Opinião: Por que a Rússia é um dos atores mais imprevisíveis do mundo?

Maxim Trudolyubov

Em Moscou (Rússia)

  • Alexey Nikolsky/ Sputnik/ AFP

    O presidente russo Vladimir Putin toma banho de sol durante suas férias na região de Tuva, Sibéria, no começo de agosto

    O presidente russo Vladimir Putin toma banho de sol durante suas férias na região de Tuva, Sibéria, no começo de agosto

Em uma rara decisão bipartidária, o Congresso dos EUA aprovou a intensificação das sanções contra a Rússia, e o presidente Donald Trump assinou a lei. Mesmo antes que o líder americano encostasse a caneta no papel, na semana passada, o presidente russo, Vladimir Putin, disparou de volta exigindo a retirada de centenas de americanos e russos das missões diplomáticas americanas na Rússia.

Putin tinha visto os EUA transformarem uma lista já dolorosa de sanções de um decreto presidencial facilmente reversível em uma lei que seria quase impossível abolir em curto prazo --um triste resultado de uma política que o Kremlin adotou na esperança de levantar totalmente as sanções.

Na verdade, Moscou tinha cancelado uma ameaça anterior de resposta simétrica em 2016, quando o presidente Barack Obama atualizou as sanções em reação a indícios de que hackers russos teriam interferido na eleição americana para ajudar Trump. Com a Presidência Trump prestes a começar, Putin esperava uma possível melhora na relação russo-americana. Mas agora a única fonte concebível dessas esperanças, o próprio Trump, não está correspondendo.

Portanto, a debacle deixou Putin sem opção além da retaliação. Na quarta-feira (2), o Kremlin abrandou um pouco o impacto, dizendo que não retaliaria além das medidas já anunciadas. Mas isso ainda deixava um paradoxo: as mãos de Trump na condução de uma política para a Rússia agora estavam atadas pelo Congresso, mas Putin estava livre para experimentar.

É claro, os EUA podem infligir mais problemas econômicos à Rússia do que o contrário. Mas a experiência recente mostra que a Rússia não deixa que os fracassos a perturbem. Em vez disso, costuma usar uma criatividade nascida do desespero, mais que a aceitação de estar presa em um beco sem saída em política externa.

Outra maneira de dizer isso é que o Kremlin toma medidas políticas drásticas quando forçada por um prazo. Instigado pelo momento, Putin sempre encontra uma nova façanha para realizar.

Anexar a Crimeia em março de 2014 foi uma dessas medidas. A debacle na época foi o colapso da coalizão política apoiada pela Rússia que tinha governado a Ucrânia desde meados dos anos 2000. O Kremlin vinha aumentando a pressão sobre o então presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych, que depois só encontrou mais resistência dos ucranianos, e finalmente a deposição.

Um motivo para o comportamento do Kremlin pode ter sido sua forte crença de que qualquer movimento popular tem potencial de "grau de armas" --uma visão que retratava a resistência ucraniana a Yanukovych como um ato de guerra política global, com o Ocidente manipulando os ucranianos contra Moscou.

A reação do Kremlin foi reveladora. Ele não tentou construir pontes com a sociedade ucraniana ou seu novo governo. Em outras palavras, Putin não estava tanto dirigindo sua resposta aos ucranianos, quanto respondendo a um desafio estratégico do "Ocidente". Sua medida se destinava a dar um golpe em uma arquitetura de segurança patrocinada pelo Ocidente na Europa, e a seu fiador e duplo porta-estandarte, os EUA.

Na Síria também Moscou vem reagindo não tanto ao pequeno país dividido, quanto ao Ocidente. Esse é o movimento de um combativo grão-mestre da geopolítica, não apenas um novo ator que entra atrasado em um drama regional. Em 2015 estava ficando claro que a política da Rússia para a Síria estava falhando: o regime de seu aliado, Bashar al Assad, estava à beira do colapso. Segundo o pensamento do Kremlin, não eram as políticas de Moscou que estavam falhando; eram os EUA e seus aliados que estavam preparando outra debacle como a Líbia --o assassinato de um governante secular que abriria as comportas para todo tipo de novas forças perigosas.

