Juventude americana não será a mesma após ataques

Nanci Hellmich

Adolescentes e jovens com pouco mais de vinte anos de idade são geralmente vistos como pessoas mimadas e indiferentes, que não presenciaram grandes tragédias nacionais.

Eles não viveram a Guerra do Vietnã ou os assassinatos do presidente John F. Kennedy ou de Martin Luther King Jr. Pearl Harbor e a Segunda Guerra Mundial são eventos conhecidos apenas pelos livros de história. Porém tudo isto se tranformou na terça-feira, quando estes jovens presenciaram um dos dias mais sangrentos da história do país. Um dia que poderá ser decisivo para esta geração.

Muitos jovens perderam parte de sua sensação de segurança e inocência diante dos ataques terroristas contra o World Trade Center e o Pentágono, e agora eles lidam com seus próprios escombros emocionais.

Para Ashlie Borowski, 15, de Silver Spring, Md., a terça-feira foi um dos dias mais longos de sua vida. Seu pai trabalha no Pentágono, próximo à seção que foi atingida pelo avião. Ela ficou sem saber se ele havia sobrevivido até duas horas e meia após a colisão.

Ela telefonou para sua casa mas não encontrou ninguém. Sentiu medo, chorou, rezou.

"Foi uma coisa completamente surreal", afirmou Ashlie, que cursa o colegial na Connelly School em Potomac, Md. "Ninguém sabia o que havia acontecido. Ninguém explicava. Todo mundo estava muito, muito tenso".

O pai dela telefonou durante a tarde para avisar que estava salvo e voltou para sua casa, aonde foi abraçado pela família. Mas os acontecimentos impressionaram Ashlie. "Acho que eu nunca esquecerei o que aconteceu ontem".

Traumas

Kirk Cassels, 22, que frequenta o último ano do Skidmore College em Saratoga Springs, Nova York, ainda não teve notícias de seu melhor amigo, que trabalhava no 93º andar de uma das torres do World Trade Center.

"Isto muda a sensação de segurança e a esperança de todas as pessoas. Coisas como esta acontecem todos os dias em todas as partes do mundo. A gente fica pensando quando elas irão esquecer do ódio e da incompreensão que os leva a fazer a coisa errada".

Benn Goldschein, 16, que frequenta o Stuyvesant High School em Nova York, localizdo há poucos quarteirões das torres, disse que os ataques terroristas o transformaram para sempre. Ele estava a caminho da escola quando viu o primeiro avião colidir com uma das torres.

"Ouvi um estrondo violento. Dava para sentir no meu coração e nos meus ossos. E havia aquele buraco redondo, gigantesco, naquele monumento enorme".

Mais tarde, Benn viu a torre vir abaixo da janela de sua sala de aula. Ele afirma que será necessário agora algum acidente muito catastrófico para chocá-lo.

"Não pode ser pior do que isto", ele disse. "É muito traumatizante ver estas coisas acontecendo do nosso lado. Foi uma das coisas mais importantes que já aconteceram, e foi bem diante da minha janela".

Spike Gronim, 17, que estuda no mesmo colégio que Benn, disse que sua visão de mundo também mundou. "Agora acolho melhor uma ação estrangeira contra o terrorismo. Já não me importo tanto com nosso trabalho para encontrar estas pessoas e extraditá-las com uso da força militar", ele afirma. "Não quero um outro Vietnã, mas não quero viver um outro dia como este, com aviões batendo nos prédios".

Elaine Chan, 18, primeiranista da Wharton School of Business na Universidade da Pennsylvania, afirmou que alguns conhecidos seus estão preocupados com retaliação, com a possibilidade da guerra. "Todo mundo está um pouco vulerável".

No entanto, ela afirma também que "talvez isto contribua para o nascimento de um novo patriotismo norte-americano".

Shinzong Lee, 18, de Basking Ridge, Nova Jersey, disse que os ataques despertaram nas pessoas aquilo que elas possuem de melhor. "Eu vi as pessoas batalhando juntas e telefonando aos amigos e parentes para dizer que os amam, formando filas imensas para doar sangue, doando celulares para a Cruz Vermelha e abrigando pessoas que trabalhavam no World Trade Center em seus apartamentos.

"Portanto apesar da tragédia, é bom ver os seres humanos preocupando-se uns com os outros e abandonando o conforto da ignorância. Felizmente, de agora em diante os americanos vão dar mais atenção para o mundo ao seu redor".

Especialistas acreditam que estes acontecimentos terão efeitos duradouros sobre os jovens americanos.

"É como se fosse um ataque emocional. Ele abalou, digamos, a fundação de muitos destes garotos", afirmou Carolyn Flaningam, presidente do departamento de estudos sociais da Escola Secundária Robinson em Fairfax, Vancouver. Muitos dos pais de seus alunos trabalhavam no Pentágono.

Abby Wilner, 25, co-autora de "Crise dos vinte" - um livro que estuda jovens que acabaram de concluir a faculdade - afirma que os acontecimentos desta semana poderão alterar dramaticamente suas vidas. "Sempre dissemos que nossa geração não contava com nada que nos unisse, como uma guerra. Isto pode nos ajudar a criar uma identidade.

"Nada parecido havia acontecido antes no país. A Golfo Pérsico fica do outro lado do mundo, e não aqui. E agora o Trade Center desapareceu. Isto é um acontecimento e tanto. Poderá ser o primeiro acontecimento a nos unir".

(Colaboraram as repórteres do USA TODAY Karen S. Peterson e Tracey Wong Briggs)

Tradução: André Medina Carone

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