Conflito do Oriente Médio provoca desequilíbrio emocional nas crianças

Vivienne Walt

Cidade de Gaza - Até o ano passado, o amigo de maior confiança de Mahmoud Abu-Shalma, de nove anos de idade, era o tio, Akram Hendy, um policial palestino, com quem o garoto passava horas brincando e lendo. Seis meses atrás, quando Hendy falava ao telefone com o jovem sobrinho, a ligação subitamente ficou muda. Um helicóptero israelense havia disparado um míssil contra o posto policial de Hendy, matando-o instantaneamente. Arrasado com a perda, Mahmoud correu atrás do pai rumo ao necrotério para ver o tio - que virou um corpo carbonizado. Nos dias seguintes, o garoto parou de falar e não reconhecia mais ninguém. Ele ainda não se recuperou totalmente.

"Ele mal consegue somar dois mais dois", diz, angustiada, a sua mãe, Reem, de 28 anos, enquanto olha para o filho, um garoto de grandes olhos escuros. "Ele está totalmente transformado".

O trauma sofrido por Mahoud é extremo. Mas, nos territórios da Cisjordânia e Gaza, ocupados por Israel, orientadores profissionais e pais de crianças palestinas e judias afirmam que, após um ano de uma violência sem trégua, que causou a morte de mais de 750 pessoas, eles estão se deparando com problemas psicológicos múltiplos entre as crianças, que estão abaladas pelas perdas, em estado de choque ou profundamente ansiosas com relação à vida.

Embora cerca de 80% das pessoas assassinadas sejam palestinos, e praticamente todo o conflito se desenrole no interior dos territórios palestinos ocupados por Israel, as crianças israelenses não estão imunes aos efeitos da violência.

Para as crianças judias que moram nos assentamentos construídos na Cisjordânia, existe uma ansiedade extra - a possibilidade de serem mortas, já que as suas comunidades se tornaram alvos principais para os combatentes palestinos.

Além disso, a ameaça de terrorismo na região é uma presença constante. Em agosto último, um atentado suicida a bomba, realizado na hora do almoço em uma movimentada pizzaria de Jerusalém, matou várias pessoas, entre israelenses e indivíduos de outras nacionalidades.

"Você alguma vez já viu uma criança de cinco anos que não deseja ganhar um balão de gás?", pergunta Chanoch Yeres, diretor de psicologia escolar paras 10 mil crianças judias que moram nos territórios ocupados da Cisjordânia. "Aqui, elas têm muito medo de balões, devido ao barulho que fazem quando estouram". Yeres também lida com índices muito altos de insônia infantil e incontinência urinária.

Ele diz que as crianças judias que vivem nos territórios ocupados se sentem atualmente muito amedrontadas para se locomoverem livremente para qualquer lugar. "Elas têm medo de viajar pelas estradas. As crianças viram as balas zunindo pelo ar e temem ser alvejadas em suas próprias casas", afirma Yeres. "Estamos presenciando falta de concentração escolar e muitos problemas de alimentação".

"Além disso, há um grande aumento no número de brincadeiras agressivas, onde as crianças brincam de matar os árabes", afirma Amia Liblich, professora de psicologia da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ela é especialista em estresse relacionado aos conflitos.

Segundo os especialistas e pais, tanto palestinos quanto israelenses, o horror que ocorreu nos Estados Unidos - mostrado exaustivamente nas redes locais de televisão - trouxe para dentro das casas sentimentos familiares de desconforto entre as crianças, além de ter aumentado o nível de ansiedade infantil. Baseados nos meses de experiência com os problemas das crianças daqui, esses especialistas afirmam prever problemas bem semelhantes com as crianças norte-americanas nos próximos meses.

"Temo que o que se passou nos Estados Unidos possa ser ainda pior para as crianças norte-americanas do que os fatos ocorridos aqui", afirma Fadel Abu Hein, psicólogo infantil que dirige um centro de crise na Cidade de Gaza e que estuda os efeitos do conflito sobre as crianças.

