unidos, essa coordenação evoluiu para um pilar da relação entre Israel e Palestina e talvez a faceta mais bem-sucedida de todo o processo de paz. Diariamente autoridades israelenses e palestinas discutem ameaças compartilhadas "à estabilidade da situação de segurança de ambos os lados", como uma vez me contou um oficial de segurança palestino. No topo da lista está o militante Hamas --uma ameaça terrorista clara para Israel, mas também uma grande ameaça interna para a Autoridade Palestina. De fato, a inteligência israelense frustrou um plano de assassinato do Hamas em 2014 contra o presidente Mahmoud Abbas.

Israel tem acordos diplomáticos e de paz com o Egito, a Jordânia e a Autoridade Palestina, então ligações militares com eles podem não ser uma completa surpresa. Contudo, menos conhecida é a relação cada vez mais próxima com os Estados Árabes do Golfo, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Tais ligações muitas vezes são mencionadas só de forma oblíqua por ministros do governo israelense como "interesses compartilhados" nos domínios da segurança e da inteligência contra a ameaça iraniana comum.

No entanto, nos últimos anos, surgiram relatos sobre reuniões clandestinas entre diretores da inteligência israelense e seus correspondentes do Golfo. Meir Dagan, o ex-diretor do Mossad, supostamente viajou para a Arábia Saudita em 2010 para conversas secretas sobre o programa nuclear do Irã. Encontros públicos com oficiais sauditas aposentados hoje são comuns, seja em Washington, em Munique ou mesmo em Jerusalém. As ligações comerciais também estão crescendo, inclusive a venda de produção agrícola israelense, mas também de tecnologia de informática, inteligência e segurança interna para o Golfo (geralmente através de terceiros.).

Consideradas como um todo, as atividades israelenses na Síria, na Jordânia, na Cisjordânia, no Egito e no Golfo não podem mais ser vistas isoladas umas das outras. Na verdade Israel está agora envolvido nas campanhas militares do mundo árabe --tanto contra o Irã e seus intermediários, quanto contra o Estado Islâmico. Ainda não se sabe se esse é meramente um casamento temporário de conveniência contra inimigos comuns ou o início de um realinhamento estratégico duradouro.

De qualquer forma, ele provavelmente durará algum tempo. As guerras da região não mostram sinais de que diminuirão tão cedo. No mínimo, Israel não é mais visto como o problema central que aflige o Oriente Médio. Por esse motivo, Trump instou os Estados árabes a "reconhecerem o papel vital do Estado de Israel" nas questões da região. Sem uma movimentação significativa na frente palestina, esse novo papel de Israel provavelmente não trará uma normalização completa e pública das relações ou um fim para o conflito na região. Mas ele pode ajudar a vencer as guerras atuais, e com isso trazer uma paz aparente para o Oriente Médio.

*Neri Zilber (@NeriZilber) é um jornalista baseado em Tel Aviv e pesquisador visitante no Washington Institute for Near East Policy.

Tradutor: UOL

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