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Opinião: As políticas de Trump em relação ao México têm sido menos severas do que o temido

"Dreamers", jovens que foram levados ao EUA ilegalmente na infância, protestam contra Trump na fronteira com México em Sunland Park, nos Estados Unidos - Jose Luis Gonzalez/Reuters
"Dreamers", jovens que foram levados ao EUA ilegalmente na infância, protestam contra Trump na fronteira com México em Sunland Park, nos Estados Unidos Imagem: Jose Luis Gonzalez/Reuters

Ioan Grillo

Em San Jerónimo Coyula (México)*

31/01/2018 00h02

Esta cidade maltrapilha aos pés do fumegante vulcão Popocatépetl é uma das comunidades no México com laços profundos com os Estados Unidos. Desde os anos 80, milhares de seus moradores rumaram para o que chamam de "El Norte", particularmente para a cidade de Nova York e para os Hamptons de Long Island. Por décadas, os emigrantes misturaram cimento, assentaram tijolos e pintaram paredes das grandes casas de lá.

Muitas famílias daqui dependem das remessas de dinheiro enviadas por parentes que emigraram para o norte para compra de medicamentos para os velhos e livros escolares para as crianças. Familiares nos Estados Unidos usam sua renda para ajudar a financiar um festival gratuito na cidade todo mês de setembro.

Sem causar surpresa, quando perguntei a uma dúzia de pessoas na praça da rua principal o que pensavam a respeito do presidente Donald Trump, todas elas tinham opiniões negativas. "Trump é um hipócrita. Ele emprega os mexicanos em suas construções e então nos ataca", disse Humberto Ramos, um homem atarracado de 40 anos com manchas de cimento em seu macacão. "Os mexicanos são aqueles que trabalham mais duro ali. Nós ajudamos a construir o país."

Mas apesar da linguagem de Trump enfurecer os moradores aqui, seu primeiro ano no poder não os afetou tanto quanto temiam. Os emigrantes ainda enviam dinheiro para casa. Na verdade, acredita-se que o ano passado tenha registrado um recorde de remessas de dinheiro, com o Banco Central do México estimando que os mexicanos que vivem nos Estados Unidos tenham enviado para casa US$ 26,1 bilhões apenas entre janeiro e novembro. Nenhum tijolo foi assentado para a construção do prometido "muro bonito" de Trump. E o comércio total entre os dois países continua crescendo.

"Havia muito medo e pânico, mas as coisas realmente não mudaram para a maioria das pessoas", disse Eric González, um eletricista de 35 anos carregando uma mochila cheia de ferramentas. González trabalhou em Long Island por nove anos, mas voltou para casa em 2009 para abrir um negócio e cuidar de seus pais idosos. Ele ainda tem quatro irmãos e uma irmã trabalhando em Nova York e enviando dinheiro para casa.

"Os ataques foram mais psicológicos", ele disse. "As pessoas veem as histórias no noticiário e ficam assustadas. Mas é preciso olhar para o quadro maior."

Essa diferença entre retórica e realidade reflete o relacionamento profundamente enraizado entre os Estados Unidos e o México, assim como a agenda confusa do governo Trump. Durante sua campanha, Trump prometeu desferir um golpe triplo contra o México: construir um muro e fazer o México pagar por ele; deportar até 3 milhões de imigrantes e mudar ou abandonar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês). O efeito combinado poderia ter lançado o México em uma profunda recessão ao lidar com milhões de deportados e uma crise diplomática com a potência militar Nº1 do mundo.

Passado um ano de sua presidência, esse cenário apocalíptico não se concretizou. Trump continua atacando o México pelo Twitter. "O Muro será pago, direta ou indiretamente, ou por meio de um reembolso de longo prazo, pelo México", ele escreveu em 18 de janeiro. Mas não há plano para extrair esse dinheiro enquanto ele tem dificuldade em conseguir com que o Congresso pague pelo início da obra.

Dentro dos Estados Unidos, as políticas contra os imigrantes são sentidas de forma mais aguda. A remoção da proteção aos "Dreamers", aqueles que imigraram quando eram crianças, deixa centenas de milhares temendo pelo seu futuro. Agentes do Serviço de Fiscalização de Imigração e Alfândega têm revistado ônibus à procura de imigrantes ilegais nas lojas de conveniência 7-Eleven. Reportagens sobre deportações dividindo famílias são exibidas regularmente na televisão.

Mas o número total de deportações também pinta um quadro com mais nuances. No ano fiscal de 2017, os Estados Unidos enviaram de volta para casa cerca de 226 mil pessoas, menos do que em qualquer ano sob o presidente Barack Obama. Uma explicação provável para a queda é que, sob Trump, os agentes da Patrulha de Fronteira pegaram menos pessoas tentando entrar no país. Em vez disso, as autoridades de imigração se concentraram nos imigrantes que já viviam nos Estados Unidos, deportando 81 mil em 2017. Esse número representa mais deportações do interior do país do que em 2016 e 2015, mas menos do que em qualquer outro ano da presidência de Obama.

É claro, as consequências da posição de Trump em relação ao México e aos imigrantes ainda podem se concretizar. As negociações em torno do Nafta prosseguem e Trump continua prometendo que se retirará do acordo caso não consiga o que deseja. As autoridades de imigração continuam criando novos pretextos para enviar para casa pessoas em um número muito maior. A deportação de centenas de milhares de jovens que cresceram nos Estados Unidos seria um desastre humanitário.

Mas os padrões de imigração também podem mudar independente do que Trump faça. A emigração mexicana vinha caindo antes mesmo de Trump lançar sua campanha. O Centro Pew de Pesquisa estimou em abril do ano passado que o número de mexicanos vivendo ilegalmente nos Estados Unidos caiu de 6,4 milhões em 2009 para 5,6 milhões em 2016.

Vários fatores, incluindo mudança demográfica no México, podem ter se somado para causar essa queda. O número médio de crianças por família aqui tem caído acentuadamente, o que significa que há menos pessoas na força de trabalho e menos pressão sobre os pais para sustento da família.

Enquanto González, o eletricista, era um entre oito irmãos, ele mesmo tem apenas um filho. Ele ganha 250 pesos, ou cerca de US$ 13 (cerca de R$ 42,50), por dia no México, menos que o salário por hora de US$ 17 (cerca de R$ 54) que ganhava pintando casas em Long Island. Mas enquanto olhávamos para o elevado vulcão Popo, ele me disse não ter planos de voltar para o norte. "Sou meu próprio chefe aqui, quero construir meu próprio negócio", ele me disse. "E este é um lugar bonito para se estar."

*Ioan Grillo é autor de "Gangster Warlords: Drug Dollars, Killing Fields and the New Politics of Latin America", ou "Senhores da guerra gângsteres: dólares das drogas, campos de extermínio e as novas políticas da América Latina", em tradução livre, ainda não lançado no Brasil.

Tradutor: George El Khouri Andolfato