Putin há muito se opunha às políticas intervencionistas ocidentais e explicava muitas das crises políticas do mundo como operações de mudança de regime patrocinadas pelo Ocidente. Portanto, uma derrubada de seu aliado teria sido uma derrota pessoal para sua visão de mundo. É por isso que a intervenção militar russa na Síria, a partir de setembro de 2015, do ponto de vista de Moscou, não foi sobre a Síria propriamente; foi e é sobre a oposição da Rússia ao Ocidente. Enquanto os EUA tentam lidar com a Rússia de um para um, a Rússia se vê lidando com uma conspiração global liderada por Washington.

As sanções aprovadas na semana passada são uma nova debacle comensurável com os fracassos das antigas políticas da Rússia para a Ucrânia ou a Síria, ambas as quais Moscou mitigou de certa forma com retornos de surpresa que humilharam o Ocidente.

Mas desta vez o impasse tem mais princípios e, aos olhos dos americanos, está muito mais perto de casa. Moscou é acusada de tentar interferir ou influenciar não apenas um bando de computadores, mas o próprio Executivo dos EUA. Eu continuo sendo um agnóstico quanto a se o Kremlin realmente tentou intervir no grosso do processo eleitoral dos EUA, mas há pouca dúvida de que Moscou investiu pesado no resultado das eleições de 2016.

Hillary Clinton era vista em Moscou como a iniciadora de uma tentativa de usar as eleições parlamentares russas de 2011 para derrubar o regime de Putin. O que quer que Moscou estivesse fazendo para perturbar a eleição americana era, na visão de Moscou, uma retaliação --a coisa habitual que uma potência mundial que se respeite faria com conspiradores estrangeiros.

Uma conversa recente de que participei esclareceu essas questões e deu, pelo menos em minha mente, uma certa perspectiva histórica à visão de Putin. Com o historiador Timothy Snyder, autor de "On Tyranny: Twenty Lessons From the Twentieth Century" [Sobre tirania: vinte lições do século 20], discutíamos as sensibilidades políticas e econômicas dos governantes soviéticos quando estavam dominando as sociedades da Europa Central e do Leste depois da Segunda Guerra Mundial.

Snyder colocou desta forma, referindo-se à polícia política soviética: "Quando a NKVD chega ao leste da Polônia, a essência de seus relatórios a Moscou é algo como: 'Encontramos alguns polacos, e encontramos alguns ucranianos, e eles participam da mesma conspiração, eles são dirigidos pelo capitalismo internacional, estão recebendo ordens dos britânicos'. Mas isso era totalmente incorreto. Os britânicos não estavam no comando, os polacos e ucranianos lutavam entre si, os vários grupos que a NKVD encontra tinham objetivos diferentes e geralmente incompatíveis.

"Mas o mais importante", continuou Snyder, "é que a ideologia dá à NKVD certeza sobre o que eles veem e confiança no que eles irão fazer, que é penetrar e destruir todos esses grupos. Portanto, você pode estar totalmente errado e ser eficiente."

Com a ideologia formal morta há muito tempo, talvez nunca saibamos exatamente que teorias o Kremlin adota hoje, mas podemos ter certeza de que ele tem plena confiança em suas suposições. Na verdade, Putin talvez esteja certo sobre muitas coisas. As relações internacionais não são um lugar para moralistas. Muitos projetos políticos, empresariais e militares têm alcance global e são competitivos por natureza.

Mas o problema desse tipo de abordagem, em sua variedade do Kremlin, é que ela parece comparar a concorrência internacional com uma luta darwiniana pela sobrevivência.

A própria audácia das medidas de Moscou deve ser impelida pela sensação de uma ameaça existencial. Muitos países competem por dominação em mercados específicos e por influência política, mas a Rússia é diferente no fato de que parece lutar pela sobrevivência em situações que mais ninguém considera existenciais.

Para mim, isso serve de explicação sobre por que Moscou muitas vezes se destaca como um dos atores mais imprevisíveis do mundo. Os custos são pagos principalmente pela população russa e, obliquamente, pela maioria dos outros países, especialmente os vizinhos da Rússia, porque o preço da constante incerteza são gastos militares punitivamente caros e ameaças crescentes à paz e prosperidade.

*Maxim Trudolyubov é editor convidado da revista de negócios "Vedomosti", em Moscou, e editor do blog The Russia File, publicado pelo Kennan Institute, em Washington.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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