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Opinião: Nacionalismo no Leste Europeu quer apagar memória do holocausto judaico

25.nov.2010 - Shimon Peres (na frente), ex-presidente de Israel, e Avigdor Lieberman, ministro da Defesa de Israel, colocam pedras em monumento do holocausto em Babi Yar, na Ucrânia - Genya Savilov/AFP
25.nov.2010 - Shimon Peres (na frente), ex-presidente de Israel, e Avigdor Lieberman, ministro da Defesa de Israel, colocam pedras em monumento do holocausto em Babi Yar, na Ucrânia Imagem: Genya Savilov/AFP

Lev Golinkin*

31/01/2018 00h01

Um dos grandes choques que tive ao chegar aos EUA, vindo da Ucrânia, nos anos 1980, foi saber que no país havia museus em comemoração ao Holocausto.

Nós, judeus soviéticos, não montamos exposições bem cuidadas — nós passávamos pelos campos da morte nazistas a caminho do mercado. O Leste Europeu está cheio de valas que contêm os ossos de milhões de pessoas que, em vez de ser deportadas para os campos de concentração, eram massacradas no local.

Três vezes amaldiçoados são os judeus mortos no antigo bloco comunista: alvejados por tiros nos arredores de suas aldeias e cidades, ignorados e esquecidos pela União Soviética, e agora seus assassinos glorificados pelo ressurgimento do nacionalismo nos atuais governos do Leste Europeu.

A lembrança do Holocausto representava uma ameaça para a ditadura ateia do Kremlin, que não tolerava monumentos não sancionados, casas de oração ou qualquer local que pudesse se tornar um potencial foco de organização étnica e religiosa; além disso, admitir as raízes étnicas do genocídio certamente atrairia a atenção para o antissemitismo da própria União Soviética. Em consequência, os lugares do Holocausto ficaram sem identificação e sem luto. 

As valas onde escolares distraídos brincavam de dia e bêbados se esparramavam à noite assombravam os judeus soviéticos, lembrando-nos de nossa impotência sob o regime comunista. "Von tam" ("Aqui"), os pais judeus murmuravam para os filhos em russo, enquanto mostravam discretamente buracos cobertos de lixo como Babi Yar em Kiev e Drobitsky Yar em minha cidade natal, Kharkiv. "Von tam" era um rito de passagem, como um bar mitzvah, na terra onde os rabinos tinham sido enviados a gulags e as sinagogas foram reformadas como centros da juventude comunista, a Komsomol.

Mesmo depois de ser obrigado a enfrentar seu silêncio pelo poema seminal de Yevgeny Yevtushenko "Babi Yar", de 1961, o Kremlin se recusou a reconhecer plenamente o Holocausto. Em vez de ignorar os judeus mortos, Moscou os recrutou para os mitos soviéticos da Grande Guerra Patriótica, como foi conhecida a Segunda Guerra Mundial. Placas inconspícuas mencionando "vítimas soviéticas da agressão nazista" foram colocadas em alguns lugares maiores, onde se uniram aos milhares de placas e memoriais em todos os cantos da União Soviética. A KGB continuou monitorando as valas em busca de sinais de oração organizada, e os judeus soviéticos continuaram limitados a sussurros.

Somente no final dos anos 1980, com o afrouxamento das restrições na "glasnost" de Mikhail Gorbatchev, o Holocausto começou a aparecer na imprensa soviética. Em 4 de outubro de 1991, dois meses antes do colapso da União Soviética, um monumento às vítimas judias foi erguido em Kiev. "Hoje em Babi Yar os espíritos descansarão", proclamou o título de "The New York Times" sobre a cerimônia inaugural. E foi o que aconteceu. Por algum tempo.

Os nazistas não agiram sozinhos. O Holocausto, especialmente no leste da Europa, foi possibilitado com a ajuda de governos locais e paramilitares, que reuniam e massacravam judeus, às vezes a serviço dos nazistas, às vezes por vontade própria.

Hoje esses colaboradores — grupos e indivíduos responsáveis pela morte de centenas de milhares de judeus — estão sendo glorificados e reabilitados como parte do ultra nacionalismo que cresce em toda a Europa do leste. Os nacionalistas tentam se reunir em torno de homens que lutaram pela independência contra a Rússia e a Alemanha; infelizmente, as figuras da Segunda Guerra Mundial escolhidas manifestaram sua visão de independência assassinando judeus. 

Em 1947, Josef Tito, um padre eslovaco e colaborador dos nazistas, foi enforcado por crimes contra a humanidade por ter deportado judeus eslovacos. Hoje ele é celebrado com desfiles e memoriais em toda a Eslováquia. Marchas comemorando as unidades locais das SS percorrem as capitais bálticas. Com festivais, desfiles e nomes de ruas, a Ucrânia tem glorificado os paramilitares responsáveis por assassinar milhares de judeus. A Hungria e a Croácia estão ocultando os crimes de seus governos colaboracionistas da Segunda Guerra Mundial. A Lituânia chegou a apresentar acusações criminais contra resistentes judeus que lutaram contra colaboradores nazistas. 

Os países do Leste Europeu hoje estão, à sua maneira, seguindo as pegadas do Kremlin ao repintar os colaboradores nazistas como "colegas vítimas" e "combatentes da liberdade", enquanto desculpam seu antissemitismo e sua participação no Holocausto. Especialmente condenáveis são medidas recentes adotadas por alguns governos, que imitam os soviéticos ao reforçar a narrativa oficial do Estado usando censura e ameaça de prisão. 

Em 2015, a Ucrânia aprovou leis que tornavam ofensa criminal negar a natureza heroica de dois paramilitares da Segunda Guerra Mundial. No início deste mês, Kiev ganhou manchetes ao proibir "Stalingrado", um livro premiado de Antony Beevor, um aclamado historiador britânico, por causa de um único parágrafo que menciona uma unidade ucraniana que matou crianças judias. O partido governante da Polônia, o Justiça e Lei, propôs legislação que torna ilegal acusar poloneses de participação no Holocausto, e visou os autores e jornalistas que ousam dizer o contrário. Mais uma vez, os judeus do Leste Europeu podem enfrentar perseguição e censura por lembrarem de sua chacina.

Durante a Guerra Fria, com os judeus do Leste Europeu incapacitados pelas ditaduras comunistas, a comunidade judaica americana esteve na vanguarda da memória do Holocausto. Uma das revelações mais tocantes que tive nos EUA foi saber que em 1982, quando Babi  Yar ainda não tinha placas comemorando os judeus mortos, os americanos tinham construído um memorial ao Babi  Yar em Denver. Hoje, porém, a comunidade judaica americana — incluindo legisladores judeus em Washington — é amplamente silenciosa sobre a distorção generalizada do Holocausto realizada por seus aliados no leste da Europa.

Romper esse silêncio é imperativo, especialmente diante da atual ascensão global do antissemitismo e da perturbadora correlação entre o revisionismo do Holocausto e a violência contra os judeus vivos. Os judeus americanos já estão despertando para a negação do Holocausto nas redes sociais e a vandalização de museus do Holocausto. Eles não devem esquecer de olhar para os campos da morte nazistas no Leste Europeu, onde antigas batalhas ainda são travadas e os mortos perpetuamente inconvenientes não podem ter descanso.

*Lev Golinkin é o autor da memória “A Backpack, a Bear and Eight Crates of Vodka” [Uma mochila, um urso e oito caixas de vodca].

 

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves