Análise: Mania por mudança de nomes geográficos na Índia reflete desejo de controlar própria imagem

Aatish Taseer*

Em Nova Délhi (Índia)

  • Danish Siddiqui/Reuters

    Varanasi, às margens do Ganges, é também conhecida pelo nome da era muçulmana, Banaras, e pelo antigo nome em sânscrito, Kashi

    Varanasi, às margens do Ganges, é também conhecida pelo nome da era muçulmana, Banaras, e pelo antigo nome em sânscrito, Kashi

Em meio a ideias concorrentes a respeito da história, a forma como os indianos chamam sua geografia reflete o desejo de um país de como quer ser visto

Os nomes das maiores cidades da Índia estão desaparecendo do mapa. Em 1995, Bombaim se tornou Mumbai. Em 1996, Madras se tornou Chennai. Ao longo das duas décadas que se seguiram, virtualmente toda grande cidade na Índia, de Cochin (agora Kochi) a Bangalore (agora Bengaluru) e Calcutá (agora Kolkata), foi rebatizada. Algumas das mudanças, como no caso de Trivandrum (Thiruvananthapuram até 1991), foram significativas e representavam um retorno ao nome antigo mudado pelo governo britânico. Outros, como no caso de Calcutá, foram tão bizarros quanto se os franceses decretassem que todos de agora em diante devem se referir a Paris como "Parrí".

Os nomes na Índia raramente são apenas nomes. Jawaharlal Nehru, o primeiro premiê do país, descreveu a Índia como um país onde em "um (nome) sob o outro, estão escritos muitos fatos, ideias e sonhos, sem que qualquer um deles cubra completamente o que está embaixo". As diferentes camadas de história (britânica, muçulmana, hindu) não descansam facilmente sobre a outra. Em cada período, há aqueles que veem a si mesmos alternadamente como herdeiros da história e suas vítimas.

Com tantas ideias concorrentes da história, os nomes refletem a necessidade básica de que o mundo veja você da mesma forma como você vê a si mesmo. Com a maior exposição ao olhar dos outros, a necessidade se torna mais urgente. À medida que a autoconfiança instintiva de uma sociedade fechada dá lugar a uma nova sensibilidade exagerada, os nomes passam a ser infundidos da ansiedade especial de querer controlar a imagem da Índia.

A mania por mudança de nomes teve início na recém-independente Índia com a eliminação dos nomes britânicos. Em Délhi, onde cresci, o processo estava em curso anos antes de meu nascimento e continuou ao longo da minha infância, nos anos 1990.

Um a um, os velhos nomes britânicos caíram: Harding Avenue se tornou Tilak Marg; Willingdon Crescent, Mother Theresa Road. As autoridades da cidade até mesmo mudaram o nome da rua na qual eu morava: South End Lane, que marcava o extremo sul da Délhi britânica, para Rajesh Pilot Lane, Em um gesto clássico de confusão pós-colonial, eles ergueram um monumento de arenito maior do que a placa da rua original para explicar a importância do nome antigo, mas não por que foi rebatizada com o nome de um ministro do governo em grande parte esquecido.

Mas se a camada britânica era apenas o solo superficial, o passado muçulmano da Índia era outra história. A Índia, assim como os Bálcãs, teve vários séculos de governo islâmico sobre uma população em grande parte não convertida. A conquista islâmica do continente indiano teve início no século 11 e prosseguiu até o século 18.

Por todo um Estado como Uttar Pradesh, o mais populoso do país, há cidades, como diria Rebecca West, "de duas naturezas". A cidade medieval muçulmana de Kannauj se encontra sobre a cidade hindu de Kanyakubja, a fabulosa capital do rei Yasovarman do século 8º. Allahabad fica sobre a cidade hindu de Prayaaga, situada na confluência de três rios sagrados. Em alguns casos, como em Varanasi, a capital espiritual do hinduísmo, grandes mesquitas foram erguidas sobre os ossos de antigos templos.

Mas o passado muçulmano, diferente do britânico, tem herdeiros, os mais de 170 milhões de muçulmanos indianos. Não é tão fácil apagar a história deles e, historicamente, a Índia não buscou fazê-lo.

A abordagem indiana sempre foi sincrética. Cidades com múltiplas naturezas atendem por múltiplos nomes. Varanasi, por exemplo, era conhecida e ainda é por seu nome da era muçulmana, Banaras, tanto por hindus quanto muçulmanos. Mas ambas as comunidades, quando buscam evocar o nome da cidade sagrada que está por baixo da cidade física, a cidade da mitologia hindu e peregrinação, referem-se automaticamente a ela por seu antigo nome em sânscrito, Kashi.

Essa sofisticação indiana é cada vez mais uma coisa do passado. O nacionalismo hindu está em ascensão e a sorte política de partidos como o Bharatiya Janata (BJP) do governo, depende da transformação em arma da ideia da história.

