Entre montanhas e cavernas, caçada a Bin Laden promete ser dificílima

Jack Kelley

Islamabad, Paquistão -- Existem centenas de montanhas acidentadas de onde ele pode lançar ataques e milhares de cavernas que não constam em nenhum mapa, onde pode se esconder.

A cada dia ele se muda para um novo local. Só umas poucas pessoas sabem para onde ele vai. Ele não se comunica com o mundo exterior através de nenhum meio que possa ser detectado.

Osama bin Laden e vários dos seus guerreiros mujahedins, especialistas em combate de guerrilha, já participaram de outras guerras. Eles ajudaram a expulsar o exército soviético do Afeganistão. Agora, parecem estar prontos para lutar, ou para tentar superar as forças norte-americanas e britânicas.

Encontrá-lo promete ser uma das mais difíceis caçadas humanas já tentada.

"Os norte-americanos nunca vão encontrar ou derrotar Osama", afirma Maulana Sami ul-Haq, diretor da madrassa (escola religiosa) Dar-ul-Uloom Haqquania. Ele diz ser o melhor amigo de Bin Laden no Paquistão. "Se ele foi capaz de ludibriar os soviéticos, fará o mesmo com os norte-americanos. Diga às forças especiais dos Estados Unidos que eles estão perdendo tempo".

As forças de operações especiais dos Estados Unidos e do Reino Unido, que atuam no Paquistão e nas nações da Ásia Central do Uzbequistão e do Tadjiquistão, já deram início a uma caçada clandestina a Bin Laden, segundo autoridades britânicas e norte-americanas.

Porém, as suas tentativas de rastreá-lo estão sendo seriamente comprometidas pela falta de "inteligência em tempo real" sobre o seu paradeiro. Bin Laden tem ocultado as suas ações e movimentos, e algumas fontes de inteligência no Afeganistão simplesmente "secaram" desde os ataques de 11 de setembro a Nova York e a Washington, de acordo com autoridades paquistanesas.

O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, afirmou que os Estados Unidos têm uma idéia do paradeiro de Bin Laden, não sabendo, entretanto, qual a sua localização exata. Dois membros do Congresso que acompanham as operações disseram ao "USA Today" que as informações de inteligência sobre os movimentos de Bin Laden são supreendentemente boas, e que os comandos "quase" sabem onde ele se encontra.

"Porém, se quisermos levar a sério a tarefa de captura-lo, precisamos saber onde Bin Laden está hoje - e não ontem, na semana passada ou seis meses atrás", diz o ex-diretor de antiterrorismo do Departamento de Estado, Paul Bremer. "E é exatamente esse dado que nós não possuímos. Sem inteligência 'em tempo real', estamos bastante encrencados".

As condições mais difíceis possíveis. Se os Estados Unidos não encontrarem Bin Laden, não será por falta de tentativas.

De acordo com as autoridades do governo, as equipes de operações especiais norte-americanas estão trabalhando com afinco para confirmar a localização de pistas de pouso, bunkers e rotas de movimentação utilizadas por Bin Laden e pela milícia Taleban que lhe fornece abrigo.

Todos esses locais, que já foram abandonados, podem ser alvos de ataques militares contra Bin Laden, devido ao papel que ele teria desempenhado nos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono. Os estrategistas militares querem destruir esses locais a fim de evitar que eles voltem a ser usados.

"Todas as forças especiais são treinadas para operar por vários dias nas condições mais difíceis possíveis", diz o ex-capitão dos Boinas Verdes do Exército, Mike Vickers, que atualmente é diretor de estudos estratégicos do Centro de Avaliações Estratégicas e Orçamentárias, uma organização com sede em Washington. "No decorrer desse período, eles coletam inteligência em terra. Apesar de todos os satélites e aeronaves de reconhecimento existentes, nada se compara a um agente de inteligência vendo o alvo com os seus próprios olhos".

