Opinião: Problemas britânicos que eram resolvidos pela UE se tornarão dolorosamente aparentes

Jenni Russell*

Em Londres

  • Odd Andersen/Agence France-Presse/Getty Images

A narrativa heroica sobre a retomada do controle das mãos da União Europeia já está colidindo com fatos funestos.

Quem me dera o novo filme de Christopher Nolan, "Dunkirk", não tivesse sido lançado neste momento da história. Os críticos têm sido unânimes em seus elogios: duro, complexo, inflexível a respeito da selvageria da guerra e morte. Porém a mensagem essencial do filme, com sua narrativa do recuo heroico visando poder lutar outro dia, não deixa de alimentar o orgulho nacional na capacidade do Reino Unido de posteriormente triunfar, não importa quão adversas as circunstâncias.

Nada poderia ser de menos ajuda para nossa psique coletiva enquanto o país comete a tolice do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia). Nós ouvimos muito sobre o excepcionalismo americano, mas o Reino Unido também sente o mesmo. Somos a nação do império, cujos ancestrais já controlaram um quarto do globo; somos a mãe dos Parlamentos; nos erguemos sozinhos contra Hitler; não fomos conquistados por mil anos. Nós nos sentimos notáveis.

A votação pelo Brexit foi movida pela crença de que o Reino Unido estava sendo atrapalhado por estar amarrado a um grupo moribundo e burocrático de nações. Os defensores do Brexit convenceram eleitores suficientes de que precisávamos apenas nos libertar da Europa, com suas regulações cansativas, restrições e imigrantes incômodos, para nos tornarmos de novo um país mais rico, orgulhoso, audacioso e dominante.

Essa promessa reflete uma falta de entendimento atordoante de quem somos, do que somos capazes e de nossa posição no mundo. A fé do Reino Unido em seu futuro independente está enraizada em seu desempenho econômico. Somos uma ilha minúscula, mas somos a quinta maior economia do mundo, como a primeira-ministra Theresa May e os principais defensores do Brexit nos asseguram com frequência. Essa posição deu a metade do país a falsa confiança de que não temos nada a temer com a mudança.

O problema com essa estatística é que ela ofusca todas as fraquezas que se encontram abaixo da superfície. Não temos as habilidades, a base manufatureira, a motivação ou a produtividade que precisaríamos para decolar como nação independente. Por anos, as inadequações do Reino Unido foram compensadas pela associação com a União Europeia. Agora, elas estão prestes a se tornar dolorosamente aparentes.

A educação é um ponto fraco crítico. Alegamos ter um sistema de qualidade mundial, mas os mais recentes números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostram que as notas para leitura e matemática, entre jovens de 16 a 24 anos na Inglaterra e a Irlanda do Norte, estão entre as quatro piores dentre os 35 países membros da organização. Mais da metade dentro dessa faixa etária também conta com habilidades tecnológicas ruins; eles se encontram juntamente com os americanos na última posição do grupo. Como um relatório da Câmara Alta se queixou na semana passada, as empresas não se deram ao trabalho de treinar os britânicos para compensar essas deficiências ao longo da última década, porque sempre podiam recrutar estrangeiros.

Não há trabalhadores britânicos suficientes, com as atitudes corretas e habilidades corretas, para preencher as vagas de trabalho no país. A consequência é que importamos um número imenso de imigrantes para fazer o que os britânicos não são capazes ou não querem. Os setores manufatureiro, de enfermagem e cuidados, todos dependem de estrangeiros. Quase um quinto do corpo docente das universidades britânicas é proveniente de outros países da União Europeia. Quase 100 mil trabalhadores rurais sazonais são necessários por ano para colheita de hortifrútis e abate de frangos, trabalhos que grupos setoriais dizem ser impossível convencer britânicos a aceitá-los.

A EEF, sigla em inglês da organização do setor manufatureiro antes conhecida como Federação dos Empregadores de Engenharia, relata que o Reino Unido carece tanto de trabalhadores habilitados em ciência, tecnologia e matemática que três quartos das empresas têm dificuldade em preencher postos de engenharia, e um quarto recruta especificamente da Europa para preenchimento dessas vagas. Um terço dos novos enfermeiros a cada ano é europeu. Apenas um entre 50 candidatos a vagas de trabalho na rede de sanduíches Pret a Manger é britânico.

Apesar de toda essa capacitação importada, a economia do Reino Unido está estagnada desde a crise financeira. A maioria dos trabalhadores ainda ganha menos em termos reais do que há quase uma década. O produto interno bruto (PIB) tem crescido simplesmente porque há mais pessoas no país, mas a única medida que importa, o PIB per capita, não cresce há uma década. É um recorde chocante. Para cada hora que trabalhamos, produzimos cerca de um quinto a menos que a média entre os países do G-7. Apenas a Itália teve desempenho pior que o nosso em aumento da produtividade nos últimos 10 anos.

A prosperidade também é minada pela distribuição altamente desigual da riqueza. Há um punhado de regiões ricas, com Londres sendo proeminente, mas grande parte do país é surpreendentemente pobre. Nove das 10 regiões mais pobres do Norte da Europa, West Wales, Cornwall e Lancashire, ficam no Reino Unido.

A prosperidade que temos é altamente dependente de nosso comércio com a Europa. Cerca de 44% das exportações britânicas e mais da metade de nossas importações são com a União Europeia. O Reino Unido deve grande parte do investimento estrangeiro em suas principais indústrias, em carros e produtos farmacêuticos, precisamente ao fato de o país servir como ponto de entrada para a Europa. Os serviços financeiros e negócios de Londres são a casa de força da economia, correspondendo a um terço do PIB britânico e monopolizando os mercados da União nessa área.

