Opinião: consentimento é problema para uso de robôs sexuais

Laura Bates*

Em Londres

  • Behrouz Mehri/ AFP

    Homem acaricia sua boneca sexual

    Homem acaricia sua boneca sexual

Farrah Frígida. Esse é o nome do robô sexual que você pode estuprar por somente US$ 9.995 (cerca de  R$32 mil). Ou melhor, esse é o nome da "personalidade" com a qual configuraria seu robô Roxxxy TrueCompanion se não quisesse que ela se mostrasse muito "receptiva" quando você "a tocasse em uma parte íntima", de acordo com o site da empresa.

Os robôs sexuais estão chegando, alerta um novo relatório da Fundação por uma Robótica Responsável. De fato, já há muitos deles disponíveis para serem enviados ao mundo inteiro.

Essa não é uma questão de nicho. Um estudo de 2016 feito pela Universidade de Duisburg-Essen na Alemanha revelou que mais de 40% dos 263 homens heterossexuais entrevistados disseram que conseguiam se imaginar usando um robô sexual. Uma empresa da Califórnia, a Abyss Creations, já envia até 600 bonecas sexuais hiper-realistas por ano para clientes do mundo inteiro.Farrah

Frígida não é a única a fornecer a seu usuário uma réplica de uma parceira humana sem a incômoda complicação do consentimento. De acordo com o site da Lumi Dolls, a empresa que operou um bordel temporário de bonecas sexuais em Barcelona no começo deste ano, as bonecas permitem que o usuário "estabeleça os limites e ela permitirá se deixar levar --ela é a parceira submissa perfeita".

Um dos autores do relatório da Fundação por uma Robótica Responsável, Noel Sharkey, um professor de inteligência artificial e robótica na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, disse que existem argumentos éticos dentro do campo sobre robôs sexuais com configurações de "frigidez".

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"A ideia é que robôs resistam às suas investidas sexuais de forma que você possa estuprá-los", disse Sharkey. "Algumas pessoas dizem que é melhor que eles estuprem robôs em vez de pessoas reais. Outras pessoas dizem que isso só incentivaria mais os estupradores".

Assim como o argumento de que vagões exclusivos para mulheres são uma resposta para o assédio e as agressões sexuais, a ideia de que robôs sexuais poderiam reduzir os estupros tem um sério problema. Ela sugere que a violência masculina contra as mulheres é inata e inevitável, e só pode ser mitigada, não prevenida. Isso não só é um insulto para a grande maioria dos homens, como também transfere totalmente a responsabilidade de se lidar com esses crimes para suas vítimas --mulheres e a sociedade em geral-- ao mesmo tempo em que cria impunidade para os perpetradores.

O estupro não é um ato de paixão sexual. É um crime violento. Não deveríamos incentivar estupradores a encontrarem uma válvula de escape supostamente segura para ele, da mesma forma que não deveríamos ajudar assassinos dando-lhes bonecos realistas que jorrem sangue quando esfaqueados. Já que essa sugestão soa ridícula, por que a ideia de fornecer vítimas robóticas realistas para agressores sexuais parece aceitável para algumas pessoas?

Porque vivemos em uma sociedade que ainda não consegue ver a violência sexual como o crime que ela é.

Disponibilizar uma solução como essa é correr o risco de normalizar o estupro dando-lhe uma roupagem publicamente aceitável. Pesquisas já mostraram que homens heterossexuais que são expostos a pornografia, revistas voltadas para o público masculino e reality shows que objetificam mulheres têm uma maior probabilidade de aceitarem violência contra mulheres. Em um mundo no qual você pode dormir com uma prostituta e depois matá-la no videogame Grand Theft Auto, robôs sexuais são formas de satisfazer desejos misóginos.

Embora tenham surgido protestos para que robôs sexuais com aparência infantil sejam proibidos no Reino Unido, ninguém parece estar defendendo uma política similar para suas versões femininas adultas. Parece simples assim: é ilegal fazer sexo com uma criança, mas não com uma mulher adulta, afinal. Mas também é ilegal fazer sexo com uma mulher adulta que não consinta, e consentimento é algo de que esses robôs não são capazes.

