Primeiras-damas influem nas decisões políticas dos EUA

Susan Page

Washington, EUA -- O seu marido fala em começar uma guerra do outro lado do mundo, mas, nos últimos dias, Laura Bush tem se concentrado nos desafios mais próximos da sua casa e do seu coração: a importância de abraçar os seus filhos, a companhia proporcionada pelos animais de estimação e a necessidade de telefonar para a mãe logo após receber a notícia dos ataques a Nova York e a Washington, "apenas para contar com o carinho da sua voz".

Enquanto o presidente Bush enfrenta a sua maior crise, Laura Bush está assumindo um papel que foi desempenhado por várias das suas antecessoras, oferecendo uma voz de conforto em tempos aterradores. Após ter ficado longe das câmeras durante os primeiros meses do mandato do marido, ela agora aparece no programa televisivo "Oprah", discursa na cerimônia em homenagem aos passageiros mortos no vôo 93 da United Airlines e escreve para estudantes do primeiro grau dizendo como lidar com o medo.

"Ela acertou no tom exato", diz Kati Marton, autora do livro "Hidden Power: Presidential Marriages That Shaped Our Recent History" (O Poder Oculto: Casamentos Presidenciais que Moldaram a Nossa História Recente), que deve ser lançado este mês.

Marton sugere que a presença calma de Laura Bush tem sido importante não só para os norte-americanos ansiosos que assistem às suas declarações públicas, mas também para o presidente, na Casa Branca.

"Ele tem em Barbara um lastro emocional e uma presença fortalecedora", diz Marton. "Portando, ela atualmente tem sido mais importante para o presidente do que em qualquer outro período de sua vida".

Marton passou os últimos seis anos estudando primeiras-damas dos tempos modernos. Ela não se concentrou tanto em quem elas foram, mas na diferença que fizeram, como ajudaram - ou fracassaram em ajudar - os seus maridos a evitar o isolamento e a navegar pelas águas rasas e perigosas da presidência.

Segundo a autora, esse é um assunto que tem sido evitado, subestimado ou visto com temor pelos biógrafos presidenciais, pelo povo norte-americano e até mesmo pelos casais que ocuparam a Casa Branca.

"Existe uma espécie de conspiração entre eles e nós, de forma a manter ocultas as influências do casamento", diz Marton. Essa foi uma das razões pelas quais ela escolheu esse título para o seu livro, após ter descartado vários outros. "Os historiadores costumam ser do sexo masculino e podem ter achado que os grandes homens ficariam diminuídos, caso fosse divulgado até que ponto eles dividiram o poder com a mulher. Os próprios casais nunca quiseram que soubéssemos sobre esse fato, devido ao nosso justificado nervosismo com relação ao poder não eleito".

"Quando presidentes e primeiras-damas foram muito francos sobre a influência das esposas - o exemplo que vem a minha mente é do papel de Hillary Rodham Clinton à frente do sistema de saúde - os eleitores sentiram desconforto."

Porém, Marton descobriu que o poder das esposas dos presidentes, escondido ou não, sempre foi significante, importante para o bem-estar da nação e geralmente construtivo. "Com algumas notáveis exceções", acrescenta ela.

Existem figuras tão familiares que o público as conhece instantaneamente pelos seus primeiros nomes: Eleanor. Jackie. Lady Bird. Hillary. Mas Marton descobriu que aquela pessoa que vive na área residencial do segundo andar da Casa Branca é muitas vezes bem diferente da figura que o público pensa conhecer tão bem.

"Jackie não era a frívola dondoca bonitinha", diz Marton. "Lady Bird não foi um capacho. Pat era infinitamente mais triste do que pensávamos. Barbara foi muito diferente da imagem que escolheu para si própria. E Hillary foi, sob muitos aspectos, uma esposa tradicional que, como Nancy, zelava pelo bem-estar do marido e compartilhava a sua ambição política e a sua ascensão".

Segundo Marton, Ronald Reagan não teria se tornado presidente sem o empenho de Nancy. Ele detestava confrontos e "era quimicamente incapaz de despedir alguém", diz ela. "Esse serviço cabia a Nancy".

Embora tivesse mais habilidade para lidar com pessoal do que com política, Nancy forneceu um encorajamento crítico para o seu marido, para que ele negociasse com o líder soviético Mikhail Gorbachev, apesar da resistência dos aliados conservadores de Reagan. O pacífico esfacelamento da União Soviética é um dos principais legados de Reagan. "Ela o posicionou como um pacificador", diz Marton, "com o apoio e a cooperação de pessoas como George Shultz, Mike Deaver e James Baker".

