Obrigação de ser politicamente correto impede críticas ao fracasso árabe

John Omicinski

Washington, EUA -- Explosões de ira foram a resposta às polêmicas declarações feitas pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, no dia 26 de setembro. Na ocasião. ele disse que os ocidentais "devem ter confiança na superioridade da nossa civilização".

Obviamente, muita gente no Ocidente não compartilha com Berlusconi da mesma confiança com relação àquilo que ele chamou de "um sistema de valores que proporcionou às pessoas uma ampla prosperidade... e que garante o respeito pelos direitos humanos e pela religião". Segundo o primeiro-ministro, "esse respeito é inexistente nos países islâmicos".

Amr Moussa, secretário-geral da Liga Árabe, chamou Berlusconi de "racista" e de "direitista", mas não fez uma réplica articulada que enumerasse as glórias do progresso e da cultura árabe.

É dessa forma que se realizam as discussões pós-modernas. Uma pessoa acusa alguém de ser "racista" ou "direitista", e depois simplesmente ignora os argumentos do adversário. Essa estratégia de contra-atacar com rótulos é o principal motivo pelo qual a discussão política aterrissou em um vale fechado de atitudes "politicamente corretas", para o qual não há, aparentemente, nenhuma saída à vista.

Há pouca dúvida de que os ataques terroristas de 11 de setembro foram, em pelo menos parte do mundo árabe, o resultado de uma intensa frustração com o fato de a globalização cultural e econômica ter deixado essa região de fora da festa. Fouad Ajami, diretor de estudos do Oriente Médio da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, escreve há muitos anos sobre a questão do fracasso dos países árabes. Ele tem sido ignorado, talvez porque os politicamente corretos não achavam que os tópicos discutidos pelo acadêmico não fosse apropriado aos círculos intelectualizados.

Afinal de contas, os pós-modernistas têm ojeriza à palavra "fracasso". Ela faz pensar em valores como padrão e competição, vencedores e perdedores, termos que eles consideram como sendo muito cáusticos.

"Os países onde a vida pública está organizada em torno da mesquita e da feira pública se atrofiaram ", escreveu Ajami na revista "Foreign Affairs", em 1997. "Cerca de 260 milhões de indivíduos que vivem nesse grande 'arco de crise', do Marrocos ao Irã, exportam atualmente menos produtos manufaturados do que a Finlândia, que tem apenas 5 milhões de habitantes".

"A gangrena econômica causada por políticas fracassadas se tornou agora cruelmente visível", diz Ajami.

Em meados da década de 80, os sonhos do egípcio Gamal Abdel Nasser sobre o nacionalismo árabe se desmancharam como um castelo de areia, nas ruínas de Beirute e na Paris árabe. "Um mundo inteiro escorregou por entre os dedos da elite árabe", escreveu Ajami.

Após tal fenômeno, oportunistas mal-intencionados, como Osama bin Laden, o aiatolá Ruhollah Khomeini, Saddam Hussein e Hafez Al-Assad ocuparam o poder, oferecendo pouca coisa, exceto discursos incendiários de ódio e de anti-semitismo.

A carreira nefasta de Hitler está se reproduzindo no mundo árabe, atingindo o seu ápice no ódio pregado por Bin Laden.

"O desastre é tão grande, até mesmo nos países produtores de petróleo, que as legiões de jovens soldados do desespero estão disponíveis para qualquer demagogo, sendo vulneráveis às falsas promessas", escreveu Ajami. Aqueles que leram Ajami não se supreendem com o fato de bin Laden ser capaz de recrutar tantos jovens desiludidos, que desejam tornar-se kamikazes.

Na maioria dos países da região, a educação não está ao alcance do árabe típico, exceto nas escolas fundamentalistas. Os sistemas de crenças políticas em alguns países árabes são mutáveis como dunas em uma tempestade de areia. Muita coisa tem que mudar para que o mundo árabe possa experimentar algum progresso.

"Para que uma alternativa árabe moderna funcione e passe a ser norma, os paradigmas obsessivos da tradição política árabe - uma historiografia que culpa o Ocidente por todas as mazelas do Oriente Médio - terão que ser abandonados", afirma Ajami.

Berlusconi pode não ter sido diplomático, mas isso não quer dizer que o seu argumento não deva ser levado em consideração.

Tradução: Danilo Fonseca

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