Jovens americanos querem ir à guerra

Gregg Zoroya

Nova York, EUA -- Para as gerações que cresceram com um sentimento de cinismo com relação ao governo e criticando a atuação do país na Guerra do Vietnã, "serviço militar" era uma expressão suja.

Agora, no momento mais difícil enfrentado pela nação em meio século, e após o dia mais sangrento desde a Guerra Civil, o patriotismo está em alta e a população está louca para entrar em uma guerra. E essa geração se vê de repente tendo que encarar um espectro que havia sido esquecido, mas que promete assombrar os seus filhos.

"Eu não creio que poderia suportar tal coisa", diz a moradora de Ohio Diane Flores, de 48 anos, referindo-se à possibilidade de que o seu filho Eric, de 21 anos, possa lutar em uma guerra. Uma opositora da Guerra do Vietnã e do serviço militar, Flores atualmente apóia integralmente a promessa feita pelo presidente Bush de contra-atacar o terrorismo. Mas, a simples idéia do retorno do alistamento militar, algo que a tem perturbado desde os eventos da semana passada e vem sendo motivo de conversas com o marido, a deixa apavorada.

"Pode me chamar de egoísta se quiser, porque é exatamente com egoísmo que estou agindo", afirma ela. "Ele é o meu único filho, e não gostaria de vê-lo partir para o campo de batalha".

Embora os homens ainda tenham que se registrar junto às forças armadas no prazo de um mês antes de completarem 18 anos, o serviço militar obrigatório está arquivado desde 1973. Apenas uma legislação aprovada pelo Congresso seria capaz de reativá-lo. O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, disse no início desta semana que tal idéia não foi considerada. Mas ele acrescentou que ela tampouco foi descartada.

Registro militar dobra

Nas horas que se seguiram ao ataque, um número recorde de 6.381 indivíduos foi registrado via Internet, o dobro da média diária, segundo Lew Brodsky, da Selective Service System. As inscrições online se mantiveram altas, com 4,143 na quarta-feira e 3.701 na quinta-feira.

"De repente a garotada começou a levar a coisa a sério", diz Brodsky. Cerca de cinco mil jovens fazem dezoito anos todos os dias. A sua obrigação para com o serviço seletivo continua até os 25 anos. Atualmente, 14 milhões de homens se encaixam nessa categoria. Segundo Brodsky, se o alistamento obrigatório fosse retomado este ano, o procedimento normal seria começar a chamar jovens que têm 20 anos ou que nasceram em 1981. Nos centros de recrutamento de todo o país as perguntas via Internet e a visita de jovens aumentaram consideravelmente na semana passada. Porém, ainda não se sabe se esse fenômeno vai se traduzir em aumento no número de jovens alistados. Mas, para muitos que já tinham dado entrada no processo mas não haviam se decidido, os ataques foram um fator decisivo.

Renaldo Gibson, de 21 anos, técnico em computação de Decatur, na Geórgia, fez o seu juramento militar no exército no dia seguinte. "Senti que tinha que tomar essa iniciativa", explica Gibson. "Pensei no perigo. Mas o que é o perigo, quando o seu próprio país é alvo de um ataque? Isso fez com que todo o temor desaparecesse".

No decorrer dessa semana, muitos jovens passaram a utilizar uma linguagem dura que traduzia a possibilidade de irem para uma guerra. Mas, ainda assim, a idéia de ser retirado da sua rotina diária e jogado nas forças armadas ainda é uma noção estranha para a nova geração.

"As coisas se passam como nos livros de história. Coisas que não achamos que possam acontecer na época em que estamos na idade de servir", diz Chris Hale, de 19 anos, de Denver, um calouro da Universidade de Nova York.

E seu eu tiver que ir à guerra?

No campus universitário onde estuda Hale, que fica a 20 quarteirões do local da explosão, alguns estudantes brincam nervosamente com a possibilidade de estarem fisicamente aptos para o serviço militar caso haja alistamento. Outros entram em discussões sérias sobre questões como a responsabilidade pessoal e a obrigação de servir.

