Opinião: Rússia aumenta influência no Oriente Médio graças a erros de Trump

Vali R. Nasr*

Em Washington

  • Carlos Barria/ Reuters

    7.jul.2017 - O presidente russo Vladimir Putin (esq.) e o presidente americano Donald Trump se cumprimentam durante encontro na cúpula do G20, em Hamburgo, Alemanha

    7.jul.2017 - O presidente russo Vladimir Putin (esq.) e o presidente americano Donald Trump se cumprimentam durante encontro na cúpula do G20, em Hamburgo, Alemanha

Ao longo dos dois últimos meses, enquanto forças treinadas por americanos expulsavam insurgentes do Estado Islâmico de Mossul, uma das maiores cidades do Iraque, a guerra na vizinha Síria se encaminhava para uma direção perigosa, mas pouco notada, que seria muito mais favorável às ambições da Rússia de reconquistar uma posição de ampla influência no Oriente Médio.

Primeiro, uma enorme gafe cometida pelo presidente Donald Trump ajudou a Arábia Saudita a dividir uma aliança muçulmana sunita que deveria combater o Estado Islâmico --tanto que o Qatar e a Turquia se aproximaram mais e se abriram para uma cooperação com o Irã e a Rússia. Depois, quando Trump conversou com o presidente Vladimir Putin da Rússia na Alemanha, o presidente americano praticamente entregou as chaves da região a seu adversário ao concordar com um cessar-fogo na Síria que pressupunha uma duradoura presença de influência russa nesse conflito, que só consolidava a probabilidade de uma maior influência regional.

Com as pessoas mais próximas de Trump muitas vezes discordando umas das outras e o próprio presidente agindo de forma imprevisível, Putin nunca parece perder uma oportunidade de expandir a presença da Rússia na região. Isso ajudou a confundir ainda mais as antigas linhas de divisão sectária entre Estados sunitas e xiitas e a complicar a posição estratégica dos Estados Unidos.

É claro, o presidente Trump enviou seu secretário de Estado, Rex Tillerson, para a região para arrumar a bagunça. Mas entre os monarcas do Oriente Médio, uma voz subalterna não tinha chances de desfazer o estrago já causado pelos tuítes de seu chefe.

O erro mais flagrante, é claro, ocorreu quando Trump repreendeu e isolou o Qatar para agradar a Arábia Saudita, a rival do Qatar na região. A atitude de fato dividiu uma aliança sunita em dois lados, com o Qatar e a Turquia --ambas essenciais para a presença militar dos Estados Unidos na região --afastados de um eixo liderado por sauditas e americanos que incluía outros Estados do Golfo, o Egito e a Jordânia. Os líderes de um terceiro grupo com ligações com o Ocidente --Kuait, Omã e Iraque-- reagiram com preocupação.

No dia 19 de junho ficou evidente o quanto a Rússia passou a se sentir encorajada, quando ela respondeu ao abate americano de um caça sírio declarando o oeste da Síria uma zona de "exclusão aérea" para aeronaves da coalizão liderada pelos americanos. Essa questão foi rapidamente tratada, mas ela levou a um acordo na Alemanha que declarava um cessar-fogo no sudoeste da Síria, que o presidente Trump recebeu de forma simplista como um sinal de que os Estados Unidos e a Rússia poderiam trabalhar juntos.

Em vez disso, ele deveria ter perguntado por que a Rússia está tão interessada na região agora. A resposta é: pense em quanto petróleo não sai do Golfo Pérsico e dos desertos árabes para o Ocidente. Para a Rússia, só esse fato torna os países da região seus rivais ou seus parceiros, uma vez que petróleo é o único recurso plausível ao qual atrelar as esperanças de Putin de restaurar o status da Rússia como uma potência global capaz de desafiar os Estados Unidos.

Além disso, se a Rússia se tornasse uma protetora ou fornecedora de bens militares para regimes do Oriente Médio em dificuldades como os da Turquia e do Irã, ela aumentaria seu acesso para as águas abertas quentes do Mar Mediterrâneo e do Golfo Pérsico, que são críticas não só do ponto de vista militar, mas também para o fluxo de suprimentos energéticos globais.