O argumento usado é que isso não importa, porque essas não são mulheres, mas sim objetos animatrônicos, de forma que o consentimento não é necessário. O mesmo raciocínio é usado para minimizar temores de que tais robôs possam influenciar atitudes da sociedade em relação às mulheres. "Ela não é alguém. Ela é uma máquina", seus criadores se apressam a responder quando são levantadas questões de ambiguidade moral. "Seria eticamente questionável forçar minha torradeira a fazer minha torrada?"

"Se as mulheres podem ter um vibrador", pergunta tranquilamente o site da TrueCompanion, "por que os homens não podem ter uma Roxxxy? Ter um robô sexual é só mais um 'acessório' que permite que tanto mulheres quanto homens realizem seus sonhos".

Isso é hipocrisia, quando o objetivo deliberado dos fabricantes de robôs é replicar mulheres de verdade da forma mais realista possível. Não são torradeiras. "Ela tem detalhes tão realistas", se empolga a Lumi Dolls a respeito de seu modelo Lily, "que às vezes você mal consegue distingui-la de uma mulher de verdade".

Sim, acessórios sexuais existem há muito tempo, mas os robôs sexuais colocam as mulheres na posição de brinquedos, mulheres como objetos para os homens brincarem. Ao fazerem esses robôs da forma mais realista possível --desde modelos que se auto-aquecem até aqueles que falam e chupam, passando por outros que têm batida do coração e outros ainda que flertam com seus donos-- seus criadores estão vendendo muito mais do que um acessório sexual inanimado. Eles estão de fato reproduzindo mulheres de verdade, que têm tudo menos autonomia.

Alguns exemplos parecem explicitamente elaborados para imitar cenários nos quais mulheres da vida real tenham menos probabilidade de dar consentimento. Quer fazer sexo com uma colegial, ou uma mulher vestida para o ambiente de trabalho ou a academia? Existe uma boneca realista para tudo isso.

Descrições ambíguas como "africana" e "asiática magrinha" convivem lado a lado com personalidades como "submissa" e "baladeira", usando estereótipos racistas sexualizados. Uma boneca vestida como gueixa serve bebidas quando você aperta seu seio direito.

A produção dessas bonecas e robôs, a grande maioria delas do sexo feminino, não pode ser desassociada da gritante desigualdade de gênero do mundo no qual elas são produzidas. Não é coincidência a estimativa da RealDoll de que menos de 5% de seus clientes são mulheres. A questão não é se um robô sexual, como conceito abstrato, pode ser útil ou prejudicial, mas sim o impacto de se disponibilizar tais robôs em uma sociedade que já subjuga, discrimina e abusa física e sexualmente de mulheres.

Já há sinais do papel que tais produtos poderiam ter no contexto mais amplo da violação e do assédio contra as mulheres. No ano passado, um designer de Hong Kong virou notícia ao criar uma versão robótica da atriz Scarlett Johansson sem sua permissão. A RealDoll explica em seu site que é ilegal criar réplicas exatas de mulheres sem seu consentimento, mas acrescenta: "Contudo, podemos usar fotos de uma pessoa de sua escolha para selecionar uma estrutura facial o mais similar possível de nossa linha de 16 rostos femininos". O site exalta que fez isso "com bastante sucesso no passado". Isso é algo significativo, considerando que se estima que 15% das mulheres americanas já tenham sido vítimas de stalking (perseguição).

"Existe um direito humano básico de que todos têm direito a uma vida sexual", diz Sharkey. Mas será que o direito humano básico a uma vida sexual é o mesmo que um direito universal a uma mulher jovem e atraente? Porque é nisso que está sendo subvertido aqui.

Existe uma grande diferença entre o direito à dignidade e à privacidade, o direito à atividade sexual consensual e a ideia de que todos os homens têm algum direito fundamental ao corpo de uma mulher. Ao replicar mulheres da forma mais realista possível, é isso que tais robôs estão tentando oferecer --em cada mínimo detalhe, exceto pela inoportuna necessidade do consentimento de uma mulher de verdade.

*Laura Bates, fundadora do Everyday Sexism Project, é autora de "Girl Up", ONG de empoderamento de mulheres

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Tradutor: UOL

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