Estrangeiros acham escolas norte-americanas fáceis

Fredreka Schouten

Washington, EUA -- Uma esmagadora maioria (85%) dos estudantes estrangeiros de programas de intercâmbio acha que as matérias das escolas de segundo grau dos Estados Unidos são mais fáceis do que aquelas dos seus países de origem, segundo uma pesquisa divulgada na segunda-feira (10).

Além disso, 56% dos adolescentes estrangeiros disseram que os estudantes norte-americanos passam menos tempo fazendo trabalhos escolares do que os estudantes de seus países. Os dados também ressaltam marcantes diferenças culturais: entre os estudantes de intercâmbio, 67,2% disseram que o sucesso nos esportes é mais importante nas escolas de segundo grau norte-americanas do que nas escolas de seus países, segundo a pesquisa realizada pelo Brown Center on Educational Policy, da Brookings Institution.

E, em um grande contraste com os adolescentes norte-americanos, 73% dos estudantes estrangeiros disseram que não trabalham enquanto estudam.

"Essas respostas podem ajudar a explicar porque os estudantes de segundo grau de vários países europeus e asiáticos se saem bem em testes de conhecimento acadêmico", diz Tom Loveless, diretor do Brown Center. "Em resumo, eles trabalham com mais afinco e se preocupam mais com o desempenho escolar".

Esses resultados aparecem poucos meses depois de um relatório federal ter descrito o terceiro ano do segundo grau como uma "oportunidade perdida" para os adolescentes norte-americanos, e uma pesquisa internacional haver demonstrado que as notas em matemática e ciência dos alunos norte-americanos da oitava série ficam bem abaixo daquelas dos estudantes de outras nações desenvolvidas.

"Isso é um reflexo do fato de não desafiarmos suficientemente os nossos alunos", afirma Christopher Cross, presidente do Conselho de Educação Básica, referindo-se aos resultados da pesquisa. "Não temos expectativas altas com relação aos nossos alunos, e não estabelecemos padrões mínimos de rendimento para eles".

Segundo William Schmidt, especialista em currículos de matemática e ciência, e professor da Universidade do Estado de Michigan, o que prevalece nas escolas de segundo grau norte-americanas é o que ele classifica de uma "mentalidade de shopping center". "Existem muito poucas matérias obrigatórias, e raros são os estudantes que fazem aquelas matérias que são obrigatórias em outros países".

Segundo Schmidt, a falta de rigor no currículo do segundo grau tem suas raízes na escola de primeiro grau, onde se passa muito tempo repetindo matérias como aritmética, enquanto que vários alunos da Ásia e da Europa progridem para tópicos mais complexos, como a álgebra.

"O ensino ginasial se constitui em uma devastação intelectual", afirma Schmidt. "Quando os nossos alunos chegam ao segundo grau, eles costumam estar atrasados dois anos em relação aos estudantes estrangeiros, que serão os seus concorrentes em um mundo cada vez mais dominado pelo saber tecnológico".

Outros dados revelados pela pesquisa:

- Quase 52% dos estudantes estrangeiros afirmaram que o aprendizado de matérias acadêmicas chave - matemática, ciência, literatura e história - é "muito importante" em seus países de origem. Mas só 22% acreditam que essas matérias são tidas como importantes por seus colegas norte-americanos.

- Mais de 68% dos estudantes estrangeiros disseram que os estudantes de seus países utilizam o segundo grau para se preparar para uma profissão, e cerca de 45% acreditam que a preparação para o trabalho é importante para os estudantes norte-americanos. Loveless afirma que isso pode indicar a crença dos estudantes norte-americanos de que vão receber treinamento profissional na faculdade.

- O dever de casa de matemática é passado com a mesma freqüência nos Estados Unidos e no exterior. Cerca de 47% dos estudantes de intercâmbio afirmaram receber deveres de casa de matemática todos os dias nas escolas norte-americanas, e cerca de 42% disseram que também recebem essa tarefa em seus países de origem.

A pesquisa realizada em abril e maio, envolvendo 368 estudantes, se constitui na primeira tentativa de examinar como os estudantes de intercâmbio avaliam a sua experiência nas escolas norte-americanas, de acordo com Loveless. A idade média dos estudantes entrevistados foi 17,3 anos. O Brown Center também está entrevistando adolescentes norte-americanos que estudaram no exterior para avaliar como eles vêem as escolas estrangeiras.

A margem de erro relativa a maior parte das perguntas que constaram da entrevista era de mais ou menos cinco pontos percentuais. Loveless diz que é necessário que se tenha cautela ao avaliar esses resultados, já que os estudantes entrevistados podem não representar a população estudantil de seus países. A maior parte dos estudantes de intercâmbio é composta de bons alunos fluentes em inglês que, provavelmente, são de uma classe social mais alta do que a maioria dos estudantes de seus países de origem.

Mesmo assim, a maior parte dos estudantes de intercâmbio freqüentou escolas norte-americanas acima da média.

Segundo Loveless, não se pode culpar os adolescentes norte-americanos pela falta de rigor em seus estudos ou pela sua preocupação com esportes. Os japoneses são tão loucos por beisebol quanto os norte-americanos, diz ele, "mas os adultos não permitem que os esportes se infiltrem tão profundamente nas escolas de segundo grau".

"A cultura adolescente está realmente nas mãos dos adultos. Nos Estados Unidos, os adultos estruturam as escolas de segundo grau de tal forma que o esporte é enfatizado. Os patrões norte-americanos empregam adolescentes para serviços de meio expediente", diz Loveless. "Precisamos pensar em fazer com que os adultos se responsabilizem por mudar essa situação".

Tradução: Danilo Fonseca

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