O que a Europa deve fazer com os filhos do Estado Islâmico?

Charlotte McDonald-Gibson*

Em Bruxelas

  • AP Photo/Raqqa Is Being Slaughtered Silently

    20.nov.2014 - Crianças seguram bandeira do Estado Islâmico em Raqqa, na Síria, quando a área era dominada pelo grupo extremista

    20.nov.2014 - Crianças seguram bandeira do Estado Islâmico em Raqqa, na Síria, quando a área era dominada pelo grupo extremista

O menino de 9 anos não gostava de ir à escola. Ele não gostava das outras crianças, porque sabia o que elas realmente eram: infiéis do mal que mereciam morrer. Então ele fazia aquilo para o qual havia sido treinado a fazer—ele as atacava. Ele foi retirado da escola no primeiro dia em que havia voltado.

O menino havia passado dois anos afastado de sua pátria europeia, em um lugar onde se ensinava a contar pelas chibatadas nas costas de uma vítima; onde assistir a decapitações públicas fazia parte do currículo escolar; onde seu único papel era ser moldado em um futuro jihadista, ou um "filhote do Califado". Seus anos no bastião do Estado Islâmico em Raqqa, na Síria, o haviam transformado em um menino brutalizado, radicalizado e profundamente confuso.

Ele é um dos cerca de 5 mil europeus, entre homens, mulheres e crianças, que teriam supostamente viajado para território do Estado Islâmico desde 2012 para combater junto com os islamitas ou viver sob seu califado. Agora que eles estão retornando, a maioria dos governos estão focados na segurança a curto prazo, ignorando as imensas necessidades dessas crianças destruídas.

O menino voltou para casa no início de 2016 junto com sua mãe—que se converteu ao islamismo e agora está sendo julgada—e se viu em um mundo que ele havia sido treinado para odiar, onde ele não confiava em nada e em ninguém.

"Ele se sentia cercado por pessoas do mal", disse Daniel Koehler, membro do Programa sobre Extremismo da Universidade George Washington e psicólogo familiar em Berlim. "Essas crianças são colocadas sob um estresse constante, ouvindo que serão queimadas se não fizerem isso ou aquilo—se você não matar esse infiel irá para o inferno, sua mãe irá para o inferno. É uma tortura psicológica constante."

A história do menino foi contada para mim por Koehler, que recebeu a missão de elaborar uma estratégia de reintegração após essa desastrosa tentativa de fazê-lo voltar a frequentar a escola. Koehler não quis revelar o país da Europa Ocidental onde o garoto mora.

"É uma atitude muito insensível em relação a esses indivíduos", ele disse. "A maior parte das pessoas preferiria vê-los mortos ou julgados e colocados atrás das grades para o resto da vida. É uma questão completamente desconhecida da maior parte da população—de que existem crianças e que elas não têm culpa de nada."

Omar Ramadan, diretor do Centro de Excelência da Rede de Conscientização sobre Radicalização da União Europeia, diz que há centenas de crianças europeias no território do Estado Islâmico, embora seja impossível afirmar com certeza. Embora os governos tenham alguns dados sobre crianças que partiram junto com seus pais, o Estado Islâmico proíbe a contracepção, e o dever de uma mulher é criar a próxima geração de combatentes. Quando um bebê nasce sob o Estado Islâmico, ele entra no mundo sem nacionalidade. O Estado Islâmico emite certidões de nascimento, mas nenhum país as reconhece. 

REUTERS/Zohra Bensemra
10.nov.2016 - Sara, então com 2 anos, que nasceu na área dominada pelo Estado Islâmico no Iraque e não tem documentos de identidade reconhecidos no país

A partir dos 4 anos de idade as crianças começam a frequentar a escola, onde são submetidas a um currículo brutal. "Um livro comum de matemática traz laranjas e maçãs, além de tanques militares e armas nas mesmas páginas", diz Nikita Malik, uma pesquisadora sênior da Henry Jackson Society, um think tank de Londres onde ela estudou materiais de ensino do Estado Islâmico.

"O nível de formação deles—especialmente para os meninos—depende de sua capacidade de banalizar a violência. Então quando assiste a um enforcamento, a uma execução pública, uma sessão de chibatadas, a criança deve contar o número de chibatadas."

As meninas param de frequentar a escola aos 9 anos, idade em que elas são consideradas velhas o suficiente para se casar. Com a mesma idade, os meninos começam o treinamento militar, embora eles sejam usados ainda mais jovens em vídeos de propaganda. Um vídeo mostra um menino de aproximadamente 4 anos disparando uma arma contra um prisioneiro enforcado em um parquinho infantil.

