Pesquisadores já testam mais de 20 vacinas contra o HIV

Steve Sternberg

Sandra Wearins teve que reunir toda a sua coragem para oferecer os braços à enfermeira que se preparava para vaciná-la. Wearins, de 43 anos, sempre teve medo de agulhas. Mas a agulha na bandeja não era a única coisa que a apavorava.

De fato, essa não era uma vacina comum. O composto contém milhões de vírus mutantes que receberam genes do HIV, o agente causador da Aids.

Werins recebeu uma dose em cada braço. Mas tarde, ela deve voltar para receber doses de reforço. A vacina experimental, fabricada pela Aventis Pasteur, chama-se ALVAC CP-1452. Ela é uma das vacinas contra a Aids mais promissoras que atualmente está sendo testada em voluntários humanos.

Mas ela não é a única. Quase 20 protótipos estão sendo testados em seres humanos, e outras estão vindo por aí. Pela primeira vez em anos, os esforços para se encontrar uma vacina eficiente contra a Aids estão ganhando força, estimulados pelos novos projetos patrocinados pelo governo, firmas de biotecnologia, organizações sem fins lucrativos e pela indústria farmacêutica.

Todas as vacinas experimentais são feitas com proteínas e genes do HIV, e não com o vírus completo, o que seria muito arriscado. Embora a maior parte dos protótipos esteja nos estágios iniciais de testes, vários pesquisadores que buscam a vacina contra o HIV estão, pela primeira vez em muitos anos, confiantes de que cedo ou tarde vão derrotar o vírus.

Na quinta-feira, vários desses pesquisadores, especialistas em saúde pública, representantes da indústria farmacêutica e ministros da Saúde de nações duramente afetadas pela doença se reuniram na Filadélfia para o congresso Aids Vaccine 2001, o primeiro de uma série de encontros cujo objetivo é acelerar a realização de testes em grande escala com as novas vacinas.

"Atingimos uma fase acelerada nas pesquisas, não só com relação ao que estamos fazendo, mas também com respeito ao que pode ser feito", diz Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e de Doenças Infecciosas.

Até mesmo um Congresso dividido reconhece a importância de se desenvolver vacinas contra a Aids, disse Fauci no seu discurso de abertura. No ano que vem, os legisladores vão destinar US$ 357 milhões (R$ 922,5 milhões) para esse tipo de pesquisa, um aumento de 27% em relação à verba total deste ano.

Se as coisas saírem como esperam os pesquisadores, centenas de milhares de pessoas como Wearins, nos Estados Unidos e em outros países, vão arregaçar as mangas para receber a picada da agulha a fim de determinar se uma vacina será capaz de derrotar o vírus mortal.

O que está em jogo é algo de muito sério. Em apenas duas décadas o HIV foi responsável pela morte de 22 milhões de pessoas e, atualmente, ameaça a vida de mais 36 milhões de indivíduos, a maioria dos quais vive em países que não têm condições de arcar com os preços de tratamentos caros. O único meio de combater a crescente epidemia é o fortalecimento do sistema imunológico para impedir a infecção - ou, caso essa estratégia não funcione, manter o vírus sob controle.

Vários voluntários de testes clínicos vão receber vacinas mais novas do que a versão administrada a Wearins. A Alvac, que atualmente passa pela segunda fase dos testes para determinar a sua segurança e a habilidade em ativar o sistema imunológico, logo será submetida ao teste de eficácia. Várias outras vacinas experimentais estão atualmente sendo avaliadas pela primeira vez para determinar se são seguras. O ato de se oferecer como voluntário para testar uma nova vacina requer um tipo especial de coragem.

"Eu sempre imagino um herói como sendo uma pessoa comum em circunstâncias extraordinárias que faz aquilo que necessita ser feito", afirma Mary Allen, enfermeira e agente de ligação com a comunidade, que trabalha na Rede de Testes da Vacina contra o HIV do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid, na sigla em inglês). "É como heróis que eu vejo os voluntários que testam a vacina. Eles estão dando aquele primeiro passo ousado, concordando em ser vacinados com algo que nunca foi testado antes em seres humanos".

A tarefa de Wearin é conseguir voluntários locais. Wearins, diretora de educação comunitária do Instituto de Virologia Humana da Universidade de Maryland, se ofereceu como voluntária em fevereiro deste ano, a fim de conseguir mais apoio para os testes com as vacinas em Baltimore. Uma antiga educadora de saúde que antigamente costumava limpar as mãos na camisa após cumprimentar pacientes com Aids, Wearins agora é uma militante veterana da luta contra a doença.

O trabalho no comitê de aconselhamento de vacinas contra a Aids do Instituto Nacional de Saúde fez com que ela se envolvesse mais no esforço pelo desenvolvimento das novas vacinas. Mas, primeiro ela teve que superar os seus próprios medos. "Quando fui recrutada para esta posição eu sabia que a primeira coisa que as pessoas me perguntariam seria se eu também era voluntária. Como é que eu poderia pedir a alguém para ser voluntário se eu própria não fosse?".

Conforme ela descobriu depois, as inoculações não eram a parte mais assustadora da experiência. A pior parte veio um dia após Wearins ter recebido sua primeira vacina, quando o seu sistema imunológico reagiu ao vírus. "Eu senti náusea, calafrios, febre e ansiedade. Fiquei na cama, tremendo, com dois cobertores, e a temperatura externa era de cerca de 30º centígrados. Pensei comigo, 'alguém cometeu um erro e injetou em mim o vírus HIV vivo'".