"Nós sequer pensávamos na possibilidade de ter que ir à guerra", diz Apurva Mehrotra, de 21 anos, um estudante do quarto ano universitário que, a pedido da mãe, fez a barba na segunda-feira de manhã como precaução, de forma que os seus traços indianos não sejam confundidos com os de um indivíduo do Oriente Médio.

"Meu Deus, só a idéia já é assustadora", diz Evin Watson, de 19 anos, calouro da Universidade de Nova York, e cujos pais moram em Washington D.C. Ele diz que aceitaria o alistamento, caso a medida fosse tomada, mas acredita que tal possibilidade é remota. "Seria mais fácil para mim, mas não menos assustador, se eles me pedissem para arriscar a minha vida agora, quando as duas cidades que eu chamo de lar foram vítimas dessa violência", diz ele.

Na quinta-feira, Tyler Costin, aluno do primeiro ano, recebeu uma chamada no seu telefone celular da sua mãe, que mora no norte da Califórina. Ela ligou para lembra-lo de se registrar nas forças armadas. E Matthew Santo, de 21 anos, chegou mesmo a tomar uma decisão sobre como agir caso o serviço militar obrigatório seja reinstituído. Ele se alistaria, ao invés de ser recrutado à força, de forma a preservar o seu direito a escolher a tarefa a ser desempenhada.

"Passei a pensar muito sobre isso", diz ele. "Creio que todos aqui se sentiram impotentes para fazer algo. Até mesmo aqueles que se ofereceram como voluntários para ajudar nos trabalhos de resgate e auxílio às vítimas não foram aceitos. Se fôssemos chamados a lutar, creio que essa seria a primeira possibilidade real de ajudar".

Ele discutiu essa possibilidade com o pai, Berge Santo, um aposentado que mora em Boca Raton, na Flórida. Assim como outros pais, Santo admite que ainda que seja para o bem do país, ele preferiria que os recrutados fossem os filhos de outros, e não os seu.

"Não quero que o meu filho vá para nenhuma guerra", afirma. "Mas eu certamente não tentaria fazer nada para impedi-lo. Creio que temos que pagar pela liberdade que desfrutamos".

Em uma pesquisa de opinião feita no último final de semana pelo "USA Today" e pela CNN, cerca de 80% dos norte-americanos disseram que apoiariam uma ação militar, mesmo que tivessem que se alistar. Vários dos entrevistados consideram essa possibilidade remota. Mas para aqueles que possuem filhos em idade de alistamento e foram pressionados para manifestar a sua opinião, a questão se mostrou difícil de ser resolvida.

Bárbara Benson, de 56 anos, de New Castle, na Pensilvânia, têm três filhos homens. O mais novo, James,de 18 anos, é aluno da Escola de Música na Universidade Estadual de Ohio, em Youngstown. Ela não é capaz de se opor ao alistamento, caso isso seja necessário.

"Que direito eu teria de dizer que o meu filho não deveria ir, mas concordar com o alistamento de outros jovens?", questiona.

Pamela Boyd, de 56 anos, de Olympia, Washington, é mãe de dois filhos, de 24 e de 17 anos. "Sinto uma raiva tremenda dos terroristas por terem nos empurrado para essa situação. Eles viraram as nossas vidas de ponta cabeça, e fizeram com que os nossos filhos passassem a correr um potencial risco de vida", queixa~se. Ela não se opôs à Guerra do Vietnã, nem ao alistamento obrigatório, e não se opõe a ele agora. "Eu apoiaria o alistamento. Mas também teria medo por causa do meu filho. Essa é a realidade. Espero que não cheguemos a tal ponto".

Com o filho mais novo chegando à idade de registro militar, ela acha que o alistamento é algo que pesa cruelmente contra os homens. Segundo ela, as moças e os seus pais não têm que se preocupar com esse tipo de problema.

"Tenho plena consciência de que ele tem 17 anos", diz ela, referindo-se ao filho mais novo. "Sei que ele ainda não chegou na idade de servir. Mas está chegando lá. É nesse momento que eu penso que é difícil ser mãe de meninos e não de meninas. Eu preferiria me sacrificar, ao invés de deixar que meus filhos o fizessem. Eles são as coisas que eu mais amo. Nada mais importa além dos seus filhos, nada".

Tradução: Danilo Fonseca

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