Geografia é benção e maldição do Afeganistão

John Omicinski

Washington, EUA -- O Afeganistão sempre foi sinônimo de distância, obscuridade e mistério. Os escritores de editoriais que negligenciavam os assuntos locais para escrever sobre esotéricas questões estrangeiras costumavam ser acusados da prática do "afeganistanismo".

Até os horrores terroristas de 11 de setembro na Cidade de Nova York e em Washington, a maioria esmagadora dos norte-americanos não era capaz sequer de apontar em que região do globo fica o Afeganistão.

A geografia é, ao mesmo tempo, a benção e a maldição do Afeganistão.

Devido à sua posição estratégica no entroncamento de caminhos para a Índia, a Rússia, a Ásia Central, a China e o Irã, e devido ao fato de estar localizado sobre uma das principais rotas para o Oceano Índico, há mais de mil anos o Afeganistão é uma casa estratégica no tabuleiro de xadrez da geopolítica internacional.

Os exércitos conquistadores de Alexandre Magno passaram pelo Afeganistão ao marchar rumo à Índia, seguindo uma das maiores rotas transcontinentais de sua época.

E a sua remota vastidão deu por séculos aos guerreiros afegãos uma grande vantagem sobre os invasores do país. Osama bin Laden não poderia ter escolhido um esconderijo melhor.

"Aquele é um dos terrenos mais hostis do planeta", diz Simon Reeve, autor do livro "The New Jackals: Ramzi Yousef, Osama bin Laden and the Future of Terrorism" (Os Novos Chacais: Ramzi Yousef, Osama bin Laden e o Futuro do Terrorismo). "Foi esse terreno que ajudou os afegãos a derrotar dois impérios, e agora um terceiro deseja entrar no país".

Mas essa posição estratégica não se traduziu em vantagem econômica para o povo afegão.

Um país do tamanho do Texas, sem acesso ao mar, com uma população de 25 milhões de habitantes e montanhas inacessíveis cortadas por algumas passagens a grandes altitudes, o Afeganistão é paupérrimo. A nação possui uma única ferrovia com somente 26 quilômetros de extensão. Existem apenas dez aparelhos de televisão por mil habitantes. A expectativa de vida masculina é de pouco mais de 40 anos. A renda per capita é de cerca de US$ 800 (R$ 2,2 mil).

"As guerras civis e movidas por forças estrangeiras reduziram o país a escombros", disse o historiador militar John Keegan, no jornal "London Telegraph". "E o exército do país, que já foi motivo de orgulho, virou um agrupamento de soldados maltrapilhos, que dificilmente resistiria a uma 'campanha limitada de penetração'".

Os líderes talebans proíbem a população de dançar, de ingerir bebidas alcoólicas e até mesmo de soltar pipas - o maior produto de exportação do país é a heroína. O Afeganistão é ainda um dos maiores produtores de haxixe do mundo.

Foi o haxixe afegão que deu ao original terrorista xiita Hasan Sabah e aos seus Assassinos Persas (haxaxins) o seu nome e a sua coragem por volta do ano 1.100.

A Grã-Bretanha e a Rússia lutaram pelo controle do país, naquilo que Rudyard Kipling chamou de "O Grande Jogo" do século 19.

Durante aquele período, a Passagem Khyber, um desfiladeiro de 58 quilômetros de extensão, entre as montanhas, ligando o Paquistão ao Afeganistão através de uma cadeia de montanhas de 4,8 mil metros de altitude, a chamada Hindu Kush, ficou famosa entre os ocidentais como sendo um local terrível para se travar uma guerra. Cerca de 16 mil soldados britânicos e ingleses perderam as suas vidas no lugar, em 1842, lutando contra combatentes afegãos.

O Exército Vermelho soviético perdeu dezenas de soldados para os guerrilheiros mujahedins (mujahedin significa "guerra santa") equipados com armas norte-americanas e mísseis antiaéreos Stinger, que são disparados do ombro dos combatentes, também fornecidos pelos Estados Unidos. A guerra com os soviéticos durou dez anos, terminando em 1989, e grande parte dela foi travada na Passagem Khyber. Crianças afegãs com dinamite amarrada ao peito eram utilizadas como armas contra os tanques soviéticos.

