Empregadas e babás imigrantes se radicalizam e aderem ao jihadismo no Leste Asiático

Nava Nuraniyah*

Em Jacarta (Indonésia)

  • Dita Alangkara/AP

    Garotas muçulmanas estudam o Alcorão em mesquita de Jacarta, Indonésia.

    Garotas muçulmanas estudam o Alcorão em mesquita de Jacarta, Indonésia.

Ayu é uma empregada doméstica indonésia de 34 anos, e chefe de uma rede pró-Estado Islâmico em Hong Kong. Ela recruta, levanta fundos e dissemina propaganda para o grupo. Ela é apenas uma dentre dezenas de empregadas domésticas indonésias no Leste Asiático conhecidas por endossar o jihad (guerra santa).

Ayu (estou usando um pseudônimo, porque ela teme ter problemas com a polícia) engravidou cedo, fugiu de sogros abusivos e deixou seu bebê para trás para ir trabalhar em Hong Kong em 2003. Ela consumia álcool e drogas para enfrentar a depressão. No final de 2011, após perder seu emprego como empregada pela terceira vez, ela foi para Macau, dormindo nas ruas meses, até sofrer uma overdose.

Uma muçulmana apenas nominalmente até então, ela buscou refúgio espiritual. Navegando por sites islâmicos, ela ficou absorta por notícias da guerra na Síria. Ela fez amizade com jihadistas internacionais nas redes sociais. Então voltou para Hong Kong e se matriculou em um curso islâmico ministrado por um instituto salafista puritano, porém não extremista, mas o deixou em meados de 2014, quando seu professor a denunciou à polícia após ela expressar apoio ao Estado Islâmico.

Ela começou a traduzir material de propaganda para o Estado Islâmico (EI) do inglês para indonésio e a divulgá-lo pelo Twitter e pelo aplicativo de mensagens Telegram. Após se casar com um jihadista indonésio que conheceu pelo Facebook, ela foi apresentada aos círculos internos dos grupos indonésios pró-EI.

Cerca de 500 mil imigrantes da Indonésia trabalham em Hong Kong, Taiwan e Cingapura, a maioria deles, como Ayu, mulheres contratadas como empregadas, babás ou cuidadoras de idosos.

Com base nos relatos oficiais por parte da polícia indonésia e entrevistas e monitoramento das redes sociais realizados pelo Instituto para Análise de Políticas para Conflitos (Ipac, na sigla em inglês), com sede em Jacarta, onde sou pesquisadora, cerca de 45 empregadas domésticas indonésias apenas em Hong Kong foram identificadas como apoiadoras ativas do Estado Islâmico. Pode ser que haja o dobro disso.

Esses números podem parecer pequenos, mas a radicalização das empregas e babás indonésias que trabalham no Leste Asiático é alarmante. Bastam algumas poucas pessoas dedicadas para realizar um estrago considerável. E essas apoiadoras da jihad contam com mais recursos que outros: suas rendas são maiores do que a da maioria dos indonésios, falam melhor inglês e contam com mais contatos internacionais.

Duas mulheres indonésias que eram trabalhadoras imigrantes foram detidas em dezembro passado enquanto preparavam atentados suicidas contra o palácio presidencial em Jacarta e um local turístico em Bali.

Outras viajaram para a Síria para se casarem com combatentes do EI, forneceram fundos para o grupo, recrutaram novos membros ou conectaram jihadistas locais com combatentes na Síria e Iraque.

Muito menos atividade desse tipo foi registrada entre os cerca de 1 milhão de empregados domésticos indonésios que trabalham no Golfo Pérsico. Apenas cerca de uma dúzia de empregadas radicais na Arábia Saudita, no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos está ativa nas redes sociais, por exemplo. Não há nenhum relato de alguma ter se juntado aos jihadistas na Síria.

Como imigrantes de um país de maioria islâmica trabalhando em territórios não muçulmanos, as empregadas e babás indonésias em Hong Kong e Cingapura se radicalizaram por motivos diferentes do que as empregadas indonésias no Oriente Médio ou convertidos ao jihad no Ocidente.

Com base no monitoramento pelo Ipac das redes sociais desde meados de 2015, assim como nossas entrevistas com várias dezenas de trabalhadores imigrantes indonésios e líderes muçulmanos em Hong Kong, essas trabalhadoras parecem ter começado como muçulmanas apenas nominais e não devotas e depois passado por uma rápida transformação religiosa, enquanto viviam no exterior.

Para algumas, a dificuldade da vida como imigrante, principalmente o deslocamento e o isolamento, inspirou o renascimento espiritual. Elas experimentam uma forma dupla de alienação, tanto de casa quanto da religião. Algumas disseram que se sentiam humilhadas, por exemplo, por terem que cozinhar porco para patrões não muçulmanos. "Você consegue imaginar ter de tocar em carne de porco enquanto veste um niqab?" uma delas me disse, referindo-se ao véu que cobre o rosto.

Os trabalhadores imigrantes no Leste Asiático têm mais liberdade de se congregarem durante seus dias de folga e serem donos e usarem celulares do que seus pares no Oriente Médio.

