Análise: A próxima guerra em Gaza está fermentando. Veja como detê-la

Nathan Thrall e Robert Blecher*

  • Ibraheem Abu Mustafa/Reuters

    27.jul.2017 - Jovens palestinos fazem treinamento em acampamento de verão do Hamas em Rafah, no sul da faixa de Gaza

    27.jul.2017 - Jovens palestinos fazem treinamento em acampamento de verão do Hamas em Rafah, no sul da faixa de Gaza

Um laço está se formando ao redor da faixa de Gaza. Ele tem de ser afrouxado antes que seja tarde

Quando a violência irrompe em Jerusalém e na Cisjordânia, geralmente não demora para que a faixa de Gaza as siga. Na fronteira de Gaza com Israel, um adolescente palestino foi morto na sexta-feira (28) enquanto protestava em solidariedade a palestinos em Jerusalém. Vários dias antes, dois foguetes foram disparados de Gaza contra Israel, e no dia seguinte tanques israelenses destruíram uma posição do Hamas.

É um reflexo muito conhecido dos eventos que antecederam o conflito de Gaza em 2014: protestos palestinos generalizados em Jerusalém, israelenses assassinados nos territórios ocupados, um forte aumento de palestinos mortos por forças israelenses, prisões em massa de autoridades do Hamas na Cisjordânia e um endurecimento constante do laço em torno de Gaza.

Em fevereiro, o auditor do Estado israelense publicou um relatório que criticava com ênfase o fracasso do governo em evitar o conflito de 2014. O relatório salientou uma declaração feita pelo ministro da Defesa, Moshe Yaalon, dias após o início da guerra: "Se os problemas do Hamas tivessem sido abordados alguns meses atrás, o Hamas poderia ter evitado a atual escalada".

A população de Gaza hoje sofre muito mais que antes da irrupção de 2014. Mais uma vez, as três partes responsáveis pelo bloqueio que causa esses problemas --Israel, Egito e a Autoridade Palestina-- estão trazendo para mais perto a próxima guerra.

A violência de 2014 foi precipitada por uma mudança na política egípcia: ao tomar o poder em julho de 2013, o presidente Abdel Fattah el-Sisi fechou a única fronteira de seu país que cruzava com Gaza por longos períodos e fechou quase todos os túneis por onde se contrabandeavam combustível e outros produtos que o governo de Gaza taxava.

Sem receita, o governo liderado pelo Hamas não podia se sustentar. Em desespero, o Hamas aceitou delegar a responsabilidade administrativa ao governo da Autoridade Palestina, que era dominado pelo partido rival, Fatah.

Mas o novo governo pouco mudou para os gazenses: os funcionários públicos continuaram sem receber salário, a maioria dos moradores estava presa dentro do território e passava a metade dos dias sem eletricidade. Uma nova guerra --que levaria, como em novembro de 2012, a um novo acordo de cessar-fogo que abrandasse as restrições a Gaza-- era considerada a única saída.

Hoje é a Autoridade Palestina que piora os problemas de Gaza. Nos últimos meses, a Autoridade condicionou o suprimento de combustível à Faixa ao pagamento de um alto imposto; cortou severamente o pagamento de empregados da Autoridade Palestina em Gaza; reduziu os pagamentos a Israel pelo fornecimento de eletricidade a Gaza; evitou que grande número de pacientes recebessem tratamento fora do território; obrigou milhares de funcionários do governo de Gaza à aposentadoria precoce; proibiu que os bancos de Gaza transferissem pagamentos ao Egito para obter combustível para a única usina de energia da Faixa; e ameaçou cortar as pensões de cerca de 80 mil famílias.

O resultado foi uma catástrofe humanitária. Gaza está à beira do colapso. A eletricidade está em falta, a água é imprópria para consumo e esgoto está sendo despejado no mar. Pacientes que tiveram negada a transferência de Gaza morreram.

A crise despertou alguns analistas e políticos israelenses para o risco crescente de um novo conflito. No final de abril, Giora Eiland, um assessor nacional de segurança do ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, advertiu que a Autoridade Palestina "está forçando o Hamas a tomar a única opção que ele tem, que é abrir fogo contra Israel e atrair novamente a atenção da comunidade internacional".

Ele acrescentou: "A AP quer tornar a situação em Gaza o pior possível para que a Fatah tenha êxito contra o Hamas, por isso as populações de Israel e de Gaza vão pagar o preço pelo jogo político cínico da AP".