Para ajudar esses agentes a encontrar o paradeiro de Bin Laden, satélites espiões, em órbitas de 36,2 mil quilômetros de altitude, controlados pela Agência de Segurança Nacional, em Fort Mead, registram qualquer comunicação que envolva o Taleban ou os membros da Al Qaeda. Aviões não tripulados, os "drones", enviados pela CIA, tiram fotos do terreno e das movimentações das tropas talebans, segundo as autoridades norte-americanas. A informação é analisada, com o auxílio da força tarefa da CIA que está encarregada de procurar Bin Laden, em Langley, e enviada para as tropas no Afeganistão.

Assim que os ataques militares começarem e os alvos forem identificados, os comandos poderão apontar indicadores a laser para dirigir os aviões de caça aos alvos no solo, caso tal operação se faça necessária.

Porém, as informações sobre o paradeiro de Bin Laden têm sido escassas e confusas. As autoridades norte-americanas e paquistanesas acharam, em ocasiões diferentes, que ele pudesse estar próximo às cidades afegãs de Kandahar ou Jalalabad - que ficam a centenas de quilômetros uma da outra. Relatórios britânicos indicam que ele foi visto recentemente próximo a Cabul, a capital do Afeganistão. Ele possui dezenas de locais diferentes onde se esconder. Relatórios russos identificaram 55 esconderijos diferentes utilizados por Bin Laden e os membros da Al Qaeda, segundo um memorando enviado em nove de março deste ano para o Conselho de Segurança da ONU.

Grande parte da incerteza quanto ao seu paradeiro parece ser o resultado das providências tomadas por Bin Laden para ocultar as suas ações. Há muito tempo ele é conhecido por mudar de localidade várias vezes por semana. Além disso, a fim de evitar vazamentos de informações, ele só informa um ou dois dos seus seguidores de maior confiança sobre o seu esconderijo do momento.

Bin Laden também costuma enviar diversos comboios de veículos de tração nas quatro rodas para várias direções, quando viaja, a fim de confundir a vigilância. Os oficiais paquistaneses acreditam que ele utiliza emissários de confiança, ao invés de telefones ligados a satélites ou fax, para enviar suas mensagens.

E as autoridades talebans também o estão ajudando. Na sexta-feira passada, os soldados do Taleban passaram a montar postos de revista onde, auxiliados por garotas adolescentes, levantam o véu, exigido pela lei fundamentalista do país, da face de toda mulher que passa, de acordo com uma autoridade paquistanesa. Dessa forma, os soldados tentam capturar qualquer agente dos Boinas Verdes ou da CIA que possa estar operando disfarçado de mulher, em uma ação clandestina para conseguir inteligência sobre Bin Laden.

"Só nós sabemos onde está Osama", disse na semana passada o Mullah Abdul Salam Zaeef, embaixador do Taleban no Paquistão. "Ele se encontra em um local seguro onde não será encontrado, nem por George Bush, nem por forças especiais, nem por ninguém".

Para tornar a situação ainda mais difícil, o ISI, o serviço de inteligência do Paquistão, que, segundo os oficiais norte-americanos, possui as melhores informações sobre Bin Laden na região, afirma que alguns dos seus informantes interromperam as comunicações desde o dia dos ataques. Eles ficaram atemorizados com a operação desencadeada pelo Taleban para encontrá-los e puni-los.

Além disso, alguns dos informantes, ainda que desejem vender informações, não gostam do Ocidente e estão furiosos com o Paquistão, porque o país concordou em fornecer informações sobre bin Laden aos Estados Unidos.

Não é a primeira vez que a falta de informação sobre o paradeiro de Bin Laden prejudica as tentativas dos Estados Unidos em capturá-lo. As equipes de operações especiais norte-americanas, localizadas na cidade paquistanesas de Kakul, tentavam capturar ou matar Bin Laden desde 1998, sem sucesso, segundo oficiais paquistaneses e norte-americanos.

