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Opinião: Putin coloca tropa de jovens no poder para assegurar continuidade do regime

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Ivan Krastev

02/04/2018 00h01

A eleição presidencial na Rússia resultou em uma vitória impressionante, ainda que nada surpreendente, de Vladimir Putin. Ele foi eleito para um quarto mandato com uma margem ampla e um alto índice de participação, em uma votação que pareceu ser a mais limpa da história recente da Rússia (pelo menos no que diz respeito ao que aconteceu no próprio dia da eleição).

Mas essa eleição era algo mais do que simplesmente reinstalar Putin no Kremlin. Ela assinalava o começo de uma Rússia pós-Putin. Embora o presidente tenha obtido apoio popular por medidas como a anexação da Crimeia e a confrontação com o Ocidente, a legitimidade de seu próximo mandato será determinada pelo sucesso que ele consiga ter em tranquilizar o russo comum de que seu regime durará mesmo quando ele não estiver mais no Kremlin.

O papel de Putin no imaginário público russo hoje é similar ao dos líderes da libertação nacional pós-colonial dos anos 1960 e 1970. Ele é visto como o fundador de um novo Estado russo, o salvador da dignidade da Rússia e restaurador de seu status como grande potência. E contrariando o que o Ocidente gosta de imaginar, os russos com menos de 25 anos estão entre seus maiores simpatizantes.

Eles não só votam em Putin, como muitos deles querem ser como ele. Setenta e seis por cento dos jovens entre 18 e 30 anos consideram o trabalho nos serviços de segurança como “muito prestigioso”, ante os 59% entre pessoas acima de 60 anos. Como observaram os analistas Andrei Kolesnikov e Denis Volkov, entre a população russa “não há nenhum debate a respeito de Putin”.

“Quase ninguém questiona sua legitimidade como presidente”, eles escreveram em um relatório recentemente para o Carnegie Moscow Center. “Ele é uma constante, é o retrato na parede que não pode mais ser tirado”.

A questão é o que acontecerá com aqueles cujos retratos não estão na parede. No final de 2011, a revista “Russian Reporter” publicou um estudo sobre a elite da Rússia que revelava que o mais importante indicador de participação do círculo da elite (os 300 cargos mais importantes do governo) era ter conhecido Putin antes de ele se tornar presidente. Em suma, um círculo de amigos tem governado a Rússia nos últimos 18 anos.

Não há nenhum sinal de que o presidente esteja planejando tirar o poder desse círculo de amigos. Mas está claro que ele pretende abrir o sistema para nomes de fora que sejam leais, em especial os jovens, para aumentar suas chances de sobrevivência. Ele está disposto a oferecer à sociedade mudanças geracionais no lugar de mudanças políticas.

Quando pensa nos anos que vêm pela frente, Putin, ao contrário de Boris Yeltsin, não pensa em termos de um sucessor, mas sim em termos de uma geração sucessora. Ele prevê uma transferência de poder de sua geração para a “geração Putin”, constituída de políticos que cresceram durante seu governo e foram moldados por ele. Esse processo já começou: ao longo dos vários meses que antecederam a eleição, nove jovens políticos foram nomeados governadores regionais.

Ele espera que essa geração preserve sua maior conquista, que foi o ressurgimento da Rússia como grande potência, capaz e determinada a resistir aos Estados Unidos. Para Putin, uma política externa independente não é um instrumento, mas sim um objetivo em si.

Essa nova tropa inclui jovens tecnocratas com diferentes formações e experiências, mas uma coisa em comum: eles são leais ao regime ao mesmo tempo em que têm ciência de suas deficiências. Eles se veem como gerenciadores de crise mais do que líderes visionários. Eles confiam na tecnologia e desconfiam da política. Eles sabem como executar as instruções de Putin, mas não como discordar do presidente.

Sergei Kiriyenko, o atual vice-chefe de gabinete da presidência que, em 1998, aos 36 anos de idade, foi primeiro-ministro no governo de Yeltsin e um exemplo de jovem reformista liberal, é quem os orienta. Nesse sentido, o contraste entre os jovens reformistas de Yeltsin do final dos anos 1990 e os jovens tecnocratas de Putin de hoje é notável.

Os reformistas de Yeltsin tinham um perfil político claro: eles eram liberais, pró-Ocidente, e agiam como uma equipe, apoiando-se mutuamente. Eles tinham ambições políticas e se viam como uma força política à parte de sua conexão com o Kremlin. Já os jovens tecnocratas de Putin são especialistas em logística sem nenhuma convicção política identificável ou lealdade a qualquer eleitorado.

Até recentemente, após cada eleição na Rússia, a questão que se levantava era quem prevaleceria no Kremlin: os modernizadores de estilo ocidental ou os radicais anti-Ocidente? Essa questão não é mais relevante.

O fato de falar inglês, ter se formado em Harvard ou ter trabalhado para alguma grande empresa ocidental não diz muito mais sobre as visões políticas dos futuros líderes da Rússia. A geração Putin de tecnocratas pode ter estilo ocidental, mas não é pró-Ocidente.

A mudança geracional na realidade russa que está vindo nos diz pouco sobre o futuro do regime, porque o presidente Putin é seu ponto mais forte, mas também sua maior vulnerabilidade. Ele domina o cenário político a ponto de promover ao topo somente pessoas com ambições moderadas que saibam como trabalhar para o presidente de forma eficaz, mas que não poderiam ser o presidente.

A ironia é que Putin está colocando esses novos tecnocratas no poder como uma alternativa à sua tentativa fracassada de reinstalar o atual primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, como seu sucessor. Mas na realidade a geração Putin é só um Medvedev coletivo. E no que diz respeito a como será a Rússia pós-Putin, o presidente está de volta onde ele estava quando colocou Medvedev no Kremlin e então decidiu voltar ao seu antigo cargo.

*Ivan Krastev é presidente do Center for Liberal Strategies, membro permanente do Instituto de Ciências Humanas em Viena e autor de “After Europe.”