Finalmente, o conflito afegão ajudou a sangrar o governo soviético, contribuindo para o seu colapso em 1991. Os Estados Unidos, juntamente com a Arábia Saudita, despejaram bilhões de dólares nesta guerra por procuração - e venceram. O pessoal da CIA trocou tapinhas nas costas por ter mais uma vez contido o Urso Russo.

Mas, no decorrer do processo, o Afeganistão foi inadvertidamente perdido para uma nova linhagem de líderes autoritários e terroristas que durante anos disseram que tudo o que queriam era a destruição do Ocidente, que eles vêem como uma força decadente e injusta.

"Eles perderam um milhão de pessoas na guerra. Três milhões ficaram feridos ou mutilados e, então, a vitória foi capitalizada pelos comandantes", diz Robert McFarlane, conselheiro de segurança nacional do Presidente Ronald Reagan.

Também participante da guerra entre soviéticos e afegãos, entre 1979 e 1989, estava Osama bin Laden, um herói dos campos de batalha que, assim como Adolf Hitler, se tornou um terrorista devido ao que aconteceu com o seu país.

Ao visitar o Afeganistão, logo após o início da guerra, Bin Laden se sentiu sinceramente tocado pelo destino dos refugiados afegãos. Ao retornar ao seu lar, na Arábia Saudita, ele levantou milhões de dólares para ajudá-los.

No final dos anos 80, Bin Laden estava financiando grandes remessas de equipamentos para os mujahedins afegãos. Estabelecendo seis campos de treinamento militar por conta própria, ele teria lutado em pelo menos cinco grandes batalhas, portando-se com bravura.

Mas, tão logo a guerra acabou, o tipo de fundamentalismo islâmico purista pregado por Bin Laden deixou de ser bem visto na Arábia Saudita. Ele peregrinou pelo fundamentalista Sudão e, a seguir, para o Afeganistão, acumulando enquanto isso um grande ódio contra o Ocidente e o estilo de vida ocidental.

Uma das grandes ironias da história é que o Afeganistão, que ainda é um Estado com índices de subdesenvolvimento dignos do século 19, seja o refúgio daquele que teve mais sucesso em atacar aquilo que se pensava ser a superpotência capitalista moderna e invulnerável. "As grandes nações do Oriente Médio sobreviveram ao desafio do movimento islâmico", afirma Fouad Ajami, professor de estudo do Oriente Médio da Universidade Johns Hopkins. "Portanto, os terroristas tiveram de se deslocar. Se bombardearmos o Afeganistão, a rota dos terroristas será desviada para outro local".

Bin Laden nunca fez segredo sobre as suas intenções, tendo concedido dezenas de entrevistas para expressar o seu desprezo pelos Estados Unidos e pela reputação do país como superpotência.

Em 1997, ele disse a CNN que "o mito da superpotência foi destruído não só na minha mente, mas também nas mentes de todos os muçulmanos", como resultado da derrota soviética no Afeganistão nas mãos dos mujahedins.

Bin Laden despreza o soldado norte-americano, da mesma forma que Saddam Husseim costumava faze-lo antes da Guerra do Golfo. "O soldado russo é mais corajoso e paciente do que o norte-americano", disse ele ao jornal árabe editado em Londres, "al-Quds al-Arabi", em 1996. "A nossa batalha com os Estados Unidos é fácil, comparada com aquelas que travamos no Afeganistão".

Ele cita freqüentemente a rápida debandada norte-americana do Líbano, após o atentado a bomba de 1983, desfechado contra o quartel dos fuzileiros navais, em Beirute, bem como a retirada de soldados dos EUA da Somália após baixas nas ruas de Mogadício.

O simbolismo é algo de extremamente importante para ele, como ficou óbvio nos ataques de 11 de setembro contra o World Trade Center e o Pentágono.

Após o ataque suicida que quase afundou o destróier lançador de mísseis, USS Cole, no porto de Aden, em outubro de 2000, Bin Laden disse que " havia a ilusão de que o navio podia destruir tudo", mas foi, ele próprio, destruído por um pequeno barco inflável.

Porém poucos daqueles que estão nos altos escalões do poder o levaram a sério, assim como falharam em levar o Afeganistão a sério.

Tradução: Danilo Fonseca

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