A cidade que nunca dorme está sombria e silenciosa

Gene Sloan

Nova York, EUA -- A excursão a bordo do ônibus vermelho de dois andares da Gray Line começa normalmente. A guia turística Lisa Hodza vai mostrando os pontos notáveis da cidade de Nova York: Times Square, a loja de departamento Macy's, o Empire State Building.

Mas quando o ônibus quase vazio faz a volta na Sétima Avenida, indo em direção à extremidade sul de Manhattan o clima fica subitamente pesado. Hodza não precisa dizer uma única palavra.

Na distância, bem visível contra o céu de um azul cristalino, dá para se ver uma coluna de fumaça acima do distrito financeiro - tudo o que restou daquilo que costumava ser uma das maiores atrações da excursão de três horas.

Para Hodza, que está retornando à área pela primeira vez desde o ataque terrorista de 11 de setembro, a cena é simplesmente muito forte. "Isso é muito duro para mim", ela desabafa no intercomunicador, enxugando as lágrimas enquanto que os turistas olham para frente em silêncio.

Todas as atividades, desde as excursões de ônibus por Manhattan aos shows da Broadway retomaram as suas agendas habituais depois de terem ficado paradas por mais de uma semana. Com umas poucas notáveis exceções, as maiores atrações turísticas, os restaurantes e hotéis, todos abriram. Ainda assim, a experiência de se visitar a maior cidade da nação é algo que transcende o normal, esbarrando no surrealismo.

Para todos os lados que se olhe, pode-se lembrar dos eventos ocorridos no dia 11 de setembro. Na Quinta Avenida, a grande área de compras da cidade, lojas como a Bergdorf Goodman substituíram os mostruários das vitrines por gigantescas bandeiras norte-americanas. Em Times Square, as propagandas em vários painéis eletrônicos também desapareceram, dando lugar ao "God Bless America" e outros chavões patrióticos. E, por toda a cidade, de Duarte Park a Union Square, altares improvisados com velas, flores e mensagens para os mortos apareceram da noite para o dia.

E há também o clima sóbrio que tomou conta da cidade, algo de completamente inédito. "A petulância e a falta de educação não fazem mais parte do cenário", diz Jane Skurecki, de 56 anos, de Filadélfia, que chegou à cidade no início da semana para assistir "The Lion King", na Broadway.

Enquanto posa para fotografias com um amigo, Skurecki, que trabalha como enfermeira em um hospício, diz que as máscaras mal-encaradas dos nova-iorquinos caíram. As pessoas parecem mais amigáveis e subjugadas. "A cidade está tranqüila como eu nunca a vi. E muito calma. Os motoristas não estão mais buzinando nervosamente".

As autoridades do setor de turismo agiram com rapidez na semana passada para garantir ao mundo que a cidade está pronta e ansiosa para receber visitantes, e até mesmo o prefeito está fazendo um apelo para que os turistas continuem vindo à cidade. E eles têm trabalhado intensamente para fazer com que a infraestrutura turística continue funcionando.

"Eu quero encorajar as pessoas de todo o país que queiram ajudar... venham para cá e gastem dinheiro. Vão aos restaurantes, se divirtam", solicitou Giuliani, no início da semana. Ele acrescentou uma pitada incomum de humor ao seu pedido, dizendo: "Vocês poderão realmente contar com uma boa chance de conseguir entradas para 'The Producers'".

Mas pode demorar muito tempo até que a experiência de visitar a cidade volte a um estágio próximo da normalidade. Conforme as pessoas vão entendendo cada vez mais a magnitude e o horror do que aconteceu, até mesmo aqueles que ganham a vida com o turismo estão tendo dificuldades para se concentrar na atividade.

"Esse é um momento muito triste para a cidade", afirma Tom Hennessy, motorista de uma das charretes puxadas a cavalo estacionadas ao lado do Central Park. "Todo mundo foi afetado pela tragédia. Todos conhecem alguém que estava lá".

Hennessy voltou esta semana ao seu posto em frente ao Plaza Hotel, atendendo ao chamado de Giuliani, que conclamou os nova-iorquinos a "mostrar o quanto somos fortes, e que os terroristas não podem nos intimidar". Mas Hennessy admite que no fundo, está muito abatido.

"Acho embaraçoso perguntar às pessoas se elas querem dar uma volta de charrete", conta Hennessy, enquanto dá um olhar vago para os pedestres que atravessam a Quinta Avenida. "Andar de charrete é uma atividade para tempos felizes. E esses não são tempos felizes".

Alguns analistas de negócios temem que a indústria turística de Nova York, que movimenta anualmente US$ 25 bilhões (R$ 71 bilhões) - a cidade é a terceira mais visitada, após Orlando e Las Vegas - esteja no estágio inicial de uma grande crise. De fato, quatro espetáculos da Broadway já anunciaram que vão encerrar as apresentações no domingo, e vários outros estão enfrentando dificuldades, por não conseguirem vender um número suficiente de ingressos. Os saguões dos hotéis estão totalmente vazios. E os negócios vão tão mal em alguns restaurantes que os proprietários estão pensando em fechar as portas. Há previsões de que o desemprego entre os 280 mil funcionários do setor hoteleiro atinja dezenas de milhares de trabalhadores.

"Nunca vi Nova York deste jeito", diz Thomas Steinhauer, gerente do Four Seasons, falando no início desta semana, durante um café da manhã no restaurante do hotel.

