Companhia aérea israelense conta com sistema mais seguro do mundo

Vivienne Walt

Jerusalém, Israel -- "Essa maleta já foi usada por mais alguém?", pergunta a agente de segurança da El Al (a companhia aérea israelense), uma mulher com um sorriso simpático, que usa um longo rabo de cavalo, no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, antes da minha partida para Telaviv, no último final de semana. Ela inspeciona a minha maleta de couro preto, que está no chão, próxima à sala utilizada para revistas e interrogatórios.

"O meu marido algumas vezes usa a maleta", respondo. "E para onde ele viajou?", pressiona a segurança. "Creio que uma vez para o Golfo Pérsico", eu retruco.

Essa resposta deveria ter acionado o alarme na sua cabeça, mas a "seletora", como são chamados em Israel os seguranças encarregados de revistar passageiros e bagagens, encontrou um problema maior.

Ao examinar cada carimbo no meu passaporte, ela se detém em uma página com escrita árabe.

"Para onde é esse visto?", pergunta. "Síria", respondo, sabendo que estou falando de um dos maiores inimigos de Israel. E rapidamente explico. "Sou jornalista. Fui à Síria para cobrir o funeral do presidente".

Ela chama o colega, um homem musculoso.

"Você está viajando sozinha?", pergunta. Eu digo que sim.

"Mas eu te vi falando com alguém na fila", diz o homem. "Quem é ele?".

Realmente, para matar o tempo, eu tinha trocado umas poucas palavras com um passageiro que estava atrás de mim na longa fila de segurança, cerca de cinco minutos atrás. Eu mal me lembrava dessa rápida conversa.

Mas como tudo o mais, quando se voa pela El Al, o meu bate-papo não havia passado desapercebido.

Assim são as coisas quando se viaja pela companhia aérea mais sensível ao problema da segurança do mundo.

Para os norte-americanos, que estão se deparando com o fim da era dos vôos fáceis e com total liberdade nos Estados Unidos, a El Al é um exemplo daquilo que pode nos esperar depois dos ataques terroristas de 11 de setembro.

Tendo convivido por décadas com bombas e ataques suicidas, Israel elaborou, 20 anos atrás, o sistema de segurança de vôo mais invulnerável do mundo. Segundo as autoridades, trata-se de um enorme sucesso. Apesar das várias guerras e dos conflitos domésticos sem fim, o único seqüestro enfrentado pela El Al ocorreu em 1968, antes que o sistema fosse colocado em vigor.

Desde então, outras catástrofes foram evitadas. Uma bomba foi encontrada em 1979 na bagagem de um passageiro alemão que parecia estar nervoso: ele achava que tinha sido contratado para contrabandear diamantes. Uma outra bomba foi descoberta poucos anos atrás na bagagem de uma passageira inglesa grávida, em Londres. A bomba fora plantada pelo seu amante palestino, cuja identidade os agentes de segurança haviam descoberto previamente.

Os recentes seqüestros suicidas nunca poderiam ter ocorrido na El Al, segundo os funcionários da empresa. "Os nomes desses homens estariam na nossa lista", afirma Shlomo Dror, porta-voz do Ministério da Defesa que ajudou na elaboração do sistema adotado pela El Al. Segundo Dror, os funcionários teriam também notado facilmente que os seqüestradores, viajando na primeira classe, não tinham a aparência de serem ricos o suficiente para pagar a passagem.

Durante anos, as outras companhias aéreas elogiaram a segurança da El Al. No entanto, até os recentes episódios terroristas nos Estados Unidos, nenhuma companhia norte-americana havia pensado na possibilidade de copiar o elaborado sistema, que custou a El Al cerca de US$ 90 milhões (R$ 241,2 milhões) no ano passado. Em 1987, Dror elaborou um extenso plano de segurança para a Pan Am, sugerindo que se analisassem o perfil dos passageiros, que se abrissem as bagagens e que se contratassem seguranças profissionais para fazer parte da equipe. A companhia rejeitou o plano, alegando que era muito caro e que representava um estorvo para os passageiros. Um ano mais tarde, uma bomba colocada em um vôo da Pan Am, que ia de Londres para Nova York, explodiu sobre Lockerbie, na Escócia, matando 270 pessoas.

"A segurança norte-americana está mergulhada há anos em um sono profundo", afirma Beni Tal, chefe de uma firma de consultoria de segurança de Tel Aviv, e que trabalhou com projetos de segurança do governo. "Agora, eles despertaram para sempre".

Ironicamente, após um ano de grandes prejuízos, as reservas de vôo da El Al dispararam desde 11 de setembro, já que muitos passageiros estão muito atemorizados para voar em qualquer outra companhia. Em um contraste marcante com outras companhias aéreas, a El Al abandonou os seus planos de despedir 500 funcionários e de retirar de operação algumas das suas aeronaves Boeing 747-200.

Mesmo assim, não há a certeza de que o sistema de segurança da El Al possa ser imitado. O volume de passageiros da El Al - cerca de 40 vôos por dia, para cerca de 51 lugares - é minúsculo quando comparado ao das grandes companhias norte-americanas. A maior empresa aérea dos Estados Unidos, a American Airlines, para se fazer uma comparação, fazia cerca de 2,4 mil vôos diários antes de 11 de setembro. E, até agora, os norte-americanos se recusavam a aceitar a perda de tempo com as operações de revista, que podem mesmo causar atrasos nos vôos até que todo o procedimento seja completado.

