PUBLICIDADE
Topo

Opinião: EUA está colocando mulheres afegãs em risco ao forçar igualdade de gênero

A primeira mulher piloto do Afeganistão, Niloofar Rahmani, em um avião da força aérea afegã, em Cabul - 	Shah Marai/AFP
A primeira mulher piloto do Afeganistão, Niloofar Rahmani, em um avião da força aérea afegã, em Cabul Imagem: Shah Marai/AFP

Sophia Jones

Em Cabul (Afeganistão)

27/11/2017 00h01

Os Estados Unidos estão pressionando para que mulheres ingressem nas forças de segurança afegãs, sem lhes fornecer apoio. Ao fazê-lo, eles as colocam em risco.

Sentada de pernas cruzadas no chão de um apartamento esparsamente decorado em Cabul, a mulher jovem e alegre me contou por que mente para seus vizinhos.

Quando perguntam, como sempre fazem, ela lhes diz que é uma enfermeira. Ela sai de casa em trajes civis e veste seu uniforme apenas quando está na base. Esta mulher afegã na faixa dos 20 anos, que pediu para que seu nome não fosse usado para sua segurança, faz parte de um pequeno grupo corajoso de mulheres servindo nas forças de segurança afegãs. Se seus vizinhos descobrirem, ela diz, eles certamente a matariam.

Dezesseis anos depois do início da controversa guerra liderada pelos Estados Unidos no Afeganistão, uma guerra rotulada em parte como uma missão para libertar as mulheres afegãs, os americanos estão despejando milhões de dólares visando aumentar a presença de mulheres na polícia, no exército e em outras divisões das forças de segurança.

No último ano fiscal, os Estados Unidos adicionaram ao orçamento US$ 93,5 milhões para ajudar a aumentar o recrutamento de mulheres e apoiá-las com instalações adequadas, treinamento e equipamento.

É uma causa digna: pesquisa mostra que uma maior presença de mulheres nas forças de segurança, de modo geral, significa sociedades mais estáveis. E no Afeganistão em particular, um país onde as mulheres e meninas ainda são rotineiramente mortas por "ofensas" tão pequenas quanto recusar um pedido de casamento, a ideia de apoiar medidas que visam aumentar a igualdade de gênero parece ser óbvia.

Mas como demonstra o medo da jovem mulher, aumentar o número de mulheres nas forças de segurança em um país como o Afeganistão não é uma simples questão de números. Por meio de suas políticas de contratação, os Estados Unidos estão tentando fabricar uma igualdade de gênero de cima para baixo.

Ao fazê-lo, estão pedindo que as mulheres sirvam como a linha de frente de mudança, um papel que vem acompanhado de grandes riscos, com frequência sem fornecer proteção e apoio adequados.

Neste mês, os afegãos expressaram seu repúdio e fúria nas redes sociais devido a um vídeo explícito no qual uma mulher na força aérea afegã é pressionada a fazer sexo com um coronel quando ela lhe pediu uma promoção. As mulheres nas forças de segurança enfrentam rotineiramente assédio sexual, me disseram na semana passada mulheres que integram a força aérea.

Se quiserem manter suas posições, elas quase nunca podem recusar, e aquele coronel, em particular, era conhecido por seu comportamento predatório. Nesse caso, entretanto, a mulher, de forma notável, gravou furtivamente seu encontro e vazou pessoalmente o vídeo, apesar de se erguer contra o assédio poder resultar em ameaças de morte.

Em dezembro, Niloofar Rahmani, a primeira mulher afegã piloto desde que o Taleban foi removido do poder, pediu asilo ao final de seu treinamento na força aérea nos Estados Unidos. Rahmani ganhou notoriedade no Afeganistão e no exterior após a circulação de fotos a mostrando no trabalho em um macacão ao estilo dos aviadores de "Top Gun".

Em seguida, ela disse que começou a receber ameaças, não apenas de extremistas, mas também de sua família estendida e de colegas das forças de seguranças. A reação em casa ao seu pedido de asilo também tem sido feia: oficiais militares afegãos atacaram Rahmani como sendo uma mentirosa e traidora, pedindo a Washington para que rejeite o pedido dela.

Mas ela não é a única. Várias recrutas afegãs que passaram por treinamento conjunto nos Estados Unidos abandonaram seus postos, segundo o Inspetor Geral Especial dos Estados Unidos para a Reconstrução do Afeganistão.

