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Opinião: Presidente filipino diz combater corrupção, mas faz governo incompetente

O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, durante entrevista a jornalista - 9.fev.2018 - AFP
O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, durante entrevista a jornalista Imagem: 9.fev.2018 - AFP

Miguel Syjuco*

Em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos)

26/05/2018 00h01

Entre os filipinos que trabalham no Oriente Médio, a conversa gira inevitavelmente sobre seu país. Em encontros em corredores, nos ônibus, enquanto cortamos o cabelo, conversamos sobre nossas experiências comuns como expatriados com profundas ligações com a terra natal.

Milhões de filipinos em toda a região são respeitados por seu profissionalismo e trabalho de alta qualidade, enquanto nas Filipinas as oportunidades são escassas e os salários, baixos. Mas a corrupção sistêmica e a política de clientelismo em nosso país rico em recursos são vantajosas para nossos governantes e seus apoiadores.

De fato, a democracia nas Filipinas, com seu reinado de celebridades, dinastias e nepotismo, é o oposto de uma meritocracia. A incompetência é perdoada para quem demonstra fidelidade aos governantes, enquanto a fama e sua busca são mostradas como competência, o que sempre serviu bem aos poderosos. Apesar das promessas eleitorais do presidente Rodrigo Duterte, pouco mudou onde mais importa: nossa cultura política.

Uma recente confusão aqui no Oriente Médio resume bem o relacionamento transacional entre os políticos filipinos e os que trabalham para eles.

No mês passado, o governo do Kuwait cortou relações diplomáticas com as Filipinas depois que autoridades filipinas armaram uma operação unilateral encoberta nesse país para livrar trabalhadores que, segundo elas, sofreram abusos de seus patrões. Depois que o governo Duterte alegremente transformou o caso em um golpe de publicidade, os kuwaitianos acusaram as Filipinas de ação extrajudicial e violação de soberania, expulsando nosso embaixador e prendendo membros da embaixada.

Cerca de 260 mil filipinos ficaram no Kuwait sem representação de seu país. A seriedade disso não pode ser exagerada, diante do problema urgente de abuso a trabalhadores migrantes no Oriente Médio.

Apesar do estardalhaço do governo, nenhuma das autoridades filipinas envolvidas foi responsabilizada.

Uma delas foi Mocha Uson, uma blogueira que usou sua fama como dançarina sensual para conseguir o cargo de supervisora da rede social do presidente. Ela estava no Kuwait durante a operação e a divulgou para seu considerável público online, postando um vídeo que acabou insultando o governo kuwaitiano.

Nem ela nem Alan Peter Cayetano, o secretário das Relações Exteriores das Filipinas, pareceram pagar um preço pelo fiasco. Na verdade, o governo defendeu Cayetano, cuja fidelidade a Duterte, que foi seu companheiro de chapa na eleição de 2016, parece compensar sua falta de experiência diplomática. Ele foi encarregado de defender o presidente em público, negando denúncias de abusos aos direitos humanos em sua guerra às drogas que custou a vida de milhares de suspeitos, sem julgamento.

Essas relações transacionais são comuns em nossa cultura política ossificada, onde a responsabilidade geralmente é seletiva e sempre faz parte de uma estratégia.

Apesar de elogios dos apoiadores de Duterte por ele ter mandado embora dezenas de funcionários públicos, por violações que vão de incompetência, corrupção e tráfico de drogas, somente dois demitidos foram formalmente acusados de crimes. E o fato de o presidente demitir seus aliados de modo algum nega que, na maioria dos casos, foi ele quem os contratou.

Na verdade, vários foram renomeados para outros cargos, muitas vezes mais elevados, apesar da promessa de Duterte de não tolerar um "sopro" de corrupção. Entre esses, estava o chefe da alfândega, que esteve ligado ao contrabando de mais de uma tonelada de cristal de metanfetamina, em uma operação que supostamente envolveu o filho e o genro do presidente.

A recompensa é o outro lado da responsabilidade. Muitos dos nomeados políticos de Duterte são apoiadores que parecem ter recebido pagamento por feitos do agrado do presidente.

Membros dos voluntários contra o crime e a corrupção, por exemplo, receberam indicações de alto nível depois de suas ações contra figuras da oposição como a senadora Leila de Lima, que esteve presa por mais de um ano sob o depoimento dúbio de barões da droga condenados. Seus esforços também ajudaram a liderar a demissão da presidente da Suprema Corte, que enfureceu o governo com sua independência.

Ao dar poder a substitutos, Duterte se empodera usando as instituições cada vez mais cúmplices da democracia, dando a suas aspirações autoritárias um verniz de legitimidade.

Seus aliados já controlam o Congresso, com a grande maioria que lhe foi dada depois de sua vitória presidencial quando deputados trocaram de lado em massa para aderir a seu partido. E eleições para milhares de cargos locais em todo o país na semana passada foram adiadas por quase dois anos enquanto o governo buscava espaço de manobra, alegando a necessidade de expurgar os candidatos que segundo eles eram financiados pelas drogas.

Embora a agilidade de uma ditadura competente e benévola possa atrair a muitos filipinos, especialmente os milhões que viveram em Singapura e no Oriente Médio, o regime Duterte provou não ser competente nem benevolente. Seu estilo ostentatório foi copiado por seus asseclas de maneira desajeitada. Algumas pesquisas de opinião recentes mostram quedas na aprovação de seu governo.

Mas para os mercenários isso não importa muito. Iniciativas de relações públicas de seus representantes levam à notoriedade, a cargos políticos, a uma vida de conforto e controle desde que seus padrinhos estejam instalados em cargos.

O que podem fazer os cidadãos, então?

A menos que resistamos a esses esforços nos mantendo firmes ao exigir prestação de contas de todos os funcionários públicos, continuaremos sendo governados pelos que trocam serviço por servilismo e obtêm direitos em troca de obediência.

O presidente, apesar de toda a sua postura de homem de origens humildes e suas promessas de mudança, é o filho de um governador e o patriarca de uma dinastia que mantém o poder por meio de favores e administra a justiça arbitrariamente. Duterte pode às vezes parecer atípico entre os governantes filipinos, mas nesse sentido ele é típico.

Não admira que tantos filipinos continuem procurando no exterior uma vida com segurança e possibilidade de atuação.

Outro dia, aqui em Abu Dhabi, o filipino que cortava meu cabelo me falou sobre a política em sua cidade natal. Todo mundo sabe que os políticos são corruptos, explicou ele, mas é desculpável porque pelo menos eles trabalham para a comunidade.

"Eles sempre vêm às nossas 'fiestas'", disse ele, encolhendo os ombros. "E nos dão dinheiro para podermos fazê-las."

*Miguel Syjuco é um editorialista colaborador, autor do romance "Ilustrado" e professor na Universidade de Nova York em Abu Dhabi.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves