Ataques aos EUA fazem com que muitos reavaliem suas vidas

Robert Davis

Enquanto as conseqüências dos ataques terroristas de 11 de setembro continuam a afetar a nação - com milhares de entes queridos mortos, ondas de demissões e ameaças à liberdade pessoal - algumas pessoas estão examinando detalhadamente as suas vidas e meditando sobre a forma como viveram até o momento.

O mesmo processo de auto-análise que fez com que empresários ricos, mas com problemas pessoais, se tornassem felizes professores de ioga pode levar a mudanças positivas de vida, até mesmo para certas pessoas que estão enfrentando perdas devastadoras.

"A perda pode ser uma força de transformação", afirma Sue Motulsky, uma conselheira de carreiras profissionais de Maynard, Massachusetts, que detectou a emergência de uma nova atitude entre as pessoas, em decorrência dos ataques. "Esses indivíduos se perguntam: como a vida é incerta e como não sabemos por quanto tempo estaremos neste planeta, por que não fazermos algo de que realmente gostamos?".

De certa forma, quanto maior a perda, maior a oportunidade para um novo crescimento, segundo dizem ela e outros especialistas. Aqueles hábitos que pensamos em abandonar podem ser difíceis de serem descartados quando já passaram a fazer parte da rotina diária. À medida que passamos pela mesma rotina dia após dia, aumenta a sensação familiar de conforto.

"Os indivíduos têm medo das mudanças, medo do desconhecido", afirma Barbara Lynne, uma assistente social de Concord, Massachusetts. "Quando existe muita incerteza no ar, o ser humano exibe a tendência para se agarrar àquilo que lhe é familiar".

Mas, quando tudo se esfacela a ponto de paralisar a vida do indivíduo e nada mais é o mesmo, devido a forças externas, tudo, de repente, passa a ser possível. O enfrentamento do temor da morte coloca o medo da mudança sob uma nova perspectiva. "A crise significa oportunidade", diz Lynne. "A oportunidade deriva do fato de e a crise fazer com que você fique paralisado no decorrer do seu percurso. A crise faz com que você pare, olhe e ouça".

"O ataque terrorista está revirando a cabeça de todos", diz Lynne. "Ele está criando um mar de mudança na psique da população norte-americana".

Motulsky concorda com essa afirmação. "Creio que, assim que superarem o choque, muitas pessoas vão se perguntar: 'Espere um momento. Como é que estou utilizando o meu tempo?'", diz ela.

Mark Hauber, de 33 anos, que trabalha como coordenador educacional de um hospital em Boston, é um desses indivíduos. De vez em quando Hauber embarca em um vôo no início da manhã para Los Angeles, saindo do Aeroporto Logan, a fim de visitar os pais. Ele sabe que poderia muito bem ter estado em um dos aviões seqüestrados. Agora, ele decidiu que vai voltar para casa, na Califórnia.

Para ele, essa idéia não é nova. Hauber vinha procurando modificar a sua vida desde que o término de um namoro sério fez com que passasse por um "despertar espiritual", levando-o a repensar as suas prioridades. Mas os ataques conferiram um novo sentido de urgência aos seus esforços.

"Trata-se de uma caixa de Pandora. Quando você a abre, tudo começa a jorrar do seu interior", diz ele referindo-se ao "despertar".

"Certas pessoas tem facilidade de realizar mudanças. Elas simplesmente decidem mudar e possuem a autodisciplina para ir até o fim. Para mim esse processo é mais difícil".

Ele transformou o seu trauma pessoal em um estilo de vida melhor. Hauber trocou de emprego, passou a fazer exercícios físicos e a se alimentar melhor. E ele continua procurando formas de melhorar a sua vida, esperando retornar para a Califórnia.

No entanto, mudar em meio ao caos não é uma tarefa fácil, e pode trazer riscos.

Elizabeth Midlarsky, uma professora de psicologia da Universidade de Columbia que tem orientado sobreviventes da tragédia, afirma que aqueles mais traumatizados são os mais vulneráveis aos maus conselhos. Ela afirma que as pessoas que passaram por traumas devem ser cautelosas quanto a realizar mudanças em suas vidas.

"Não faça alguma mudança que não possa ser facilmente revertida", aconselha a psicóloga. "Este pode não ser o momento adequado para tomar tais decisões. Não descarte impulsivamente os seus valores e não se submeta a transformações abruptas".

Motulky reconhece que a chave para uma transformação bem sucedida é a cautela. Ela aconselha os indivíduos que começam a reconstruir suas vidas após uma perda a se cercarem de uma equipe de conselheiros, formada pela família, amigos, e conselheiros espirituais e profissionais.

Hauber criou para si uma equipe de conselheiros que inclui "uma pessoa que me ajuda a discernir porque estou tomando determinadas decisões de mudança de vida".

Segundo Motulsky, caso seja trabalhado com cuidado, o poder do trauma pode desencadear mudanças capazes de fazer com que determinadas pessoas se tornem seres humanos melhores do que eram antes das perdas.

"Se o seu desespero incomodar o suficiente, é provável que o sentimento antigo seja aniquilado e que você seja capaz de ver as coisas de uma forma completamente diferente", diz ela.

"É como se a perda criasse um espaço novo para ser ocupado por algo que não se encontrava antes no indivíduo".

Tradução: Danilo Fonseca

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