As suas tentativas fracassaram devido à escassez de informações de inteligência e porque o golpe militar que levou ao poder o atual presidente, general Pervez Musharraf, colocou um fim à cooperação entre norte-americanos e paquistaneses, de acordo com oficiais de inteligência do Paquistão.

Sepultura afegã

Segundo os estrategistas militares norte-americanos, a falta de informações de inteligência sobre Bin Laden é apenas um dos muitos problemas que os comandos dos Estados Unidos e do Reino Unido têm enfrentado.

Há notícias de que Bin Laden está sempre cercado por cerca de 400 militantes armados, muitos dos quais vieram com ele do Sudão, em 1996. Há também cerca de 40 mil mujahedins, que são guerrilheiros islâmicos, no Afeganistão, que juraram lutar ao lado de Bin Laden. Muitos são veteranos da luta de 1979 a 1989 contra a ocupação soviética. Os analistas militares afirmam que os mujahedins conhecem o acidentado terreno do país melhor do que ninguém.

"Os mujahedins não perdem para ninguém em lutas de guerrilha", afirma o analista de defesa Paul Beaver, em Londres. "Eles derrotaram os soviéticos contando apenas com armas pequenas e muita motivação".

O acidentado terreno afegão também representa problemas. Cerca de 80% do país, que é aproximadamente do tamanho do Estado do Texas, é montanhoso. Há ainda quilômetros de cavernas subterrâneas e bunkers em algumas das províncias do interior, onde os oficiais de inteligência paquistaneses acreditam que Bin Laden possa estar escondido.

O interior do país contém mais de 10 milhões de minas terrestres, a maioria das quais é um legado da luta contra os soviéticos, segundo informações de funcionários da Cruz Vermelha. Várias das minas estão disfarçadas de rochas, ou escondidas dentro de maços de cigarros, ou mesmo maçanetas de portas.

Finalmente, há o rigoroso inverno do país, que vai de novembro a abril. As temperaturas podem chegar a -40 graus centígrados e a neve chega a se acumular em camadas de quase três metros.

"O Afeganistão é uma fortaleza inexpugnável", disse em uma entrevista pelo telefone o parlamentar russo Yevgeny Zelenov, que lutou como membro do Exército Soviético no Afeganistão. "O país é uma sepultura para os exércitos invasores. Eu gostaria que as forças especiais dos Estados Unidos não entrassem lá, já que sofrerão muitas baixas".

Tirá-lo da sua toca

Alguns analistas norte-americanos estão encorajando os Estados Unidos a apoiar a Aliança do Norte, a coalizão antitaleban que controla 10% do Afeganistão. As tropas britânicas SAS, juntamente os comandos norte-americanos e os agentes da CIA, têm equipado e treinado os rebeldes para capturarem mais territórios controlados pelo Taleban, segundo oficiais dos Estados Unidos e do Reino Unido. Os Estados Unidos não apoiaram formalmente a tentativa dos rebeldes de assumirem o controle do Afeganistão.

"Se auxiliarmos a Aliança do Norte e eles forem capazes de conquistar cada vez mais território, chegará um momento em que a área disponível para Bin Laden se ocultar ficará bastante reduzida, e aí poderemos tirá-lo da sua toca", afirma Julie Sirrs, analista de terrorismo e ex-oficial da Agência de Inteligência de Defesa.

Segundo ela, caso contrário os Estados Unidos terão que cruzar os dedos para que o Taleban, ou alguém que faça parte do círculo interno de bin Laden, o entregue aos seus inimigos ou forneça aos oficiais norte-americanos informações sobre a sua localização.

Para o ex-chefe de inteligência paquistanesa, general Hamid Gul, não se deve contar com essa possibilidade.

"Se vocês são incapazes de localizar terroristas em seu próprio país, o que os faz pensar que poderão encontrar Osama no Afeganistão?", questiona Gul. "Os seus soldados vão sair do Afeganistão ensangüentados e de mãos vazias. Vai ser embaraçoso".

Tradução: Danilo Fonseca

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