Em uma manhã normal de um dia de semana, o salão de café fica cheio de viajantes e pessoas de negócios, que se servem do prato típico do hotel, o bolinho quente de limão e ricota. Mas, atualmente, só duas mesas estão servidas. Segundo Steinhauer a taxa de ocupação do hotel, que era de quase 100% antes do ataque, despencou para 20% no domingo passado. Os cancelamentos para as próximas semanas não param de ocorrer. Funcionários do setor turístico, à beira do pânico, fazem questão de frisar que a cidade está funcionando normalmente. E, realmente, todos os grandes museus, incluindo o Metropolitan Museum of Art, o Guggenheim e o Museum of Modern Art estão abertos. Os restaurantes, lojas e hotéis de Midtown Manhattan, em um raio de quilômetros do local do ataque, voltaram a funcionar.

Mas, à noite, mesmo nos lugares sofisticados como Chelsea, uma quietude estranha baixa sobre uma cidade normalmente frenética. O silêncio só é quebrado pelas sirenes das ambulâncias. Os bares se transformaram em pontos de encontro para os moradores dos bairros, onde as pessoas se reúnem para assistir as últimas notícias da CNN.

Às 14h30 do domingo passado, em Times Square, a impressão que se tinha é que eram sete da manhã. Os carros se arrastavam ao invés de engarrafarem o cruzamento da Broadway com a Sétima Avenida, que costuma ser considerado a principal interseção de Nova York. Somente umas poucas buzinas são tocadas. Debbie Harrington e Rich Renaud, moradores de Burlington, Massachusetts, apontam a sua câmera de vídeo para um aparelho que toca o "The Star-Spangled Banner". "A impressão que temos é que grande parte do encanto da cidade se foi", diz Harrington, de 45 anos, enxugando as lágrimas.

"As minhas irmãs acham que somos malucas por termos vindo para cá", diz ela. "Mas nós sentimos uma compulsão, uma necessidade. Não se trata de curiosidade mórbida; é uma espécie de magnetismo".

Várias das mais famosas atrações da cidade, incluindo o seu símbolo de liberdade e perseverança, a Estátua da Liberdade, permanecem fechadas por tempo indefinido, por motivos de segurança. E o mapa turístico de Lower Downtown foi radicalmente redesenhado.

Embora os bairros badalados de SoHo e Greenwich Village tenham sido reabertos no último final de semana, uma grande área abaixo da Canal Street permanece fechada para turistas, incluindo o famoso distrito Tribeca, onde ficam conhecidas butiques e sofisticadas delicatesses como a Nobu e a Chanterelle. Segundo as autoridades, não se sabe quando essas áreas serão reabertas.

Até mesmo nas áreas abaixo da Canal Street que foram abertas para turistas, o acesso é as vezes complicado. Automóveis não são permitidos abaixo da Canal Street, e várias rotas de ônibus que passam pela área foram modificadas. Várias estações de metrô permanecem fechadas. E, embora os turistas tenham acesso a partes dessa área à pé, eles vão encontrar barricadas policiais bloqueando várias ruas. Eles também vão testemunhar uma cena rara e perturbadora, que geralmente é mais associada com países do Terceiro Mundo do que com os Estados Unidos: soldados federais vestidos com trajes de combate patrulhando as esquinas, gritando aos pedestres para "circular" e impedindo que as pessoas tirem fotos.

Embora os turistas na cidade digam que entendem perfeitamente as restrições e o fechamento de determinadas áreas, alguns estão, mesmo assim, desapontados. Mary Kilgannon, de 21 anos, uma estudante irlandesa, estava louca para visitar o Intrepid Sea Air Space Museum, em Midtown, às margens do Rio Hudson. Mas esta semana os turistas foram enxotados por agentes do FBI portando armas automáticas.

"Ouvimos falar que o museu é muito bom", diz ela, enquanto lê um cartaz com os preços das entradas. Segundo ela, está muito difícil conhecer a cidade nesta semana, já que vários pontos turísticos estão fechados ou com o acesso restrito. Ao invés de visitar a Estátua da Liberdade e Ellis Island, que também está fechada, ela foi fazer compras e passear pelo Zoológico do Bronx.

Mas outros dizem que estão se divertindo. Os alemães Andréa e Michael Drothler estavam a bordo do Queen Elizabeth 2, em um cruzeiro da Inglaterra para Nova York, quando os terroristas atacaram. O navio foi desviado para Boston, e vários passageiros, assustados com os atentados, retornaram para casa. Mas os Drothler decidiram continuar com a viagem.

"Estamos felizes por termos tomado tal decisão", diz Andréa Drothler, de 44 anos, sentada com o marido no andar superior do ônibus da Gray Line. Eles estão maravilhados com o cenário modificado da cidade. "Nós sonhávamos em navegar até o porto, vendo a Estátua da Liberdade e os prédios surgindo do mar. Estamos desapontados por não termos podido realizar esse sonho", diz ela. "Mas Nova York ainda é uma grande cidade. Ainda é um local maravilhoso para se visitar".

Realmente, muitos norte-americanos também estão achando que visitar Nova York após os ataques é uma experiência fortalecedora. Embora sombria, a cidade está unificada como nunca e, assim como muitas outras cidades dos Estados Unidos, exibindo uma onda de patriotismo.

"É realmente muito legal estar aqui", afirma Cody Tuthill, de 22 anos, aluna da Universidade Central Washington, que dirigiu desde Seattle com um amigo logo depois do ataque. Colocando a sua sacola de compras do Hard Rock Café sobre a calçada, em frente ao The Plaza Hotel, ela diz que, ao chegar a Nova York, sentiu imediatamente o senso comunitário que prevalece. "Trata-se de uma cidade exibindo o melhor de si".

Tradução: Danilo Fonseca Terror

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