Análise: Como manter os guerrilheiros das Farc longe de combates

Oliver Kaplan e Enzo Nussio*

  • Jaime Saldarriaga/Reuters

    27.jun.2017 - Rebelde das Farc segura bandeira branca após abandono de armas em Mesetas, na Colômbia

    27.jun.2017 - Rebelde das Farc segura bandeira branca após abandono de armas em Mesetas, na Colômbia

A reintegração bem-sucedida de ex-combatentes pode oferecer lições para o mundo sobre como administrar os desafios pós-conflito e conseguir a paz

Após anos de negociações de paz tumultuadas, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) disseram adeus às armas em junho. O ato anuncia o fim de um conflito de 52 anos. Mas para a Colômbia romper de modo decisivo com seu passado, ela precisa ser inteligente em sua abordagem para reintegração dos combatentes das Farc à sociedade.

A tarefa é intimidante: como impedir pessoas que lutaram por décadas de se rearmarem? Ajudar ex-combatentes continua sendo controverso, mas novas estratégias baseadas em evidência proporcionam motivo de esperança de que a reintegração possa ser bem-sucedida apesar dos desafios.

A formação dos membros das Farc apresenta o primeiro obstáculo. Na condição de ideólogos comunistas com laços com a narcoeconomia, muitos de seus membros foram recrutados quando crianças de famílias pobres rurais, e foram guerrilheiros por tanto tempo que não conhecem outra vida. A maioria teve pouca educação formal e não está acostumada à vida civil.

Os aproximadamente 7.000 combatentes do grupo estão na espera em 26 campos rurais. Os suspeitos de crimes de guerra estão aguardando por seus casos serem tratados pelos tribunais de transição. A maioria dos soldados rasos recebeu anistia e pôde deixar os campos neste mês.

O processo tem sido lento. Os campos para os rebeldes durante a transição não ficaram prontos a tempo. Procedimentos para aceleração da aprovação de legislação no Congresso foram barrados pelo tribunal constitucional, emperrando leis para reforma agrária, participação política e uma comissão da verdade.

Também ocorreu obstrução por parte da oposição política, que sente que o acordo restringe a justiça e punição aos ex-rebeldes. Ela mobilizou protestos e apoio político contra o acordo no Congresso. Pesquisas mostram que a maioria dos colombianos sente que o processo está no caminho errado.

Enquanto isso, outro grupo rebelde, o Exército de Libertação Nacional (ELN), continua ativo, apesar de engajado em suas próprias negociações de paz. Líderes e ativistas sociais que pedem por restituição de terras e direitos humanos foram alvo de violência por grupos criminosos neoparamilitares. Essa tendência preocupante revive as lembranças de tentativas anteriores de transição das Farc para a política, nos anos 1980 e 1990, quando milhares de membros do partido União Patriótica esquerdista associado foram assassinados.

O desarmamento das Farc mostra que o governo e os rebeldes estão comprometidos com o acordo de paz. As Nações Unidas aprovaram recentemente uma missão para monitorar a reintegração, e a Agência de Reincorporação e Normalização da Colômbia ajuda os combatentes recém-desmobilizados a retornar à vida civil.

Apesar de o número de casos potenciais poder parecer substancial, ele é pequeno em comparação aos mais de 50 mil combatentes que a agência já reintegrou ao longo dos últimos 14 anos. Segundo o acordo, as Farc terão a opção de se tornarem um partido político.

AFP PHOTO /Prensa Bloque Sur FARC
31.jan.2017 - Guerrilheiros das Farc chegam a local de desmobilização, em Las Carmelitas, Putumayo (Colômbia)


Mesmo assim, já há dissidência entre seis "frentes" ou unidades das Farc nas regiões de cultivo de coca, e alguns combatentes renunciaram o acordo de paz. Há poucas semanas, uma das frentes dissidentes bombardeou uma patrulha militar, ferindo dois soldados e quatro civis.

Se o passado servir como referência, as estimativas a partir de desmobilizações anteriores de grupos armados na Colômbia indicam uma taxa de reincidência de 15% a 20% ao longo de cinco anos.

Nossa pesquisa sobre a reintegração de ex-combatentes guerrilheiros e paramilitares da Colômbia fornece orientação. Nós analisamos dados de levantamentos e registros de prisão, assim como conduzimos entrevistas para identificar os fatores associados à reincidência dos combatentes, aqueles que retornaram a atividades criminosas ou beligerantes.

Para tornar a vida como cidadãos cumpridores da lei mais atraente para os ex-rebeldes, o governo e parceiros internacionais devem adotar uma abordagem de três pontas para auxiliá-los.

Primeiro, a assistência precisa tratar das necessidades individuais, particularmente em áreas rurais subdesenvolvidas que foram negligenciadas pelo Estado. Nós descobrimos que programas de educação podem ajudar a reduzir a reincidência. Um ex-combatente que entrevistamos de uma desmobilização anterior afirmou o valor duradouro da educação diante do período limitado do programa de reintegração: "Se concluir meus estudos, sempre terei isso. Poderei me virar, encontrar um emprego, melhorar minha qualidade de vida".

Por sua vez, os combatentes que se juntaram aos rebeldes por motivos como vingança ou busca por aventura representam casos mais difíceis do que aqueles que se juntaram por razões ideológicas.

Os homens apresentam maior inclinação a reincidência do que as mulheres, já que suas noções de masculinidade podem estar vinculadas a suas identidades como combatentes. Como a desmobilização de mulheres pode enfrentar dificuldades diferentes, cuidados psicossociais devem tratar das necessidades específicas de gênero.

Segundo, a reintegração é um assunto familiar. Nós descobrimos que ter filhos e boas relações com familiares são âncoras que mantêm os ex-combatentes do lado certo da lei. Como outro ex-combatente que entrevistamos disse: "Eu tenho uma filha e ela me dá muitos motivos para não voltar ao crime". Um sinal positivo é um boom de bebês acontecendo nos campos; antes, ter filhos era tabu para os combatentes.

Terceiro, as comunidades têm um papel crucial a exercer. O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e outras autoridades enfatizam que "os territórios" localizados nas áreas rurais serão o ponto zero para implantação do acordo de paz.

Nós descobrimos que os ex-combatentes participam mais e se saem melhor em comunidades que apresentam laços sociais fortes. Apoio às comunidades e vítimas, por exemplo, na forma de assistência para desenvolvimento e criação de organizações sociais, pode ser um caminho eficaz e justo, apesar de indireto, de auxílio aos ex-combatentes. As comunidades, por sua vez, podem encorajar a reconciliação local e recebê-los para participarem de reuniões e atividades, desde partidas de futebol a obras públicas comunais.

O abraçar da paz pela Colômbia é um ponto brilhante em uma região atormentada por violência. Uma reintegração bem-sucedida pode aumentar a confiança da população no processo de paz, oferecendo lições ao mundo sobre como administrar problemas pós-conflitos. Os próximos meses dirão se as vítimas e aqueles que travaram a guerra podem virar uma nova página na história do país.

*Oliver Kaplan, um professor assistente da Escola Josef Korbel de Estudos Internacionais da Universidade de Denver e membro sênior do Instituto da Paz dos Estados Unidos, é autor de "Resisting War: How Communities Protect Themselves", ou "Resistindo à guerra: como as comunidades protegem a si mesmas", em tradução livre, não lançado no Brasil. Enzo Nussio é pesquisador sênior do Centro para Estudos de Segurança do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique


 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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