William Blattner, o supervisor do teste a tranqüilizou. "Isso é maravilhoso", disse ele. "O seu sistema imunológico respondeu muito bem". Em poucas horas o susto acabou.

Riscos únicos

Os testes com a vacina contra o HIV representam outros riscos para os participantes. "São vacinas que podem fazer com que você tenha um resultado positivo em um exame para determinar a presença do vírus", afirma Allen.

O estigma da Aids pode prejudicar até os participantes dos testes com as vacinas, segundo Don Francis, presidente e fundador da VaxGen, de Brisbane, Califórnia, cuja Aidsvax é apenas uma das vacinas que estão sendo testadas em todo o mundo. Para evitar o risco de vazamento de informações, a equipe de Francis aconselha cada um dos 5.400 voluntários nos Estados Unidos e Europa a "escolher cuidadosamente as pessoas que vão saber sobre o teste".

Desde que o Niaid iniciou testes limitados com as vacinas contra a Aids, há 14 anos, os voluntários receberam carteiras de identificação com fotos e um número telefônico para contato com a instituição através de ligação gratuita, para o caso de uma empresa ou um plano de saúde se deparar com um teste de resultado positivo e acreditar erroneamente que um voluntário está infectado com o HIV. Allen e um auxiliar verificam as mensagens na secretária eletrônica todos os dias. Ela diz que sempre conseguiu resolver todos os conflitos.

Nenhuma das vacinas experimentais possui o HIV vivo, segundo os pesquisadores, de forma que é impossível que os voluntários sejam infectados. As vacinas que estão sendo desenvolvidas no momento contêm proteínas e genes do HIV que produzem elementos do vírus. Porém, elas não possuem os componentes que permitem ao HIV se multiplicar. Testes sofisticados são capazes de distinguir entre a infecção e a resposta à vacina.

Uma equipe diversificada

Barney Graham, que dirige a unidade de testes com vacinas do Instituto Nacional de Saúde, os voluntários têm os mais variados estilos de vida. Eles recebem até US$ 50 (R$ 130) por consulta, para pagar pelo tempo tomado e pelo transporte.

"Algumas das pessoas que participam olham para seus filhos e pensam, 'será que posso tornar este mundo mais seguro para eles?'. Outros conheceram alguém que morreu de Aids e, embora não possam ressuscitar essa pessoa, gostariam de fazer algo que protegesse outros no futuro", diz Allen. "Trata-se de uma decisão muito pessoal".

As vacinas diferem umas das outras tanto quanto os voluntários que as testam. A Aidsvax é feita com proteínas purificadas da superfície do HIV. Até o momento, essa técnica tem estimulado o sistema imunológico a produzir anticorpos que podem impedir que o HIV infecte células, mas não as potentes células brancas do sangue, conhecida como células matadoras T, que combatem as infecções na corrente sanguínea.

A Aidvax é a única vacina contra a Aids que no momento está tendo a sua eficácia testada. Esses testes, realizados na América do Norte, na Europa e na Tailândia, envolvem cerca de oito mil voluntários. Se os resultados de dois anos de pesquisa, que devem ser divulgados neste outono, demonstrarem que a vacina protege somente 30% dos voluntários, o teste pode ser interrompido, e a VaxGen poderá se candidatar a receber aprovação do governo, baseada na capacidade da vacina em diminuir a velocidade da evolução da doença. Caso contrário, o teste continuará seguindo o seu curso, programado para durar três anos, e a aprovação vai depender dos resultados finais.

Uma outra vacina é a Alvac, feita através do preenchimento de um vírus, o canarypox, com genes do HIV que transformam o canarypox em uma fábrica de proteínas que correspondem a seis componentes do vírus da Aids.

Os pesquisadores utilizam vírus para levar HIV até a corrente sanguínea, porque desejam provocar uma resposta das células T. E essas células só são ativadas por células infectadas tais como o canarypox mutante. A Alvac demonstrou que essa abordagem funciona, produzindo uma grande quantidade de células T. A vacina está atualmente passando por testes de segurança nas Américas e na Tailândia. O Niaid e o Departamento de Defesa também começaram se preparam para testar a eficácia da Alvac em indivíduos nos Estados Unidos e na Tailândia. Outras vacinas que ora passam por testes de segurança são feitas de DNA que não foi injetado em vírus, proveniente de proteínas e genes de HIV, que são agregados a micróbios vivos, mas enfraquecidos.

Algumas vacinas serão testadas conjuntamente. Ninguém sabe qual das abordagens experimentais funcionará melhor, uma vacina isolada, ou a conjunção de duas vacinas. Não se sabe sequer se as vacinas terão qualquer efeito, segundo Susan Buchbinder, diretora de pesquisa com o HIV do Departamento de Saúde de São Francisco, e também do comitê que avalia a eficácia dos testes. Segundo ela, somente os testes em grande escala com seres humanos vão fornecer respostas.

"As pessoas dizem que os ratos mentem a maior parte do tempo, os macacos mentem algumas vezes e que os seres humanos nunca mentem", afirma Buchbinder. "Nós não saberemos o que funciona melhor até testar a vacina em seres humanos".


Tradução: Danilo Fonseca

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