Quanto a Lady Bird, ela foi uma das poucas pessoas capazes de exercer controle sobre o poderoso ego de Lyndon Johnson, além de convencê-lo a ver os fatos sobre a perspectiva de outros. Em uma entrevista concedida nos primeiros dias do escândalo Monica Lewinsky, Lady Bird disse a Marton que soubera dos casos extraconjugais do seu marido, não se sentindo, entretanto, ameaçada.

"Se eu quisesse que ele fosse privado do estímulo, do conhecimento ou da assistência que outras mulheres lhe ofereciam, isso teria reduzido o meu papel após algum tempo", disse calmamente Lady Bird, com a sua autoconfiança inabalável.

Marton conclui que a maior traição já ocorrida em um casamento presidencial foi a forma como o presidente Nixon tratou Pat. Ele se apaixonara por ela à primeira vista, e o namoro teve cartas de amor com juras de eterna devoção.

Porém, quando eles se mudaram para a Casa Branca, Marton diz que os dois se distanciaram - uma versão que é negada pela filha do casal, Julie Nixon Eisenhower. "Não reconheço os meus pais nesse relato", diz ela. "O amor deles era perfeito desde o início, e durou até o 53º aniversário de casamento, a véspera da morte da minha mãe".

Mas Marton afirma que o casal Nixon nunca falou sobre Watergate. "Ela só foi informada sobre a sua renúncia no final do processo", diz a escritora. "Eles sempre se comunicavam por intermédio de terceiros". Caso o casal tivesse o tipo de relação afetuosa e próxima que caracterizou os Johnson e os Ford, será que Nixon suspeitaria tanto do mundo à sua volta?

Marton deixa no ar a seguinte questão: "Se o relacionamento entre os dois fosse melhor, será que a nação teria passado pelo escândalo de Watergate?".

O retrato mais surpreendente é o de Barbara Bush. Ela se apresentou à nação como uma avó, incapaz sequer de fingir que entendia qualquer coisa sobre política.

Porém, segundo Marton, Barbara era na verdade uma figura política mais habilidosa do que o marido, mais determinada e dona de um discurso mais duro do que o dele, pelo menos nos bastidores.

"Ela entendia melhor que o marido a utilização carismática da função, e sabia quando fazer um comentário sarcástico", afirma Marton. "Barbara fazia com que os fatos negativos se tornassem positivos: os seus cabelos brancos, a obesidade, as rugas, e a sua aparência envelhecida. Ela é uma verdadeira profissional da política, e a prova disso é que não associamos a sua figura à de uma profissional da política".

Rosalynn Carter, Lady Bird Johnson, Nancy Reagan e Hillary Clinton foram entrevistadas por Marton. Ela conheceu Jackie Kennedy e seus filhos nos círculos sociais de Nova York. Marton também esteve algum tempo com Betty Ford, quando a família da escritora e a da ex-primeira-dama estiveram em uma estação de esqui, em Vail, no Colorado, há vários anos.

Barbara Bush não quis ser entrevistada, mas a família Bush foi a primeira a ser convidada quando Marton e o seu marido, Richard Holbrooke, se mudaram para o apartamento do Waldorf Astoria, usado pelos embaixadores da ONU. Bush serviu como embaixador da ONU na administração Nixon, e Holbrooke no governo Clinton.

O casamento de Marton com Holbrooke, e o seu casamento anterior com Peter Jennings, o âncora da ABC News, deram-lhe uma perspectiva sobre a natureza dos casamentos de mulheres determinadas e homens proeminentes. Quando era criança na Hungria, o seu país de origem, Kati Marton, presenciou os pais serem presos como espiões. A sua mãe era jornalista da United Press International, e o pai da Associated Press. Após a Revolução Húngara de 1956 eles conseguiram se mudar para os Estados Unidos.

Durante um certo período, Marton foi a chefe do escritório da ABC em Bonn. Ela escreveu quatro outros livros antes deste. Marton trabalhou para o Comitê de Proteção aos Jornalistas e, no mês que vem, deve começar a trabalhar na ONU como defensora das crianças que vivem em áreas de conflitos armados.

"Sabemos, baseados em nossas próprias vidas, que não é algo de realista tratar o casamento como algo que termina no quarto de dormir, na cozinha ou na sala; na verdade ele afeta todas as nossas atividades", diz ela. "Um bom casamento te deixa livre para realizar coisas extraordinárias. Não creio que pudesse escrever esse livro sem que Richard atuasse como um constante revisor. E ele me diz incessantemente que não teria sido capaz de negociar os acordos de Dayton se eu não lhe estivesse fazendo companhia". Os acordos de Dayton, de 1995, colocaram um fim à guerra na Bósnia Herzegovina.

"Um relacionamento forte pode afetar também a nossa vida profissional", diz ela. "E isso é particularmente verdadeiro em se tratando da Casa Branca".

Tradução: Danilo Fonseca

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