Mas a Autoridade Palestina não é a única, ou mesmo a principal, parte a se culpar. A verdadeira base dos problemas de Gaza está em medidas israelenses e egípcias para isolar Gaza, assim como na decisão de Israel e da comunidade internacional de manter a ficção de que a Autoridade Palestina controla o território e deveria ter o direito de taxar seus produtos e receber e administrar sua ajuda.

Durante dez anos, Israel e a maioria da comunidade internacional tentaram enfraquecer os governantes de Gaza fingindo que eles não existem. Israel coleta impostos sobre todos os produtos que envia a Gaza e transfere esse dinheiro à Autoridade Palestina, sabendo muito bem que a Autoridade gasta a maior parte dele não em serviços para Gaza, mas nos ex-funcionários da AP lá, que há uma década são pagos para ficar em casa, para prejudicar o governo liderado pelo Hamas.

Para compensar seus próprios empregados e cobrir seus custos operacionais, o governo de Gaza contou com impostos sobre os bens que passavam pelos túneis de contrabando no Sinai. Ao contrário dos bens que entram de Israel, estes não chegavam com etiquetas de preço infladas por impostos que iam para a Autoridade Palestina. Quando os túneis foram quase totalmente fechados pelo Egito em 2013, a quantidade de bens que entrava de Gaza vinda de Israel aumentou muito. Os moradores de Gaza agora tinham de pagar impostos em dobro sobre muitas importações --primeiro pela Autoridade Palestina, antes de os bens entrarem no território, depois pelo governo de Gaza.

Enquanto a troca para bens de Israel colocava um peso extra nas pessoas que moravam em Gaza, era uma vantagem para os cofres da Autoridade Palestina. Mas em vez de gastar mais na faixa a Autoridade começou a gastar menos, esperando pôr de joelhos um Hamas já enfraquecido.

Enquanto isso, a comunidade internacional ajudou a manter esse sistema injusto, recusando-se a se envolver com o governo de Gaza e dirigindo grande parte da ajuda orçamentária que era ostensivamente destinada à população de Gaza --aproximadamente 40% dos palestinos nos territórios ocupados-- à Autoridade Palestina.

Para estabilizar Gaza, o Egito começou a permitir a entrada de um pouco de combustível. Esse é um primeiro passo positivo. Mas muito mais precisa ser feito, principalmente uma mudança de sistema em que a população de Gaza seja taxada por um governo que não apenas não os representa como ativamente tenta prejudicá-los.

Isso pode ser alcançado de três maneiras. Primeiro, Israel --que se recusa a envolver-se com qualquer governo liderado pela Hamas-- poderia transferir receitas fiscais sobre bens oriundos de Gaza à população de Gaza, seja por um fundo com supervisão internacional ou usando as receitas fiscais para pagar por mais eletricidade.

Segundo, o Egito poderia exportar mais bens a Gaza, assim reduzindo a quantidade taxada por Israel e aumentando a quantidade taxada diretamente pelo governo de Gaza.

Terceiro, o Hamas poderia permitir a formação de um novo órgão administrativo em Gaza, liderado por uma figura não Hamas, e então Israel e a comunidade internacional poderiam se envolver com ela diretamente para melhorar a vida em Gaza e estabelecer um cessar-fogo duradouro.

A objeção de qualquer dessas opções em Ramallah --além do golpe ao orçamento da Autoridade Palestina-- é que eles aprofundariam a separação da Cisjordânia e da faixa de Gaza e anunciariam o fim do movimento nacional palestino. (A ironia de a Autoridade Palestina advertir contra a divisão enquanto sufoca Gaza parece não ser notada em Ramallah.)

Algumas pessoas em Gaza têm uma preocupação semelhante: que mudanças em seu status poderiam deixar o território ainda mais vulnerável se fosse necessário depender de uma única linha de suprimentos com o mundo externo passando pelo Egito, que poderia agir ainda mais duramente e com maior impunidade no caso de, por exemplo, outro ataque perto da fronteira de Gaza no Sinai.

Mas o medo de potenciais consequências não deve levar à perpetuação do dano e ao desrespeito à ameaça iminente. Em um futuro previsível, um novo conflito Gaza-Israel, e outro depois desse, são muito mais prováveis do que superar a rixa Cisjordânia-Gaza. A maneira mais fácil e sustentável de evitar esse futuro ainda mais catastrófico é que os bens consumidos por 2 milhões de pessoas em Gaza sejam taxados somente pelo governo que os serve.

* Nathan Thrall é analista sênior do Grupo Internacional de Crises. Autor de "The Only Language They Understand: Forcing Compromise in Israel and Palestine".

* Robert Blecher é assessor sênior e diretor de Oriente Médio e Norte da África no Grupo Internacional de Crises.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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