Pelo menos algumas pediram asilo após receberem ameaças do Taleban, de outros insurgentes em casa e de colegas que se ressentem com a presença delas e espalham rumores para manchar suas reputações.

Os esforços americanos de recrutamento são marcados por um ponto de vista distante focado em números, mas que carece de um entendimento das realidades para as mulheres afegãs em solo: muitas famílias temem permitir que suas filhas se alistem, cientes das noções culturais de que mulheres nas forças de segurança são "libertinas", por trabalharem tão estreitamente com homens.

Basta um rumor falso para que um colega ou vizinho mine a carreira da mulher, ou para que até mesmo custe a vida dela.

Não se trata das mulheres não quererem servir, diz a advogada americana Kimberley Motley, que representa Rahmani. São as condições que tornam a situação insustentável. "É uma falácia dizer, 'Ora, as mulheres não querem se alistar'", ela disse.

Após trabalhar no Afeganistão por mais de nove anos, disse Motley, ela conhece "muitas, muitas mulheres que desejam lutar pelo seu país, mas cujo acesso é negado". Oficiais do sexo masculino rejeitam propositalmente recrutas do sexo feminino ou se recusam a promovê-las, a menos que aceitem fazer sexo com eles.

Às vezes, essa perspectiva ausente também leva a mais descuidos cotidianos. Em uma recente viagem para reportagem no Afeganistão, eu fiquei chocada (e fisicamente em apuros) ao descobrir que os banheiros femininos são poucos e distantes nas bases militares afegãs, escritórios e delegacias de polícia. (Isso apesar dos US$ 79,4 milhões em fundos americanos destinados desde 2014 para a construção de banheiros e outras instalações para recrutas do sexo feminino.)

Em um país profundamente conservador como o Afeganistão, um lugar seguro para usar o vaso sanitário e vestir o uniforme pode fazer uma enorme diferença entre uma mulher aceitar um emprego nas forças de segurança ou não.

Em meio a tudo isso, não deveria causar surpresa que as forças ocidentais também estejam ficando aquém nos números. Em 2010, o Afeganistão, trabalhando estreitamente com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental), estabeleceu a meta de contar com pelo menos 10% de mulheres nas forças de segurança afegãs até 2020. Isso ainda está muito longe de acontecer. (Na época, as mulheres representavam cerca de 0,2% do Exército Nacional Afegão e 0,9% da força policial.)

Ao final de 2015, essa meta foi revisada, prolongando o prazo e descartando o percentual: 5.000 mulheres no exército e 10 mil mulheres na força policial até 2025, segundo um relatório do Departamento de Defesa ao Congresso.

No momento, as mulheres correspondem a apenas 1,4% dos que servem em todas as forças de segurança do Afeganistão, aproximadamente 4.500 mulheres. (No futuro, o número de mulheres afegãs servindo permanecerá confidencial, devido à recente decisão das forças armadas dos Estados Unidos de manterem esses números em sigilo.)

A noção de libertação das mulheres do Afeganistão há muito é um tema da guerra afegã. "A luta contra o terrorismo também é a luta pelos direitos e dignidade das mulheres", disse Laura Bush, a então primeira-dama, em um discurso por rádio em novembro de 2001 na Casa Branca, um mês após a invasão americana.

Em agosto deste ano, o presidente Donald Trump teria feito planos para aumento do número de tropas americanas no Afeganistão em milhares, após seu conselheiro de segurança nacional, o general de exército H.R. McMaster, ter lhe mostrado uma foto de uma mulher vestindo minissaia em Cabul por volta de 1972.

Mas e se as mulheres afegãs não precisarem de resgate? E se, em vez disso, o que precisarem é que os Estados Unidos deem mais atenção ao apoio a elas enquanto elas reconstroem seu próprio país?

Os Estados Unidos devem a essas mulheres, que arriscam suas vidas todo dia para defesa dos interesses afegãos e americanos, não apenas um esforço por uma maior igualdade de gênero, mas fazê-lo sabiamente. Alguém no poder deveria se sentar com elas e perguntar: como os Estados Unidos podem ajudá-las a ajudar o Afeganistão?

*Sophia Jones é editora sênior do Projeto Fuller. A reportagem dela no Afeganistão foi apoiada pelo Centro Europeu de Jornalismo.

Tradutor: George El Khouri Andolfato