Jan Kizilhan, um psicólogo curdo-alemão, viu em primeira mão os danos que a doutrinação do Estado Islâmico pode causar. Ele trata de crianças soldados no Iraque e de meninos da minoria yazidi que foram levados como refugiados para a Alemanha depois de serem recrutados pelo Estado Islâmico. Essas crianças testemunharam estupros, torturas, assassinatos, e em alguns casos foram forçadas a elas mesmas participarem das atrocidades.

"A agressividade é um dos principais problemas", ele disse, além dos "pesadelos, problemas para dormir, de concentração, talvez eles tenham alguns problemas neurológicos", ele diz. "O Estado Islâmico os treinou para terem o mínimo de empatia possível".

Kizilhan está convencido de que são necessários no mínimo dois anos de intervenção diária por parte de assistentes sociais, psicoterapeutas, professores e outros profissionais para dar a essas crianças a chance de uma vida normal. "Essas crianças precisam de segurança", ele diz, "elas precisam de estabilidade e de orientação".

Mas não é a segurança das crianças que voltam que mais preocupa os governos; é a segurança do Estado. Cidadãos franceses e belgas que passaram algum tempo com o Estado Islâmico cometeram ataques terroristas em ambos os países, e o foco das autoridades está em monitorar ex-combatentes em busca de sinais de que eles possam semear o terror em casa, ou em tentar evitar que eles voltem. As crianças que são pegas no fogo cruzado simplesmente não são prioridade.

Os governos não fazem nenhum esforço para evacuar seus cidadãos da zona de conflito. Como coloca Jessika Soors, "quem assumiria a responsabilidade quando um lobo em pele de cordeiro volta?" Soors dirige a equipe de contraterrorismo na municipalidade belga de Vilvoorde, onde pelo menos oito crianças nasceram em território do Estado Islâmico, filhos de residentes locais. "Do ponto de vista político é difícil vender para a opinião pública que como Estado você esteja ajudando a trazer combatentes estrangeiros de volta", diz.

Mas aqueles que quiserem encontrarão um meio de voltar, e as políticas que se entregam ao medo e ao preconceito ignoram as vantagens de se intervir logo no começo das vidas de crianças radicalizadas, e simplesmente as forçam para dentro de situações cada vez mais perigosas.

No momento, aqueles que estão fugindo do Estado Islâmico correm o risco de serem mortos ou capturados, e depois precisam viajar através de territórios controlados por milícias até a Turquia. É só quando eles entram em um consulado ou em uma embaixada de seu país natal que eles recebem qualquer tipo de assistência.

Ali, a nacionalidade de qualquer criança nascida na Síria ou no Iraque precisa ser confirmada, muitas vezes através de testes de DNA. Muitas crianças têm mães e pais de nacionalidades diferentes, criando possíveis problemas de custódia. Uma vez que a criança chega em casa, um dos pais ou ambos podem ser presos, deixando dúvidas sobre quem deve ser o guardião da criança. Depois a criança precisa ser reintegrada ao sistema de ensino.

Essas muitas complexidades—e o potencial para uma leva de retornos, à medida que o Estado Islâmico vai perdendo o controle de Raqqa e de Mossul, no Iraque—exigem uma abordagem sutil e uma estratégia em nível europeu para lidar com as crianças. Deve haver treinamento para professores e assistentes sociais, e diretrizes claras sobre questões como o retorno à escola e quem estaria mais bem posicionado para cuidar de uma criança. As políticas precisam estar focadas na proteção da criança, mais do que na demonização da família.

Nos últimos anos, crianças que apareceram em vídeos de execução foram alvo de manchetes e reportagens de TV sensacionalistas. Tabloides britânicos apelidaram um menino britânico de 4 anos de "Jihadi Júnior". Autoridades europeias de segurança estão focadas na possibilidade de que crianças radicalizadas possam ser a próxima geração de terroristas. Uma autoridade francesa descreveu as crianças como sendo "bombas-relógio".

Mas não há nada mais perigoso do que estigmatizar ainda mais essas crianças. Para o menino de 9 anos que atacou seus colegas de escola, foram os braços seguros e amorosos de seu avô, que o seguravam firme enquanto eles frequentavam os parquinhos, que lhe permitiram ver outras crianças como coleguinhas de brincadeiras e não como inimigos. Após um ano de cuidadosa supervisão, ele voltou para a escola e começou o processo de voltar a ser criança.

Crianças como ele são vítimas inocentes da guerra, reconhecidas como tais pela lei internacional. Mas quando se trata da guerra contra o Estado Islâmico, muitas pessoas parecem se esquecer dessa verdade tão básica.

(Charlotte McDonald-Gibson (@cmcdonaldgibson) é autora de "Cast Away: True Stories of Survival From Europe's Refugee Crisis" ou "Párias: histórias verdadeiras de sobrevivência da crise de refugiados da Europa")

Tradutor: UOL

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