Vamos encarar a realidade: os mísseis nucleares da Coreia do Norte podem alcançar os EUA

Jeffrey Lewis*

  • KCNA/Reuters

    26.jun.2016 - O ditador norte-coreano Kim Jong-un acena para público durante uma sessão de fotos com oficiais envolvidos com sucesso do lançamento do míssil Hwasong-10

    26.jun.2016 - O ditador norte-coreano Kim Jong-un acena para público durante uma sessão de fotos com oficiais envolvidos com sucesso do lançamento do míssil Hwasong-10

Precisamos viver com uma nova realidade nuclear, em vez de tentar fechar os olhos e fingir que não é real

Parecia impossível imaginar que o regime comunista mais pobre e retrógrado da Ásia, comandado por um maluco e em recuperação de um episódio arrasador de fome, fosse começar a construir um míssil de longo alcance que conseguisse levar uma arma nuclear até os Estados Unidos. No entanto, a China de Mao Tsé-tung conseguiu.

Em 1964, assim como hoje, os americanos tinham dificuldades de aceitar a nova realidade de sua vulnerabilidade. Os americanos demoraram para perceber que a China estava prestes a testar uma arma nuclear naquele ano, e depois se surpreenderam ao descobrir que Pequim não estava disposta a se contentar somente com mísseis de curto alcance que pudessem atingir vizinhos como o Japão.

O escopo da ambição de Mao —desenvolver uma arma termonuclear que pudesse atingir os Estados Unidos— não se encaixava com as ideias pré-concebidas que os americanos tinham da China. Então, coletivamente, não acreditamos naquilo.

Ao longo dos anos, a Coreia do Norte fez todos os esforços possíveis para indicar que, assim como a China de Mao, ela estava determinada a desenvolver um míssil balístico de alcance intercontinental nuclear. A partir de 2014, a Coreia do Norte começou a testar mísseis em um ritmo muito mais acelerado do que antes. Kim Jong-un, o líder do país, começou a visitar fábricas da indústria de defesa em todo o Norte, exibindo instalações recém-construídas e as novas máquinas-ferramentas dentro delas.

A Coreia do Norte começou a divulgar fotos cada vez mais explícitas de seu programa de mísseis, inclusive alguns dos novos motores de foguetes e testes do veículo que protegeria uma arma nuclear quando ele fizesse sua reentrada na atmosfera.

A Coreia do Norte não foi modesta. Ela exibiu novos tipos de mísseis balísticos intercontinentais em desfiles nos anos de 2012, 2013 e 2015. Em março de 2013, a mídia estatal norte-coreana divulgou fotos de Kim aprovando um plano de ataques nucleares, ilustrado com um gráfico dos Estados Unidos intitulado "Plano de Ataque ao Continente".

Vários alvos foram identificados, incluindo San Diego, na Califórnia, onde a Frota do Pacífico está baseada; a Base da Força Aérea de Barksdale na Louisiana, onde o Comando de Ataque Global da Força Aérea fica localizado, e Washington. Em 2016, Kim posou com uma esfera brilhante, descrita como uma ogiva nuclear norte-coreana, colocada ao lado de um míssil balístico intercontinental, ou MBIC.

Depois de cada uma dessas exibições, a primeira pergunta que qualquer repórter me fazia era, "Que mensagem você acha que os norte-coreanos estão tentando passar?"

A partir deste ano, a Coreia do Norte ficou ainda mais explícita. No primeiro dia do ano, Kim disse que seu país havia concluído os preparativos para testar um MBIC.

Em abril, Pyongyang celebrou o aniversário do falecido fundador da Coreia do Norte Kim Il-sung com um desfile militar onde exibiu uma série de novos mísseis, bem como dois tipos diferentes de cilindros de mísseis que pareciam projetados para MBICs nunca vistos antes.

No início de julho, a mídia da Coreia do Norte comentou sobre a distância até a cidade de Nova York, alertando que o teste de um míssil que conseguisse alcançá-la "não estava muito longe".

A resposta coletiva dos Estados Unidos à perspectiva de testes de MBIC norte-coreanos foi resumida na frase final de um post no Twitter, no início de janeiro, do presidente eleito Donald Trump: "Não vai acontecer!"

E agora aconteceu. Duas vezes. O teste mais recente, no dia 28 de julho, provavelmente não será o último.

Ao longo dos últimos anos, os americanos tentaram seguidamente enganar a si mesmos: a China resolverá essa história para nós. Podemos usar ciber-ataques para hackear os mísseis norte-coreanos. Podemos abater os mísseis de teste. Os mísseis são de mentira, ou são pequenos demais para levar uma carga nuclear. Cientistas norte-coreanos encontrarão algum tipo de problema, possivelmente com guiagem de mísseis ou na reentrada, que os deteria.

Todos esses foram exemplos de excesso de otimismo.

Entenda o programa de mísseis norte-coreano


Nunca foi inconcebível que a Coreia do Norte desenvolvesse uma arma nuclear e a colocasse em um míssil. Isso está longe de ser uma tecnologia nova. Embora somente alguns poucos países tenham construído MBICs, isso se deve ao fato de que somente poucos países sentiram a necessidade de deter ameaças do resto do mundo. Tanto a União Soviética quanto a China conseguiram criar sofisticados programas de foguetes embora tenham ficado para trás do Ocidente em outros setores. Alguns dos testes iniciais norte-coreanos inevitavelmente falharam, mas nunca houve motivos para pensar que fracassos impediriam a Coreia do Norte, quando não impediram outros.

 

Por que não vimos os alertas? Suspeito que o principal problema seja que não sabemos o que fazer. Nossas representações da Coreia do Norte muitas vezes são caricaturas de belicosidade e de atraso. Políticos e editorialistas americanos ainda falam em usar a força para derrubar Kim, como se ele fosse um Saddam Hussein do Iraque em 2003 e não um líder com um arsenal nuclear.

A realidade é que os Estados Unidos agora estão vulneráveis aos mísseis nucleares da Coreia do Norte, e não têm outra escolha a não ser viver com essa realidade. Tentar desarmar uma Coreia do Norte com armas nucleares seria loucura, mesmo que alguns políticos achem esse fato emasculante demais para reconhecer. Como admitir nossa vulnerabilidade é uma humilhação, simplesmente fechamos os olhos e fingimos que não é real.

Os Estados Unidos fizeram algo parecido após o primeiro teste nuclear da China. Os americanos chamaram repetidamente a bomba da China de "dispositivo"—um eufemismo criado na época por Tom Lehrer, o grande satirista da Guerra Fria—e argumentavam que não havia indícios de que a China pudesse acoplá-lo em um míssil balístico.

O ceticismo não era diferente do ceticismo que algumas autoridades e especialistas expressam sobre a Coreia do Norte hoje. A resposta chinesa foi alterar seu cronograma de testes nucleares. Em 1966, os chineses colocaram uma arma nuclear em um míssil balístico, e o disparou atravessando o país até o local de testes da China no deserto ocidental, onde ele explodiu com uma força superior a 10 kilotons. Depois disso, os Estados Unidos pararam de subestimar as armas nucleares da China.

Vamos esperar que não chegue a esse ponto com a Coreia do Norte.

*Jeffrey Lewis (@ArmsControlWonk) é diretor do programa de não-proliferação do Leste Asiático no Middlebury Center of International Studies em Monterey, na Califórnia, e colunista da "Foreign Policy"

Tradutor: UOL

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