Apesar do atual nível de ansiedade, os norte-americanos podem se recusar a aceitar a adoção das análises de perfil feitas pela El Al, que são baseadas em critérios étnicos. Os funcionários examinam os nomes dos passageiros, dividindo-os em "baixo risco" (israelenses ou judeus estrangeiros, "risco médio" (estrangeiros não judeus) e "risco extremamente alto" (qualquer um com um nome árabe). Esses últimos são automaticamente levados até uma sala especial, para serem revistados e terem a bagagem examinada, além de serem submetidos a um longo interrogatório. As mulheres solteiras também são consideradas como pessoas de alto risco, devido ao temor de que possam ser utilizadas por amantes palestinos para carregar bombas.

Para selecionar os passageiros, os encarregados da checagem geralmente começam o seu trabalho perguntando aos passageiros se eles entendem algo de hebreu, o que é uma característica da maioria dos judeus. Os funcionários argumentam que essa flagrante discriminação é necessária.

"Não perguntamos as mesmas perguntas a todos; existe um elemento de surpresa, de forma que as pessoas não podem preparar as suas respostas", afirma o porta-voz da El Al, Nachman Klieman, acrescentando que a empresa não revela publicamente vários dos seus segredos de segurança.

De fato, os agentes de segurança da El Al já estão atuando muito antes que os passageiros percebam. Basta ligar para um escritório da El Al em qualquer cidade para reservar uma passagem, que o seu nome será comparado a uma lista de computador trazendo suspeitos de terrorismo. A lista é compilada pela Interpol, pelo FBI, e pelo Shin Bet (serviço de inteligência de Israel), entre outras agências.

O meu agente de viagens em Paris insistiu que o vôo da El Al para o qual eu havia reservado uma poltrona não existia. Isso porque a El Al modifica os seus horários com tanta freqüência - a fim de atrapalhar planos terroristas - que algumas agências não conseguem acompanhar tal processo.

Na aeronave, até cinco agentes armados à paisana fazem parte do vôo, sem serem notados. Eles viajam em assentos estratégicos e estão prontos para reagir a qualquer ataque. Além do mais, os tripulantes da cabine, assim como vários israelenses, são ex-soldados das Forças Armadas israelenses, tendo recebido treinamento de combate. A porta da cabine dos pilotos, feita de aço reforçado, é trancada por dentro antes de os passageiros embarcarem, e só é aberta após todos terem desembarcado no seu destino. Não importa o que ocorra nas outras partes do avião, essa porta nunca é aberta durante o vôo.

"Sim, os nossos pilotos vão ao banheiro", diz Klieman, sem confirmar se há banheiros nas cabines.

Talvez para surpresa geral, os pilotos da El Al não trabalham armados. "Ouvi dizer que os pilotos norte-americanos agora querem andar armados, e eu acho que essa é uma má idéia", afirma Tal. "Eles poderiam ser tentados a sair da cabine e machucar alguém. Não dá para pilotar um avião e levar armas de fogo".

Mesmo para os passageiros habituais da El Al, o procedimento de segurança nunca é confortável, e os procedimentos de revista e interrogatório realizados antes do vôo com certeza farão com que você se sinta como um suspeito. Examinando cuidadosamente a minha história, em busca de contradições, a entrevistadora dissecou o meu plano de viagem, que é tipicamente aleatório, como se ele fosse uma conspiração letal.

"Por que você comprou a sua passagem no último minuto?", pergunta a entrevistadora. "Eu modifiquei os meus planos", respondo.

"Por que você está levando caixas embrulhadas?", continua ela.

"Porque gosto de levar chocolates quando alguém me convida para jantar".

Pelos padrões da El Al, a revista pela qual passei foi leve - foram somente dez minutos de interrogatório feito por dois funcionários bem pagos, ambos com treinamento militar completo. O interrogatório terminou com um deles lacrando todos os zíperes da minha bolsa de viagem com fitas plásticas. "Abra-os quando chegar ao hotel", me disse a agente de segurança, antes de me enviar para o balcão de check-in.

O procedimento da El Al é tão demorado que os passageiros precisam chegar ao aeroporto três horas antes dos vôos. Os passageiros podem ser interrogados separadamente por três agentes diferentes.

E eles perguntam aos passageiros onde foi que eles compraram a passagem, a fim de comparar as respostas com os códigos dos bilhetes, que indicam o local de aquisição.

Muita coisa também acontece nos bastidores. Tão logo a bagagem vai do balcão de check-in para a esteira de transporte, ela é colocada em uma caixa pressurizada que detona qualquer explosivo antes que seja colocada no avião. Não se permite o transporte de nenhuma bagagem desacompanhada. Tais bagagens ficam para trás.

A transferência de bagagens de outra companhia para a El Al tem que passar novamente pelos procedimentos de segurança.

Os agentes de segurança vigiam as equipes de limpeza enquanto elas trabalham nas aeronaves, em aeroportos estrangeiros.

Após a intensa operação de segurança, tão logo se entra na aeronave há um certo alívio. Afinal, os passageiros sabem que podem dormir tranqüilos, enquanto agentes disfarçados e armados estão distribuídos pelos assentos, bem despertos na escuridão.

Tradução: Danilo Fonseca

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