Então, embora a guerra na Síria tenha dado a Putin uma base no Oriente Médio, seus interesses não se limitam à Síria. Ele já formou uma parceria estratégica com o Irã e, cada vez mais, um acordo em comum com a Turquia.

E o governo Trump lhe forneceu os meios de sonhar ainda mais alto --uma chance de liderar uma aliança de base ampla com países que não confiam no eixo saudita-americano. Isso inclui não somente o Qatar e a Turquia, que são sunitas, mas também o xiita Irã e seus aliados regionais, bem como um Iraque de maioria xiita e potencialmente Omã (cuja maioria pratica uma terceira forma de islamismo, o ibadismo).

Juntos, esses países poderiam exercer um poder significativo na região e em mercados globais de energia. Sua fusão também abriria a possibilidade de unir populações sunitas e xiitas em torno de um futuro para a Irmandade Muçulmana, um sobrevivente precursor da ampla variedade das formas políticas de islamismo de hoje que ainda tem força em boa parte do mundo árabe. Embora esse movimento continue sendo bastante popular na região, é execrado dentro do eixo saudita-americano.

Com perspectivas como essa, a sorte de Putin na região claramente está crescendo.

Mas como isso aconteceu? O apoio aberto de Trump à Arábia Saudita e seus aliados contra o Qatar foi interpretado como um alerta para a Turquia, o Iraque e Omã de que eles também enfrentariam ostracismo por parte dos sauditas --e dos Estados Unidos-- se os sauditas os acusassem de apoiar o extremismo ou de ficarem muito amistosos com o Irã.

De fato, o Qatar e a Turquia divergiram com Washington e Riad a respeito de como confrontar as forças do Estado Islâmico ao mesmo tempo em que ajudavam rebeldes sírios a derrubar o presidente Bashar Assad, protegido pela Rússia e pelo Irã. Apesar de terem criticado o papel do Irã no conflito até agora, o Qatar e a Turquia começaram a ver a Síria através das lentes de sua resistência ao bloco liderado pela Arábia Saudita. Isso não é um bom presságio para as esperanças de desescalada da guerra síria, mas provavelmente consolidará uma aliança liderada pelos russos.

Washington pode esperar que exista um caminho para uma rápida mediação e reconciliação. Mas o Qatar não está prestes a se render. De fato, sua reação imediata foi procurar --e conseguir-- apoio da Turquia e do Irã. O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, conseguiu com que seu Parlamento aprovasse uma lei que permite que a Turquia envie tropas para a Síria. O Irã começou a enviar alimentos por transporte aéreo e deu ao Qatar acesso a três portos iranianos para contornar o bloqueio saudita-americano.

A Rússia também interveio, logo oferecendo ajuda ao Qatar depois que seu ministro das Relações Exteriores visitou Moscou. Enquanto isso, ela continua a cortejar a Turquia para que ela coopere com o Irã na Síria.

O presidente Trump claramente agiu sem entender a complexidade da política no Oriente Médio, sem entender o quão rápido ela se mistura com políticas das grandes potências e o quão profundamente suas próprias ações podem afetá-las.

Agora ele enfrenta a difícil tarefa de evitar que Putin afaste a Turquia de seus aliados na Otan, à medida que a Rússia vai expandindo sua influência no Oriente Médio. Ele não conseguirá isso escalando o conflito na Síria e apoiando a Arábia Saudita contra o Qatar. Na verdade, os Estados Unidos devem encerrar rapidamente a briga entre sunitas evitando escolher um dos lados e voltando para seu papel tradicional de um mediador imparcial entre seus aliados. Enquanto isso, o governo Trump reconheceria que os Estados Unidos necessitam que todas as potências da região cooperem se quiser resistir à Rússia ao mesmo tempo em que subjuga o Estado Islâmico e acaba com os devastadores conflitos na Síria e no Iraque.

Isso resulta em uma tarefa desafiadora, que é dificultada ainda mais por atitudes impensadas baseadas em impulsos, e não em conselhos sensatos e considerações aprofundadas.

*Vali R. Nasr, reitor da Johns Hopkins School of Advanced International Studies, é autor de "The Shia Revival: How Conflicts Within Islam Will Shape the Future" ("O renascimento xiita: como os conflitos dentro do islamismo determinarão o futuro")

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos