Topo

Opinião: Gaza é zona de calamidade pública e vítima do sionismo

Mohammed Abed/AFP
Palestino durante protesto na faixa de Gaza Imagem: Mohammed Abed/AFP
Exclusivo para assinantes UOL

Gideon Levy*

Em Tel Aviv (Israel)

24/04/2018 00h01

Em algum momento no meio dos anos 1990, eu dei adeus à faixa de Gaza. Dominado pela grande ilusão, doce e vertiginosa, que foram os acordos de paz de Oslo em 1993, eu tinha certeza de que Gaza estava prestes a ser libertada da ocupação de Israel. O destino daquela faixa de terra era muito importante para mim. Havia quase 700 mil refugiados palestinos ali na época, muitos deles já na segunda e terceira geração. A maioria vivia em acampamentos, em condições vergonhosas.

Duas décadas mais tarde, Gaza se encontra ainda pior. O número de refugiados quase que dobrou, chegando a 1,3 milhão, de uma população total de quase 1,9 milhão. Seus moradores têm ainda menos liberdade. Na verdade, eles têm estado sob bloqueio de Israel, com ajuda do Egito, desde que o grupo militante Hamas assumiu o poder em 2007. O desemprego atingiu números apavorantes: mais de 46% entre a população geral no final de 2017, e perto de 65% entre pessoas com menos de 30 anos. Israel continua a aumentar seu controle, construindo um muro subterrâneo no solo arenoso para bloquear túneis escavados pelo Hamas.

Na última sexta-feira (30), assim como nas três sextas-feiras anteriores, milhares de habitantes de Gaza enfrentaram centenas de soldados israelenses do outro lado da cerca. A expectativa é de que eles se reúnam novamente para mais protestos toda sexta-feira até 15 de maio, dia que marca o que os palestinos chamam de “nakba” ou catástrofe: a criação do Estado de Israel em 1948, que significou a perda de centenas de vilarejos e povoados palestinos.

Os manifestantes de Gaza, a maioria deles de mãos vazias, usam roupas baratas e esfarrapadas. Atrás deles, há ambulâncias palestinas, esperando pelas próximas vítimas. Alguns manifestantes seguram pneus, prontos para serem queimados; outros seguram espelhos, na esperança de cegar temporariamente os soldados de um dos exércitos mais fortes e mais bem equipados do mundo, do outro lado.

Israel, sendo Israel, está empregando uma força desenfreada contra uma população indefesa. Dezenas de atiradores de elite, com o apoio de tanques, disparam balas de verdade contra os manifestantes, cujas únicas armas são seus próprios corpos, além de, talvez, um pneu ou um espelho. Israel sempre agiu assim em Gaza, porque pode; a Cisjordânia, em comparação, parece uma ilha de moderação e esclarecimento. E a maioria dos israelenses, aparentemente, não dá a mínima.

Pois Gaza é a filha menos importante da ocupação israelense, e também a filha menos importante do mundo. Gaza fica longe dos locais sagrados, longe dos hotéis elegantes e dos bares da moda de Jerusalém e Ramallah, e longe também da pouca atenção que o mundo ainda dá ao problema palestino. Israel usa essa distância de forma eficaz. Embora tenha saído de Gaza, sua ocupação não parou. Os carcereiros que antes trabalhavam dentro da prisão, agora operam fora dela, o que de qualquer forma é mais confortável para eles.

Ibraheem Abu/Reuters
Homem carrega pneus durante protestos de palestinos na faixa de Gaza Imagem: Ibraheem Abu/Reuters

O governo israelense aumentou seus abusos depois que o Hamas assumiu controle da faixa de Gaza em junho de 2007. Para ele, nada poderia ser melhor que a ascensão do Hamas: ninguém esperaria que ele negociasse com esses fundamentalistas. O resto do mundo boicotou qualquer negociação com eles, embora por razões não totalmente claras. Ele fala com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, e com o presidente Hassan Rouhani do Irã, mas não fala com Ismail Haniya, líder político do Hamas.

Então Israel pode tudo em Gaza. E transformou o território em seu campo de treinamento, um laboratório gigante para avaliar as reações de quase 2 milhões de pessoas que mantém sitiadas ali, e para testar suas armas inovadoras, bem como os limites do que o mundo deixará que ele faça.

Essa prática começou com as operações de retaliação da Unidade 101 nos anos 1950, em represália pelos ataques terroristas palestinos. E continuou durante a breve ocupação de Gaza em 1956, durante o que Israel chama de Campanha do Sinai (ou Crise de Suez), e voltou durante os primeiros dias de ocupação após 1967, quando Ariel Sharon, na época um comandante de exército, tornando-se depois primeiro-ministro, criou esquadrões da morte em Gaza.

Ahmad Gharabli/AFP
Protesto palestino na faixa de Gaza Imagem: Ahmad Gharabli/AFP

Não é coincidência que a Primeira Intifada tenha começado em Gaza em 1987. E não é coincidência que Israel tenha embarcado em três truculentas ofensivas militares ali ao longo da última década, matando milhares de pessoas, ferindo dezenas de milhares, deixando centenas de milhares sem casa e semeando uma ruína inacreditável. Isso não teria sido possível na Cisjordânia, nem que seja porque já existem assentamentos judaicos demais ali, adjacentes a vilarejos palestinos.

O caso paradigmático foi a Operação Chumbo Fundido. Em pouco mais de três semanas em dezembro de 2008 e janeiro de 2009, de acordo com a Biblioteca Virtual Judaica, Israel matou 1.434 palestinos em Gaza, muitos deles desarmados, em comparação com 14 israelenses, a maioria deles soldados, mortos por palestinos. A proporção é terrível: cerca de 100 para 1.

O mundo foi posto à prova nessa ocasião. Se ele tivesse tomado providências substanciais contra Israel, talvez o país não tivesse se atrevido a ser tão brutal novamente. Uma investigação da ONU conhecida como Relatório Goldstone culpou com veemência Israel (e um pouco o Hamas). Ainda assim, Israel ignorou as palavras ocas e entendeu que não teria de pagar nada, nem mesmo por atos suspeitos de serem crimes de guerra ou crimes contra a humanidade.

Apenas três anos depois, em novembro de 2012, ele embarcou na Operação Pilar Defensivo, que foi relativamente contida. Mas dois anos depois disso veio a Operação Borda de Proteção, o mais brutal dos ataques contra Gaza, que matou mais de 2.200 palestinos.

O cerco de uma década a Gaza é uma punição coletiva sem paralelos. Os métodos de Israel, desproporcionais pelo direito internacional, são cuidadosamente planejados e considerados. A certa altura, os militares justificaram as restrições sobre as importações de alimentos para Gaza ao calcularem o número de calorias diárias de que uma pessoa ali precisava para sobreviver.

Não é de se espantar que as condições de vida só tenham piorado ao longo dos anos. Gisha, uma organização de direitos humanos israelense, estima que o número de palestinos que tiveram permissão de deixar Gaza, inclusive para tratamento médico, foi em média menor que 6 mil por mês no ano passado, menos da metade da média mensal para 2016 ou 2015. Um relatório da ONU já alertava em 2012 que Gaza estaria inabitável até 2020, e que as coisas só pioraram nesse meio tempo.

Mas o destino desses quase 2 milhões de seres humanos que estão sendo forçados a viver em uma grande jaula --a maioria deles jovens sem passado, presente ou futuro-- basicamente por causa das políticas desumanas de Israel, não parece afetar a consciência do país. Os israelenses vivem em negação; eles mal falam sobre Gaza. Boa parte da mídia local, traindo sua missão, praticamente não cobre a vida na região: não importa o que aconteça, Gaza é caracterizada simplesmente como um antro de terrorismo e uma constante ameaça à nossa segurança. “Vai para Gaza!” é um xingamento comum em hebraico.

Após o fracasso da reunião de cúpula de Camp David em julho de 2000, e depois a Segunda Intifada em 2000-2005, muitos israelenses perderam tanto a esperança de paz quanto o interesse pela tragédia palestina. Israel deu uma guinada para a direita, para o nacionalismo e até mesmo para o racismo. No entanto, a verdade é que Gaza é uma zona de calamidade pública, e uma das maiores vítimas do sionismo.

*Gideon Levy é colunista do “Haaretz”. Este artigo foi traduzido do hebraico por Dena Shunra.