Narendra Modi, o atual primeiro-ministro, ajudou a organizar o movimento político e religioso de 1990 que levou posteriormente à destruição da mesquita do século 16 em Ayodhya, que supostamente se encontrava sobre o local de nascimento do herói épico hindu Rama. Esse evento, que resultou em distúrbios entre hindus e muçulmanos que terminaram com 2.000 mortos, é visto por muitos muçulmanos indianos como o momento em que a cultura sincrética da Índia começou a se desfazer.

Desde que Modi chegou ao poder três anos atrás, seu governo tem explorado o jogo de nomes cautelosamente. Em 2015, Aurangzeb Road, uma rua arterial na Délhi britânica que leva o nome de um criticado imperador muçulmano mongol do século 17, foi rebatizada de Abdul Kalam Road, em homenagem a um presidente muçulmano da Índia do início dos anos 2000 e uma importante figura nos programas nuclear e de mísseis do país. Foi a forma de o partido BJP de substituir o nome de um vilão muçulmano pelo de um patriota muçulmano.

Mas cada vez mais a visão do partido da história muçulmana da Índia é monolítica. Em Goa no ano passado, o presidente do BJP, Amit Shah, descreveu o período muçulmano como parte de uma história de mil anos de escravidão. Alguns meses antes, um ministro do BJP exigiu que até mesmo a Akbar Road, que leva o nome do terceiro dos Grandes Mongóis que foi um exemplo de sincretismo religioso, foi rebatizada com o nome do rei hindu que ele derrotou em combate.

Foi um exemplo de como até mesmo as glórias do passado muçulmano na Índia podem passar a ser vistas pela maioria hindu como um registro ininterrupto de derrotas. Mais recentemente, Yogi Adityanath, o novo ministro-chefe de Utar Pradesh, disse: "Dignitários estrangeiros que visitam o país costumavam ser presenteados com réplicas do Taj Mahal e outros minaretes que não refletem a cultura indiana". Se o Taj Mahal o incomoda, então é seguro dizer que tudo mais também incomodará.

As frentes de batalha mais tensas da guerra da nomenclatura são traçadas em torno do relacionamento com a modernidade. A Índia, como tantos países pós-coloniais, é uma cultura antiga renascida em uma nação moderna.

Os dois termos mais básicos do país refletem essa natureza dupla, moderno e tradicional: "Índia" e "Bharata". A segunda é a palavra em sânscrito, mais comumente escrita em hindi como Bharat, o nome pelo qual o país conhece a si mesmo, livre do olhar de estrangeiros. A primeira é latina, e a etimologia por si só representa uma longa história de sentir-se sob o olhar do Ocidente. "Indos" é a palavra grega para o rio Indo. Que por sua vez derivava do persa "Hindu", que é uma corrupção antiga da palavra em sânscrito para rio, "sindhu".

"India" e "Bharat". Uma sugere modernidade, com todo o apelo e afronta do Ocidente, enquanto a outra representa a necessidade mais profunda de todas as pessoas de permanecerem verdadeiras a si mesmas e suas culturas. Não é fácil conciliar as duas. Das entranhas do smartphone vêm valores alienígenas, posturas, um modo de vida, e não é realmente possível, como me sugeriu um brâmane em Varanasi, ser ocidental fora e indiano em casa.

O fracasso em assimilar o Ocidente moderno, não apenas seus ornamentos, mas também seus valores, nunca foi tão aparente do que na epidemia de estupros que vare a Índia. O estupro, é dito, não se trata de sexo, mas sim de poder. A modernidade é poder, e aqueles que mais bem a assimilaram, especialmente se fisicamente mais fracos, com frequência podem parecer ameaçadores para aqueles que se sentem desempoderados.

O caso mais famoso desse tipo foi o de Jyoti Singh, a jovem de 23 anos que sofreu estupro coletivo em Délih em 2012. O ataque foi tão violento que ela morreu devido aos ferimentos.

Mas mesmo aqui a guerra de nomes continua. Quando o chefe da principal organização nacionalista hindu da Índia, a Rashtriya Swayamsevak Sangh, a fonte cultural do BJP, foi questionado sobre Singh, sua resposta revelou a histeria por trás dos nomes na Índia atual: esses crimes, ele disse, ocorrem na Índia, não em Bharat. Ele acrescentou: "Onde 'Bharat' se torna 'Índia' com a influência da cultura ocidental, incidentes desse tipo acontecem".

Os nomes na Índia nunca são apenas nomes.

*Aatih Taseer (@aatishtaseer) é autor, mais recentemente, do romance "The Way Things Were", ou "Como eram as coisas", em tradução livre, ainda não lançado no Brasil.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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