Aos domingos, parques públicos e passarelas em Hong Kong ficam lotados de pequenos grupos de trabalhadores indonésios, que cantam, jogam cartas, praticam artes marciais ou se juntam a grupos de estudos islâmicos conhecidos como "pengajian".

Dentre as mais de 200 associações indonésias em Hong Kong listadas pelo consulado indonésio em 2016, mais da metade eram "pengajian". Mas esses grupos quase nunca promovem ideologia radical; na maioria dos casos de radicalização estudados pelo Ipac, os trabalhadores são expostos ao extremismo islâmico pelas redes sociais.

Algumas mulheres ingressam em "pengajian" nos primeiros estágios de seu despertar religioso, mas posteriormente ficam insatisfeitas com eles e, assim como Ayu, se voltam para a internet ou às redes sociais em busca do que, para elas, é uma forma mais pura do Islã.

Sites jihadistas como voa-islam.com e kiblat.net aparecem no topo das listas de resultados de busca ao pesquisar por "notícias islâmicas" no Google em indonésio. Suas narrativas, como profecias sobre o Armageddon islâmico na Síria e coisas do tipo, são então disseminadas pelas redes sociais. Aplicativos de bate-papo encriptados, particularmente o Telegram, servem como grupos de apoio aos novos recrutas.

"Eu ficava online 24 horas todo dia, o Wi-Fi era muito bom", me disse Firda, uma empregada doméstica que trabalhava em Cingapura, em abril. "No início eu costumava assistir filmes, mas depois de algum tempo comecei a me sentir vazia. Tinha um emprego decente e dinheiro, minha chefe era gentil comigo, mas me sentia seca espiritualmente."

"Então comecei a escutar os podcasts salafistas enquanto limpava a casa", disse Firda (também um pseudônimo). "No Facebook, eu seguia pessoas cujos perfis pareciam bastante islâmicos, porque precisava de amigos que pudessem me guiar intensamente, não apenas como em um grupo mensal de estudos."

Ela conheceu seu namorado online, que apresentou para ela sites pró-EI como o millahibrahim.wordpress.com. O governo de Cingapura deportou Frida para a Indonésia poucos meses atrás por planejar se juntar ao Estado Islâmico na Síria.

Para algumas empregadas domésticas, juntar-se ao Estado Islâmico é uma forma de emancipação, dos passados dos quais às vezes se arrependem, das dificuldades do exílio, da subserviência aos homens. Ika Puspitasari, uma ex-empregada doméstica em Hong Kong, foi presa na região central de Java em dezembro de 2016 por planejar um ataque suicida em Bali. Ela disse à polícia que após ajudar a financiar os planos terroristas de seu marido por algum tempo, ela quis exercer um papel mais ativo.

São esses desejos e a impotência que geram que os esforços de desradicalização precisam tratar. O governo indonésio atualmente realiza treinamento para trabalhadores emigrantes antes de partirem para o exterior, mas ele se concentra em habilidades práticas e línguas. O preparo também deve incorporar módulos a respeito de extremismo religioso, assim como descrever o recrutamento por grupos radicais como uma forma de exploração, porque os jihadistas com frequência arrancam dinheiro dos trabalhadores imigrantes.

Mais importante, as redes sociais para os trabalhadores imigrantes no exterior devem ser fortalecidas de modo que os imigrantes tenham uma comunidade à qual se voltar fora os grupos radicais online. Os "pengajian" poderiam exercer um papel, desde que seus líderes sejam treinados para aconselhar indivíduos vulneráveis à radicalização sem aliená-los, muito menos afugentá-los, como aconteceu com Ayu.

As associações setoriais muçulmanas indonésias em Hong Kong e em outros lugares também poderiam ter um papel. Elas poderiam ser encorajadas pelo consulado indonésio a criar empreendimentos com trabalhadores imigrantes, permitindo que os trabalhadores atraídos por pontos de vista extremistas sejam expostos a outros pontos de vista em um ambiente educativo.

Essa exposição já provou ser eficaz em outros contextos. Por exemplo, um terrorista reformado em Lamongan, em Java Oriental, montou uma cooperativa pecuária reunindo ex-radicais e não radicais, e essa proximidade ajudou, com o passar do tempo, a mudar os pontos de vista de alguns dos jihadistas. Programas poderiam ser criados em Hong Kong para fazer com que empregadas domésticas radicalizadas se envolvam, por exemplo, em negócios como a venda de roupas islâmicas e ervas medicinais islâmicas, produtos com alta demanda entre imigrantes.

As causas que levam empregadas domésticas e babás imigrantes a se juntarem ao jihad são complexas. Deportações e prisões não são uma solução; quanto muito, são um sinal de fracasso, evidência de que a radicalização já ocorreu.

A recente decisão do governo indonésio de bloquear o Telegram é uma forma ineficaz de prevenção, por visar os meios de radicalização, não suas causas. Uma abordagem melhor seria buscar construir comunidades viáveis, inclusive espirituais, para os trabalhadores imigrantes visando prevenir a sensação de alienação que leva alguns deles a abraçarem o terrorismo.

*Nava Nuraniyah é uma analista do Instituto para Análise de Políticas para Conflitos, em Jacarta.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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