O Brexit significa que estamos prestes a explodir intencionalmente todos esses laços. Ela tornará todos nossos relacionamentos comerciais com nossos vizinhos mais próximos mais difíceis e mais caros. Cortará o fluxo de migrantes da União Europeia para cá. Como apontou Simon Tilford, do Centro para a Reforma Europeia, o Reino Unido será muito menos atraente para as empresas estrangeiras que geram metade de suas exportações assim que não puderem vender para o continente sem barreiras. Não poderemos mais vender serviços financeiros livremente na União Europeia, e seja qual for o acesso que negociarmos para os bens, ele será, como a União deixou bem claro, substancialmente pior do que o que temos agora.

As consequências serão sérias e duradouras. A organização que fala em nome das grandes empresas, a Confederação da Indústria Britânica, calcula que em 2020 o PIB do país poderá ser 3% a 5,5% menor do que se seria se tivéssemos permanecido na União Europeia.

Novos acordos comerciais com o restante do mundo não podem compensar o Brexit. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Social, um importante centro de estudos, deixar o mercado único custará ao Reino Unido um quinto de seu comércio de bens (e um quarto em serviços). Mesmo se negociarmos acordos de livre comércio com 10 nações importantes, incluindo Índia, Brasil e Estados Unidos (um processo que provavelmente levará anos), esse comércio compensaria apenas cerca de um quarto do que perderemos.

Tudo isso antes de levarmos em consideração as despesas, complicações e resposta burocrática envolvidas na saída da União; anos de negociações com países ao redor do mundo; dezenas de agências reguladoras europeias, supervisionando tudo, de medicamentos a energia nuclear, para as quais o Reino Unido terá que estabelecer equivalentes; a necessidade de recrutamento de milhares de pessoas para administração de novos e mais amplos sistemas de alfândega e imigração.

Os britânicos não estão nem remotamente preparados para essa realidade. O país está doente de baixos padrões de vida e as pesquisas mostram que as pessoas estão cheias de cortes por austeridade nos gastos públicos. Os eleitores queriam e esperavam que o Brexit os deixaria mais ricos. Foi dito a eles que as previsões negativas sobre os efeitos do Brexit eram apenas fomentação de medo pela elite e seus especialistas; eles não previram os efeitos negativos.

Assim como um cônjuge infeliz contemplando um divórcio para poder se casar com um novo amor, a maioria dos eleitores esperava que o Brexit eliminaria tudo o que não gostam a respeito da União Europeia (imigração, regulação), presumindo cegamente que manteriam tudo o que gostam (prosperidade, subsídios para os setores e regiões mais pobres, aposentadoria à beira do Mediterrâneo, atendimento de saúde gratuito no exterior). Resumindo, eles esperavam ficar com o bolo e também comê-lo.

O paradoxo é resumido por duas mulheres que entrevistei recentemente. Ambas eram mães solteiras vivendo de benefícios que reclamavam ser baixos demais. Ambas votaram pelo Brexit. Ambas acreditavam que há estrangeiros demais aqui. E ambas ficaram escandalizadas quando perguntei se assumiriam as vagas de trabalho não ocupadas nos cafés e lojas.

"São empregos para imigrantes", disse uma.

As empresas britânicas estão começando a entrar em pânico com o dano iminente. Bancos já estão começando a deslocar seu pessoal de Londres para a Europa, o investimento estrangeiro está diminuindo, os salários reais estão de novo caindo abaixo da inflação e há previsão de que caiam ainda mais, o Banco da Inglaterra está alertando que as dívidas dos lares estão crescendo a níveis perigosos, à medida que as pessoas tomam empréstimos para manter o padrão de vida, e o crescimento britânico nos primeiros dois trimestres deste ano caiu para apenas 0,2% e 0,3%, respectivamente, enquanto o crescimento europeu foi de mais que o dobro disso.

Um importante ex-diplomata, um homem que passou sua vida profissional construindo o comércio e a credibilidade do Reino Unido junto a investidores, está horrorizado com o que o caos do Brexit está fazendo à nossa reputação. "A narrativa central do país nos últimos 40 anos foi de que éramos estáveis e politicamente previsíveis; a plataforma ideal para investimento no mercado único", ele me disse. "E agora estamos desgovernados e confusos."

Esses são os fatos funestos que deveriam furar a fantasia ridícula vendida pelos defensores do Brexit à nação. Esse é o motivo para o ministro das Finanças do Reino Unido, Philip Hammond, estar travando uma batalha política com o Gabinete de May para tornar nossa saída da União Europeia o mais prolongada e suave que pudermos.

O Reino Unido não é uma potência econômica aguardando para ser libertada. Somos um país de educação medíocre e habilidades limitadas, cuja vaidade nos impede de ver nossas falhas. Nossa associação à União Europeia não é um conjunto de restrições; é o que nos escora. Se insistirmos em nos soltarmos, partes de nossa economia começarão a morrer.

A batalha de Dunquerque é lembrada afetuosamente apenas porque, no final, o Reino Unido ficou no lado vencedor. Mas isso não foi por obra de nosso espírito destemido. Foi por causa da entrada dos Estados Unidos, com seus vastos recursos, na guerra. Não há um aliado igual aguardando para nos resgatar agora, ao começarmos a percorrer o caminho perigoso do despedaçar metódico de nossos laços com nossos vizinhos e amigos.

*Jenni Russell (@jennirsl), uma jornalista e radialista, é colunista do "The Times" de Londres

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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