"As crianças dos Estados Unidos sentiam que estavam seguras em suas casas. Aqui a violência faz parte das nossas vidas", diz ele. "No fim das contas, o resultado é basicamente o mesmo, onde quer que as crianças passem por esse tipo de estresse".

Embora o conflito e a guerra sejam questões dos adultos, o levante palestino, ou intifada, é um fato muito próximo a essas crianças. Mísseis israelenses atingem áreas residenciais dos territórios ocupados de Gaza e da Cisjordânia. Centenas de jovens palestinos foram assassinados ou gravemente feridos.

As janelas e paredes das lojas estão cheias de fotos de adolescentes e até mesmo de crianças pequenas que foram assassinadas. As escolas praticamente não funcionaram durante meses no ano passado. A luta voltou a se intensificar ao sul de Gaza na quarta-feira (03).

Mahmoud El-Gergawi, de 17 anos, parou de ir à escola, passou a evitar o contato com os amigos e praticamente parou de falar, depois que o irmão Osama, apenas 10 meses mais velho, foi morto com um tiro em novembro do ano passado, enquanto jogava pedras contra as forças invasoras israelenses em Gaza.

"Nós íamos juntos a todos os lugares, tínhamos os mesmos amigos, estudávamos juntos e dividíamos o mesmo quarto", conta Mahmoud, que finalmente se recupera, após ter sido tratado por Abu Hein quatro vezes por semana, durante meses. Agora, Mahmoud dorme na cama de Osama, com um velho retrato do irmão morto pendurado na parede. As roupas de Osama estão cuidadosamente arrumadas no guarda-roupas. Quando chegou o verão, a sua mãe tirou do baú as roupas de temporada do irmão.

Abu Hein afirma que vários pais relatam que os seus filhos não estão conseguindo dormir ou que passaram a molhar a cama, mesmo quando não sofreram uma perda na família. "As crianças sentem que não há lugar onde possam estar seguras", diz Abu Hein. "As suas casas e as suas cidades não são seguras".

Essa situação piorou desde o dia 11 de setembro. A imagem dos aviões seqüestrados se chocando contra o World Trade Center, mostradas repetidamente na televisão, tiveram, segundo Abu Hein, um impacto sobre muita gente em Gaza.

Os Abu-Shalma afirmam que os seus seis filhos ficaram tão perturbados ao ver os jatos se espatifando contra os arranha-céus de Nova York, que gritavam e corriam para os pais, buscando proteção, toda vez que a cena aparecia na TV, como se o fato estivesse ocorrendo em frente a sua casa.

"Agora, toda vez em que um helicóptero sobrevoa a cidade, elas acham que o aparelho vai fazer o mesmo", afirma Reem, a mãe das crianças. "Nós paramos completamente de assistir aos noticiários".

Abu Hein estudou centenas de adolescentes palestinos, e descobriu que aqueles que ficaram em casa e não jogaram pedras contra os soldados israelenses sofreram mais com ansiedade e depressão do que os que reagiram com violência às tropas de ocupação.

Liblich, da Universidade Hebraica, diz que uma das melhores formas de se tratar as crianças é adotar uma rotina normal, independente do caos que esteja ocorrendo lá fora. "Temos que manter as tarefas rotineiras e as escolas funcionando normalmente".

Segundo Liblich, assim como acontece com as crianças palestinas de Gaza, a violência é sentida em nível pessoal pelas crianças judias em Israel, algumas das quais conhecem alguém que foi morto ou ferido.

"Nos Estados Unidos, os ataques tiveram um toque fantástico, mas, aqui, as coisas se passam de forma diferente", diz ela. "As pessoas vêem, por exemplo, em um funeral, a foto de um bebê que foi atingido por uma bala".

Em ambos os lados, os traumas podem durar por meses.

Cinco meses atrás, em Gaza, um garoto palestino de 11 anos começou a tremer de forma incontrolável após assistir ao telejornal das 16 horas, depois da aula. O noticiário exibiu as imagens de um homem cujo crânio fora destruído por balas, durante um confronto em Gaza. Desde então, o garoto tem crises de tremores durante várias tardes, às 16 horas, segundo Abu Hein, que vem tratando do menino há meses.

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos